Victor Palla, o cowboy da máquina fotográfica

Descobriu a fotografia no laboratório do pai, antes de conhecer o alfabeto. Foi fotógrafo, mas também arquitecto, pintor, gráfico, escritor. Nos anos 50 percorreu as ruas da capital ao lado de Costa Martins e o resultado foi "Lisboa, Cidade Triste e Alegre", que a Biblioteca de Paris juntou recentemente à sua lista de livros esquecidos do milénio. A paixão pela objectiva valeu-lhe o Prémio Nacional de Fotografia, o primeiro em mais de 70 anos de carreira.

O encontro foi no Largo da Princesa, "um dos mais belos de Lisboa", segundo Victor Palla, de 77 anos. Se há alguém que pode afirmá-lo, é ele. Lisboa tem sido o objecto do seu afecto pelo menos desde os anos 50, altura em que juntamente com Costa Martins, lhe descobriu encantos materializados em milhares de fotografias. Algumas foram reproduzidas no livro "Lisboa, Cidade Triste e Alegre", publicado em 1957, acompanhadas pelos versos de poetas como Alexandre O'Neill e Jorge de Sena, entre outros. Não sabe o número exacto dos instantâneos que a sua objectiva "roubou" à cidade, mas a máquina de calcular inclina-se para as 10 mil fotografias, "o que não é muito", dirá, "trezentos rolos dão 10 mil fotografias. Faz-se num instante trezentos rolos". Ainda hoje continua a aumentar o espólio, embora o obturador dispare a um ritmo mais compassado. O Centro Português de Fotografia (CPF) atribuiu-lhe, há dias, o 1º Prémio Nacional de Fotografia, no valor de três mil contos (ver PÚBLICO de 24/3), por decisão unânime do júri, constituído pela presidente do CPF, Teresa Siza, Fernando Pernes, da Fundação Serralves, Manuel da Costa Cabral, da Gulbenkian e pelos fotógrafos José Manuel Rodrigues e António Júlio Duarte. Em entrevista ao PÚBLICO, confessou-se admirado com a distinção: "Há pessoas que nem sabem que sou fotógrafo".VICTOR PALLA - Comecei antes de saber ler. O meu pai era do teatro, mas era também fotógrafo amador, fazia e revelava as fotografias lá por casa. Com três ou quatro anos, eu ia para o laboratório dele, achava muita graça e ajudava-o. Daí até agora são mais de 70 anos de fotografia.R - Não. O olhar para Lisboa é o de um amante, de um apaixonado, o que é completamente diferente. É como se eu me tivesse casado com Lisboa. Conheço-a de todas as maneiras. Sempre que viajo, fico com saudades de Lisboa. Noutro sítio qualquer sou um estranho.Hoje em dia, com a televisão, é muito diferente. Algumas pessoas até começam a fazer poses, pensam que é para a televisão. Até pedem para ser fotografadas! Na Nazaré, por exemplo, aquelas mulheres de preto - que é pitoresco fotografar - , quando vêem máquinas fotográficas, tapam os olhos e estendem a mão para pedir dinheiro. Só depois é que tiram...! O Costa Martins, por exemplo, só gostava de fotografar de frente. Eu fotografava de todas as maneiras, de lado, em baixo... Como se diz em inglês, "shoot for the hip", ou seja, fazer como os cowboys que sacam a pistola e atiram.