A galáxia portuguesa de Antonio Tabucchi na Gulbenkian

A relação de Antonio Tabucchi com Portugal está no centro de uma homenagem ao escritor seis anos depois da sua morte. Esta segunda-feira, na Fundação Gulbenkian, arranca uma conferência, ponto alto da programação que integra uma exposição, filmes e leituras musicadas. É a Galáxia Tabucchi.

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Maria José Lancastre na exposição NUNO FERREIRA SANTOS
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Fotografias expostas nas vitrines NUNO FERREIRA SANTOS
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Entre as fotografias, uma de Tabucchi com Sophia de Mello Breyner NUNO FERREIRA SANTOS
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Entre os livros, Fernando Pessoa num desenho NUNO FERREIRA SANTOS
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O livro Requiem e a lista de personagens que nele entram NUNO FERREIRA SANTOS
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Maria José Lancastre na exposição NUNO FERREIRA SANTOS
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Maria José Lancastre na exposição NUNO FERREIRA SANTOS

Um dia, em Janeiro de 1991, Antonio Tabucchi sentou-se num café em Paris para anotar um sonho que tivera com o pai. As frases surgiam-lhe vivas e ele queria apanhá-las com a mínima intervenção do seu Superego. Quando o empregado veio ver se queria mais alguma coisa, perguntou-lhe se era escritor. Disse que sim. “Italiano? Sim. E o que escrevera aos seus leitores de Itália? Foi então que Tabucchi notou que o diálogo com o seu pai italiano, no seu caderno, estava em português. “... eu, escritor italiano, ao transcrever o meu sonho, tinha escrito em português.” Nascia assim o único livro de Antonio Tabucchi escrito numa língua que não o italiano, Requiem. A história vem contada num texto que integra o mais recente livro de Tabucchi publicado em Portugal, Autobiografias Alheias (D. Quixote), volume que reúne textos sobre as criações do escritor que morreu a 25 de Março de 2012 e que sai justamente quando a Fundação Gulbenkian apresenta Galáxia Tabucchi, um ciclo dedicado ao escritor e à sua relação com Portugal e que integra ainda uma exposição, conferências, cinema e leituras musicadas.

“No ano passado, quando fez cinco anos da morte do Antonio, houve várias manifestações públicas para o celebrar, congressos em Itália, em Paris, no Japão, e começou-se a falar de que seria importante e oportuno fazer uma coisa assim em Portugal”, diz ao PÚBLICO Maria José Lancastre, viúva de Antonio Tabucchi, ex-professora de Literatura Portuguesa na Universidade de Pisa, e curadora desta Galáxia, durante uma visita guiada à exposição que tem como título nada mais do que Tabucchi e Portugal. “Há muitos especialistas no mundo que estudam a obra do Antonio e quando chegam à parte de Portugal têm apenas umas noções. Esta é uma maneira de os trazer aqui para não só conhecem a geografia, as pessoas, o ambiente português que influenciaram o seu trabalho e ao mesmo tempo incitar os portugueses a ocuparem-se da obra do Antonio.”

Dois países, duas línguas

É uma relação de 46 anos. De 1966 até morrer, Antonio Tabucchi viveu entre dois países, duas línguas e a paixão, primeiro por Fernando Pessoa e logo depois por Maria José Lancastre com quem casou e veio a ter filhos e netos. Ela não esconde a emoção ao percorrer a parede comprida da galeria do piso inferior do edifício-sede da Gulbenkian. São, simbolicamente, 46 artigos. Neles, o rosto de Antonio Tabucchi, autor de quase 40 títulos entre romance, novela, ensaio em diferentes períodos da sua vida. “Foi uma ideia da Maria Helena Borges quando foi lá a casa e viu a quantidade de jornais e revistas portugueses que tinham publicado recensões e entrevistas com o Antonio. Foi ela quem focou esta iniciativa. Ela estava interessada na relação entre Tabucchi e Portugal. Aderi logo”, conta Maria José Lancastre sem tirar os olhos da parede onde essas páginas aparecem ampliadas, e é possível ler os textos enquanto se vê o conteúdo das nove vitrinas que compõem a exposição, preenchidas com objectos pessoais, livros, fotografias, cadernos e até um poema inédito dedicado a Lisboa e que ajudam a entender não apenas a biografia como a relação do escritor com o país de Pessoa.

“Digo que fiz uma sopa da pedra na Gulbenkian”, brinca Maria Helena Borges. A directora-adjunta do Programa Gulbenkian Língua e Cultura Portuguesas refere-se à ideia inicial de um colóquio de dois dias que foi crescendo para se transformar nesta Galáxia. “Depois da primeira conversa perguntámo-nos: e se além disso fizéssemos uma pequena exposição no hall do museu? Depois descobrimos que coincidia com a festa do Cinema Italiano e então, porque não mostrar um documentário feito por alunos universitários de Siena sobre Tabucchi? E depois a galeria do piso 01 estava vaga nesta altura e a exposição podia crescer. Perguntámos à Cinemateca se não se poderia exibir o Requiem, o filme que resultou da adaptação do único romance em português escrito por ele. E porque não também fazer uma sessão de leitura e música?” Nasceu assim a Galáxia Tabucchi, metáfora que refere a diversidade de interesses do autor e alude a um gosto antigo, como conta Maria José Lancastre “Tudo o que tinha a ver com céu, constelações, estrelas e galáxias está muito presente na obra do Antonio. E mesmo na biografia, quando o avô lhe mostrava o céu e lhe ensinava as constelações e a primeira vontade dele foi ser astrónomo”.

Além da exposição iconográfica e documental que abriu no domingo, 8 de Abril, e se irá manter até 7 de Maio, arranca esta segunda-feira, dia 9, a conferência que reúne especialistas na obra de Tabucchi e será exibido hoje o filme Requiem, de Alain Tanner na Sala Polivalente da Colecção Moderna da Gulbenkian. Terça-feira, dia 10, a conferência termina com leituras por parte de Jorge Silva Melo e Fabrizio Gifuni musicadas por Carlos Martins e Carlos Barretto.

Um percurso psicológico

Em vésperas da abertura, Maria José Lancastre revê as legendas que hão-de acompanhar a exposição. Há um primeiro texto já colado na parede que inaugura a espécie de “percurso psicológico” que ali começa. São palavras de José Cardoso Pires, amigo de Tabucchi, sobre aquele que é o livro mais célebre do escritor italiano, Afirma Pereira. “Afirma este teu Cardoso que o que Afirma Pereira é coisa de muito pensar”, e continua: “Porque é de escrita ousada pela descontracção de contar e surpreendente pela simplicidade com que nos deixa um lastro tormentoso ao descrever a tomada de consciência (tão desprotegida, tão natural) dum homem solitário.” É a nota de que naquele espaço se irá tratar dessa ligação ao mundo português de Tabucchi.

“Era uma ligação de grande carinho mútuo, a do Antonio com Portugal”, sublinha Maria José Lancastre diante da primeira vitrine onde se vê o passe de autocarro de Tabucchi quando ia da sua aldeia, na Toscana, para o liceu, em Pisa; um caderno de linhas preenchido com uma caligrafia bem desenhada, uma fotografia com os colegas de escola e com a professora que o ensinou a ler e a escrever. “Era considerado um bom aluno pela professora que ficou amiga dele até ao fim da vida. Ainda é viva; mora em Florença. Era muito nova quando foi professora do Antonio, teria uns 20 anos. Deve ter agora quase 90. Tenho cartas recentes dela para ele; acompanhou sempre a sua carreira”, salienta a viúva, que escolheu cada um daqueles objectos. Entre eles o primeiro passaporte do escritor. A data é 1963, tinha Tabucchi 20 anos. “Fez uma primeira viagem a Paris, mas depois ficou lá um ano, e lá descobre o Fernando Pessoa e decide aprender português. Vai para Pisa, tem a professora que lhe ensina português e vem numa viagem a Portugal em 1965, quando Gino Saviotti, um intelectual, é director do Instituto. Fala com ele e depois diz-lhe: ‘tenho uma neta que está agora na praia com uma amiga. Foi aí que nos conhecemos e ficámos amigos. Depois eu fui a Itália e pronto.” Maria José Lancastre resume assim uma vida apontando fotografias e parando num recorte de jornal. O ano é 1966. Ele veio a Portugal com uma bolsa. Um jornalista fez uma reportagem e perguntou a alguns alunos, entre os quais o António – foi apanhado na fotografia –, o que estavam a ler. Ele está a ler Herberto Helder.”

A ligação à poesia é grande. Escreveu poemas e escreveria o tal, dedicado a Lisboa, mas várias vezes haveria de afirmar que o talento de poeta era coisa que não lhe assistia. A sua obra irá reflectir essa proximidade, como a outras artes. A amizade com os surrealistas, por exemplo. Entre eles, Alexandre O’Neill e Mário Cesariny. Há fotos com um e com o outro. Numa, está com Cesariny na praia, os dois de calções. Trocaram correspondência. E Tabucchi escreveria um ensaio, La Parola Interdetta: Poeti Surrealisti Portoghesi, onde além de traduções de poemas de Pessoa, traduzia poetas surrealistas.

Brasil, Macau, Açores

A ligação à língua portuguesa levou-o ainda ao Brasil, onde conheceu Carlos Drummond de Andrade; a Macau, para estudar a obra de Camilo Pessanha; aos Açores, de que resultaria um livro, A Mulher de Porto Pym. Não que os lugares o levassem à escrita, como refere Maria José Lancastre, mas às vezes acontecia. E estão outros livros que saiam desta relação. Requiem, com destaque e a mitologia que dele nasceu quando ele escreve sobre a incapacidade de passar para italiano o sonho narrado em português. E há Afirma Pereira, cujo protagonista haveria de ficar para sempre ligado à figura de Marcello Mastroianni e ao filme de Roberto Faenza, de 1996. Uma personagem que lhe apareceu assim: “O doutor Pereira visitou-me pela primeira vez numa tarde de Setembro de 1992. Naquela época não se chamava ainda de Pereira, não tinha os traços definidos. Era algo de vago, de fugidio e de esfumado, mas tinha já vontade de ser protagonista de um livro: era apenas uma personagem à procura de autor. Não sei porque me escolheu a mim para ser contado. Uma hipótese possível é que no mês anterior, num dia tórrido de Agosto em Lisboa, também eu tinha feito uma visita.” É outro dos textos que compõem Autobiografias Alheias, o livro que acaba de sair e que, com outros de Tabucchi, irá estar à venda na sala da exposição. “Achámos importante que houvesse livros, já que se está a falar da obra de um escritor”, refere Maria Helena Borges, chamando a atenção para o facto de haver ainda exemplares em várias línguas para folhear. “Ajuda a criar proximidade, a alimentar a curiosidade”, acrescenta.

Estamos na presença de livros de argumento português, como nota Maria José Lancastre, sublinhando o diálogo que Tabucchi sempre manteve com artistas, escritores, intelectuais portugueses. É o título, aliás, das duas últimas vitrines, onde se podem ver fotografias do autor de A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro com artistas e intelectuais portugueses, desde os anos 70, com José de Guimarães, Alexandre Delgado O’Neill, Costa Pinheiro, Vasco Graça Moura, Fernando Lopes, Joao Bénard da Costa, José Barrias, José Cardoso Pires, Sophia de Mello Breyner, Eduardo Lourenço, Mário Soares ou Paula Rego.

Por fim, na parede do fundo, há um vídeo com passagens de duas entrevistas de Antonio Tabucchi à RTP. Uma de 1994 a Maria João Seixas e outra de 1997 a António Mega Ferreira, mais precisamente 14 e 9 minutos onde revela como começou a sua paixão por Portugal, a relação com a crítica, com Lisboa, com outros escritores.