“Os incêndios ou são atacados logo no início ou é muito difícil suprimi-los”

João Guerreiro, presidente da Comissão Técnica Independente que analisou as tragédias de 2017, considera “teoricamente acertado” o novo modelo de prevenção e combate, mas avisa que o que conta é a prática.

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João Guerreiro presidiu à Comissão Técnica Independente que estudou os incêndios de 2017 LUSA/TIAGO PETINGA

O “grande ensinamento” das tragédias de 2017 é o de que o ataque inicial aos incêndios florestais é fundamental e será, no futuro, particularmente decisivo. É esta a convicção do presidente da Comissão Técnica Independente (CTI), João Guerreiro: “Nas condições meteorológicas que começam a afectar-nos com enorme intensidade, os incêndios ou são atacados logo no seu início ou é muito difícil suprimi-los”, afirmou ao PÚBLICO.

Para que esse ataque inicial possa ter êxito, é preciso juntar conhecimento e meios, avisa: “Recorrer aos modelos de previsão atmosférica incorporando conhecimento actualizado e garantir forças e meios capazes de, rapidamente, conseguirem extinguir as ignições, tenham elas a origem que tiverem”. Por outras palavras, fazer uma “maior integração entre a investigação e a previsão com a componente operacional” e, em simultâneo, promover “uma maior qualificação e profissionalização das forças operacionais”.

Estas recomendações foram transmitidas ao PÚBLICO em respostas a um conjunto de perguntas, por escrito, nas quais João Guerreiro recorda algumas das principais conclusões dos dois relatórios da CTI aos incêndios de Junho e Outubro. E que resume em três ordens de questões: a ausência de prevenção estrutural contra incêndios, por falta de estratégia, nas últimas décadas, para compensar o abandono do mundo rural e de medidas para a gestão da floresta; as alterações climáticas e o aparecimento de fenómenos atmosféricos extremos; e o modelo de combate aos incêndios florestais.

Na sua opinião, o modelo em vigor no ano passado era “pouco qualificado e com enorme dificuldade de coordenação”, além de estar “desfasado das duas primeiras questões e estruturado de forma muito segmentada”.

Nos relatórios, a CTI pôs muito ênfase na falta de prevenção nos dias das tragédias, tanto mais que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tinha alertado para o risco extremo das condições metereológicas nalgumas zonas, que terão sido negligenciados. Nas respostas ao PÚBLICO, João Guerreiro insiste nesse ponto: “Se se tivessem utilizado as capacidades técnicas e científicas para antever o que se iria passar, é provável que os efeitos não tivessem sido tão devastadores”.

Mas o antigo reitor e professor catedrático da Universidade do Algarve prefere agora destacar o objectivo dos trabalhos da CTI de superação dos erros do passado e de “identificação do que, no futuro, devia ser feito, do que devia ser evitado ou do que devia ser objecto de uma alteração profunda do nosso sistema de protecção civil”.

Perante tudo o que já foi anunciado pelo Governo, e embora saliente a escassez de informação sobre o que está a ser preparado para o Verão deste ano, João Guerreiro sublinha pela positiva “a criação da Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais, a aprovação da Directiva Única, a contratação de Coordenadores e de Peritos da Agência (em curso), [e] o reforço do corpo especial da GNR”.

Aplaude também “a mobilização geral em torno da redução dos combustíveis vegetais e das preocupações quanto às medidas de autoprotecção” das populações, mesmo sabendo que há problemas estruturais que não se resolvem de um ano para o outro. “O problema, que resulta da inexistência de uma cultura de afirmação da importância da floresta e, nos últimos anos, do alheamento das políticas públicas destas realidades, não estará resolvido a curto prazo”, sublinha. “Mas o importante é que se adoptem iniciativas, que se tomem decisões e que se avance solidamente nessa direcção”, acrescenta.

Em suma, João Guerreiro considera que o novo modelo “parece teoricamente acertado”. “Mas, como em tudo, depende sobretudo da melhor ‘mistura’ da qualificação das pessoas, da disponibilidade do conhecimento, da convergência institucional, da mobilização social e da criação de uma cultura favorável ao reconhecimento efectivo das funções diversificadas (económicas, sociais e ambientais) proporcionadas pela floresta”, sublinha. com Liliana Valente