O protesto da Cultura fez parecer o Rossio meio cheio e meio vazio

Quase mil pessoas, segundo um dos organizadores, juntaram-se em Lisboa no “Apelo pela Cultura”. Palavras de ordem, pedidos de um aumento substancial de orçamento para o sector, mas principalmente uma política que não seja só “uma flor na lapela” ou “despacito”.

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Nuno Ferreira Santos
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Se as probabilidades de chuva eram de 50% para o Rossio às 18h, hora para que estava marcado o protesto em Lisboa dos artistas, culminando uma semana intensa de contestação que começou com os resultados dos concursos de apoio às artes, podemos dizer que o tempo esteve do lado dos manifestantes. Até pelo menos às 19h30, quando alguns manifestantes já começavam a abandonar o Rossio, não caiu uma gota num dia em que a chuva chegou a ser copiosa.

Mas, quando se tratou de avaliar a dimensão do protesto, aqueles que viam o copo mais vazio não deixaram de culpar a ameaça de chuva. A manifestação encaixou-se entre o espaço que vai da estátua de D. Pedro IV e uma das duas fontes do Rossio, aquela que está mais próxima do Teatro D. Maria II. Havia muita gente do teatro, o que era expectável, uma vez que um terço das 183 estruturas apoiadas pelos concursos são da área do teatro, mas também da dança, do cinema, da televisão e de outras profissões mais novas, como os mediadores culturais.

A actriz Rita Blanco, que faz teatro, mas também televisão e cinema, estava à espera de mais pessoas — “não vi muita gente ligada às partes mais técnicas” —, mas mais do que a contabilidade dos números ficou impressionada por ter visto gente de todos os sectores, “como os actores de telenovelas, isso é uma coisa nova”. Para ela, que não vai a uma manifestação “há muito anos”, nem sequer foi às contra a troika, o que conta é as pessoas acharem que podem estar próximas e fazer algo em conjunto. Ao seu lado, Pedro Borges, produtor e distribuidor de cinema, defende que “não se podia esperar mais do que isto, depois dos remendos” recentes do Governo, ou seja, os três reforços orçamentais que alargam de 15 para 19,2 milhões de euros a dotação dos concursos de apoio às artes.

Sara Machado, uma das manifestantes que tomou a palavra durante o protesto, estima que estiveram entre 600 e 700 pessoas no Rossio. Falou em nome da REDE, associação que junta 30 estruturas ligadas à dança contemporânea, repetindo aquilo que disseram várias vozes, como Cíntia Gil, directora do festival DocLisboa. Se Sara Machado lhes chamou “soluções paliativas”, já Cíntia Gil, que representa a Plataforma do Cinema, que reúne produtores, realizadores, programadores e técnicos, gritou ao microfone que “a política cultural não se faz a atirar dinheiro para cima dos problemas”. Depois vieram as palavras de ordem: “1% para a cultura, Honrado para a rua”, referindo-se ao secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, o arquitecto do novo modelo de apoios às artes, mas também da nova regulamentação da Lei do Cinema. “Esta tutela acabou. Não tem credibilidade, nem capacidade de diálogo.”

Ao lado, tornava-se impossível ouvir Jerónimo de Sousa, uma vez que as palavras saídas do sistema de amplificação de som se sobrepunham às do secretário-geral dos comunistas, partido que apoia o PS no Governo. Mas o líder do PCP, reporta a agência Lusa, defendeu que 1% do Orçamento do Estado para a cultura “é perfeitamente viável”.

Jorge Silva Melo, director do grupo de teatro Artistas Unidos, diz que é preciso criar rapidamente uma plataforma de diálogo com o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, e com o secretário de Estado para rever e corrigir o que está mal: “Só não percebo por que levaram tantos meses a ouvir-nos.” E o tamanho do protesto “não lhe pareceu nada mal”: “Não conheço 60% das pessoas e isso é bom. Vejo gente da televisão, que não estava à espera. É curioso este brusco renascimento do protesto. Espero que não descambe e que não se peçam demissões ad hoc.” Referia-se àquela que se tinha tornado uma das palavras de ordem: “1% para a cultura, Honrado para a rua”.

“Essa palavra de ordem não rima”, diz o realizador Miguel Gomes. “Mas só vale a pena ter 1% para a cultura com uma tutela que a saiba administrar.” Ele, cuja última manifestação em que participou foi “aquela gigante contra a troika, considera que a política é para este Governo de António Costa “uma flor na lapela”: “Há um desinvestimento em relação ao lugar que a cultura deve ocupar na política. Se o Honrado deve ir para a rua — porque é responsável por dois modelos que não funcionam [para o cinema e para as artes] —, o ministro também não passa de um holograma.”

A coreógrafa Vera Mantero diz que esperava muito mais de António Costa e que não está ali porque tenha tido qualquer problema com o seu apoio: “O descalabro com os concursos é só um reflexo da falta de ambição. Não vejo nos políticos um verdadeiro desejo de cultura, para que os portugueses não sejam um povo embrutecido, mas que saibam pensar e sejam capazes de desenvolver uma sensibilidade a vários níveis. Num momento em que as sociedades estão sujeitas a tanta manipulação e propaganda temos que conseguir ter mecanismo de pensamento, de distanciamento.”

Um dos cartazes que se via no Rossio tinha escrito “Chega de Despacito”, a canção de Luis Fonsi, e servia para dizer, de outra forma, que “não é só uma questão de dinheiro”, insiste Sara Machado, da REDE. “Achei o protesto bom e diferente quando comparado com os anteriores, porque as pessoas estão unidas. Mesmo os reforços orçamentais não estão a conseguir dividi-las entre apoiados e não apoiados.” Além disso, sublinha, este protesto é nacional, com manifestações que aconteceram à mesma hora no Porto, em Coimbra, Beja, Funchal e Ponta Delgada (a Lusa relata que na Praça Carlos Alberto, no Porto, estavam cerca de 200 pessoas).

A ênfase na união era também o discurso do actor Diogo Infante, que teve o cuidado de dizer que o Teatro da Trindade, de que é director, não recebe apoios destes concursos: “Não podia não vir. É um movimento artístico colectivo, uma posição que expressa um desapontamento generalizado em relação à expectativa que tínhamos com este Governo.”

No início do protesto, Alexandra Espiridião, que viu a crise acabar com a sua companhia de teatro em Évora, era das que dizia que a ameaça de chuva podia ter afastado algumas pessoas: “Acho que há um sentimento de classe. Eu fui das que caíram pelo caminho, mas é importante manifestarmo-nos por aquilo em que acreditamos, contra as injustiças e pela transformação.”