Olhão das mulheres "impenetráveis" e dos bravos pescadores

Do bioco, a capa com capuz negro antigamente usada pelas mulheres, à arquitectura, Olhão tem uma identidade única, nascida de um espírito de desafio à autoridade.

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“De manhã saio em Olhão deslumbrado”, escreve Raul Brandão no seu livro Os Pescadores, sobre a então ainda vila, que visitou em Agosto de 1922. “Céu azul-cobalto — por baixo, chapadas de cal. Reverberação de sol, e o azul mais azul, o branco mais branco. Cubos, linhas geométricas, luz animal que estremece e vibra como as asas de uma cigarra. […] É uma terra levantina que descubro; só lhe faltam os esguios minaretes.”

Olhão tem carácter e isso, dizem os que a conhecem bem, vem de uma história feita, desde o início, de um espírito de independência e de desafio. Nasceu quase por acaso, pela mão de pescadores vindos de Faro (a que se juntariam mais tarde outros de Ovar e Ílhavo) que para aqui se mudavam, sobretudo nos meses de Março, Abril e Maio, para a pesca.

Percebendo a riqueza das águas da ria Formosa, os pescadores foram-se instalando de forma mais definitiva, no princípio em cabanas feitas com madeira e palha. Conta um artigo no site www.olhao.web.pt que desde o início do século XVII havia registo de moradores na praia de Olhão, mas só em 1715 é dada autorização para a construção da primeira casa em alvenaria — até aí, refere o texto, “o poder político em Faro” sempre tinha recusado essas construções.

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Daí vem o espírito de desafio desta terra de pescadores que, mesmo sem o reconhecimento do Governo Civil de Faro, acabaria por se afirmar. E isso aconteceu na altura das invasões francesas. “Provavelmente devido ao seu espírito igualitário, sem compromissos com quaisquer poderes instituídos, os olhanenses protagonizaram no século XIX a primeira sublevação bem sucedida contra a ocupação francesa”, prossegue o texto.

Orgulhosos do feito, uma dúzia, ou pouco mais, de marinheiros decidiu então fazer-se ao mar no caíque Bom Sucesso (hoje pode-se ver uma réplica desta embarcação na ria, em frente ao Mercado) para navegar até ao Brasil e dar a notícia ao rei D. João VI. Este, impressionado com a coragem daqueles homens que, num pequeno barco, tinham atravessado o Atlântico, elevou a aldeia de Olhão a vila, passando a chamar-se Vila de Olhão da Restauração.

Mas os gestos de desafio continuariam a repetir-se ao longo do tempo. Veja-se a persistência, em Olhão, do traje feminino aqui chamado de bioco, uma capa negra com capuz, cobrindo quase totalmente a mulher, e que se usava noutros pontos do Algarve até ter sido proibida, em 1892, pelo Governador Civil de Faro, ordem que, claro, as mulheres de Olhão ignoraram, continuando até ao início do século XX a usar o bioco que as tornava tão semelhantes às argelinas e marroquinas do outro lado do mar — “impenetráveis”, nas palavras de Raul Brandão.

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Enquanto iam conquistando a sua autonomia, os olhanenses exploravam também outras paragens. As ligações ao Norte de África (e até ao Sul de Angola) foram sempre muito fortes e Raul Brandão recorda como, meio século antes da data da sua visita, “Olhão, entranhado de salmoura e perdido no mundo, vivia só do mar”.

Explica o escritor que “o grande negócio de Olhão sempre foi o contrabando”, o que também revela o carácter da gente, porque “não é contrabandista quem quer: é preciso inteligência e astúcia, arrojo, o alerta de um chefe selvagem e a imaginação de um poeta.” De qualquer forma, “toda a gente em Olhão, ricos e pobres, protegia os contrabandistas e entrava no negócio” e, por isso, “nunca em terra se apreendeu uma peça de fazenda”. Quando havia suspeitas, elas passavam de mão em mão, desaparecendo de açoteia em açoteia, “para o que basta estender o braço”.

Foi este cenário de casas construídas como cubos, com as açoteias elevando-se sempre mais altas, que, nos anos 1940, encantou o fotógrafo Artur Pastor, autor daquelas que serão, possivelmente, as mais belas fotos das estreitas ruas do bairro da Barreta e do recorte de Olhão contra o céu.

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Algumas das imagens de Artur Pastor podem ser vistas no Museu da Cidade, que funciona no edifício do Compromisso Marítimo, em frente da Igreja da Nossa Senhora da Soledad, a primeira construção em pedra da cidade e em cuja fachada foi colocada uma lápide esclarecedora: “À custa dos homens do mar deste povo se faz este templo novo no tempo em que só havião [sic] umas palhotas em que vivião [sic].”

Este mar de açoteias não servia apenas para esconder o contrabando — os terraços eram usados, sobretudo, para secar os figos ou a alfarroba. Num texto de 1945, Francisco Fernandes Lopes explica por que é que, também neste aspecto, Olhão é diferente de outras terras algarvias (note-se, por exemplo, que as chaminés são lisas, de linhas direitas, e não rendilhadas): é que de uma açoteia sobe-se para outra e, por fim, para o mirante, que, em alguns casos, pode ainda ter por cima outro mirante mais pequeno. São “três terraços sobrepostos em pirâmide”, uma “especificidade”, escreve o autor, “única em todo o Algarve, em todo o Portugal, em todo o Mundo mesmo”.

Para Raul Brandão, a açoteia é nada menos do que a melhor parte da casa: “O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada. Se um vizinho a ergue, ele nunca fica atrás — levanta-a logo mais alto. É que a açoteia é o seu encanto: sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.”