Editorial

O Brasil entrou no sobressalto das eleições presidenciais

O Brasil inicia a contagem decrescente para as presidenciais de Outubro num clima de desconforto e descrença. A candidatura de Michel Temer só vai reforçar essa onda

Ainda falta meio ano para as presidenciais no Brasil e o cenário de absoluta incerteza causada pela tormenta política da corrupção que se adivinhava conhece agora um outro tempero: o da novidade surpreendente. Sintoma de um país descrente, de um sistema partidário estilhaçado e de um contexto político desestruturado, a pré-campanha ganha forma sob o impulso de uma realidade caótica e imprevisível.

Lula da Silva, que lidera todas as sondagens, será certamente impedido de concorrer na sequência da sua condenação num tribunal de segunda instância. E entre as 18 figuras que a imprensa brasileira contabiliza na linha de partida para a corrida de 7 de Outubro haverá quem queira chegar ao fim e quem procure apenas capitalizar a publicidade que estes eventos concedem aos seus partidos. À direita, ameaçador, correrá Jair Bolsonaro; Ciro Gomes e Marisa hão-de lutar pelos despojos do PT e ganhar os votos da esquerda; Geraldo Alkmin tentará atrair o DEM de Rodrigo Maia para ensaiar uma estratégia para o centro-direita e explorar o filão eleitoral de São Paulo e do sudeste; e Michel Temer, provavelmente com o seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tentará segurar o eleitorado que orbita em torno desse centro de interesses transformado em partido que é o PMDB.

PMDB? Não, agora o maior partido do Brasil, o exemplo máximo do “fisiologismo”, recuperou a sigla da luta contra a ditadura (MDB), como se Temer fosse um herdeiro de Tancredo Neves ou de Ulysses Guimarães. Levado ao Palácio do Planalto na sequência do que muitos observadores designam por “golpe constitucional”, protegido pela imunidade das suspeitas da Justiça, resguardado por um partido sem outra ideologia que não a dos interesses, Temer ameaça dar o dito pelo não dito e pondera candidatar-se. Não será por ser um político amado pelos brasileiros – pelo contrário. Pode ser que o faça em defesa dos resultados razoáveis do seu Governo na frente económica. Mas há-de seguramente fazê-lo por saber que um mandato político é o lugar mais seguro para se livrar da pressão da Operação Lava-Jato.

Num tempo em que era necessário um rosto capaz de fazer pontes numa sociedade dividida e descrente (como o foi Fernando Henrique Cardoso em 1994), o sistema político brasileiro expõe toda a sua exaustão ao recuperar o passado nem sempre recomendável ou a apresentar como novidades algumas personagens sem futuro que afrontam os mais básicos valores da democracia. O Brasil e os brasileiros mereciam melhor.