Empresa terá também interferido em eleições na Nigéria

A empresa de consultoria britânica viu-se envolvida num escândalo de manipulação de dados para propaganda política, levando a investigações sobre a influência na campanha eleitoral de Donald Trump e no referendo sobre o "Brexit". Testemunhas relataram ao The Guardian manipulação nas campanhas eleitorais da Nigéria e do Estado de São Cristóvão e Nevis, nas Canárias.

Fotogaleria
O chefe executivo da empresa de consultoria britânica, Alexander Nix, foi suspenso esta terça-feira FACUNDO ARRIZABALAGA/EPA
Fotogaleria
Christopher Wylie, o antigo funcionário da Cambridge Analytica que denunciou o caso diz que o objectivo era construir modelos para explorar os "demónios interiores" dos eleitores HENRY NICHOLLS/reuters
Fotogaleria
Dados são retirados da sede da Cambridge Analytica HENRY NICHOLLS/reuters
Fotogaleria
Mark Zuckerberg emitiu um pedido de desculpa via a própria rede sociald e que é fundador e deu três entrevistas: à CNN, ao New York Times e à revista Wired ROBERT GALBRAITH/reuters

A Cambridge Analytica foi acusada de se apropriar de emails provenientes de hackers com informações pessoais sobre dois políticos, actualmente chefes de Estado. A consultora terá recebido material de especialistas israelitas que acederam aos emails privados dos políticos, nomeadamente do Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, e do primeiro-ministro de São Cristóvão e Nevis, Timothy Harris, de acordo com informação divulgada esta quinta-feira por fontes anónimas ao The  Guardian.

Várias testemunhas divulgaram ao jornal britânico que os directores da Cambridge Analytica – incluindo o ex-presidente executivo, Alexander Nix – deram instruções aos funcionários da empresa para trabalharem com dados fornecidos por hackers nas campanhas eleitorais da Nigéria e do Estado de São Cristóvão e Nevis, nas Canárias, em 2015. As fontes alegam que os episódios levaram os funcionários a recusar lidar com os dados fornecidos, os quais teriam sido obtidos de forma ilegal. A SCL Elections, empresa de comunicação estratégica proprietária da Cambridge Analytica, negou ter tomado posse de qualquer informação pessoal roubada ou hackeada sobre os dois políticos em causa para utilização nas suas campanhas.

Os jornais britânicos The Guardian e Observer entrevistaram sete pessoas ligadas à Cambridge Analytica e à campanha eleitoral desenvolvida pela empresa na Nigéria, no início de 2015, tendo apurado que a consultora recebeu um valor estimado de 2 milhões de libras esterlinas (cerca de 2,28 milhões de euros ao câmbio actual) de um bilionário nigeriano para apoiar a reeleição do político Goodluck Jonathan e organizar uma campanha contra o líder da oposição, Muhammadu Buhari. Na corrida presidencial, Goodluck Jonathan acabou por perder, não existindo evidências de ligações do político com a operação secreta.

Os funcionários que testemunharam contra a empresa alegam que tiveram reuniões com companhias de segurança cibernética israelitas nos escritórios da Cambridge Analytica em Mayfair, Londres. Alegadamente, de acordo com informação do Guardian, os hackers israelitas terão entregue uma pen drive aos analistas com informação de emails pessoais dos políticos. As testemunhas acusam ainda Alexander Nix, ex-presidente da Cambridge Analytica, de pedir que os analistas procurassem por material incriminatório que pudesse ser usado para prejudicar os candidatos da oposição da campanha eleitoral na Nigéria, nomeadamente Muhammadu Buhari, o que terá deixado os funcionários desconfortáveis e em pânico.

Um membro da equipa que organizou a campanha eleitoral disse, ao Guardian, que a informação que acreditam ter sido hackeada incluía registos médicos de Buhari. Aos funcionários da Cambridge Analytica a trabalhar na Nigéria terá sido recomendado, pelos conselheiros de segurança local, o abandono do país imediatamente, tendo em conta que corriam riscos caso os partidários da oposição tomassem conhecimento do que se estava a passar. "O que está claro é que a segurança dos funcionários nem sequer lhes parece ter ocorrido", disse uma das testemunhas.

No entanto, de acordo com um comunicado da SCL Elections, citado pelo jornal britânico, os membros da equipa permaneceram no país durante o período da campanha – as eleições foram adiadas devido a conflitos com o grupo islâmico Boko Haram e problemas técnicos – e abandonaram a Nigéria na altura estipulada pelo plano de campanha da empresa, acrescentando que os funcionários "foram regularmente informados sobre questões de segurança antes e durante o desenvolvimento [da campanha] e foram tomadas medidas para garantir a segurança da equipa durante todo o processo". O mesmo jornal faz ainda referência a um email de Alexander Nix, datado de 26 de Janeiro de 2015, no qual o ex-director se referia à "equipa israelita" e às actividades que desempenhou durante o período de campanha eleitoral na Nigéria.

No referido comunicado, a SCL Elections afirma que “durante uma campanha eleitoral, é normal que [a empresa] se reúna com fornecedores que pretendem prestar serviços como subcontratantes”, dizendo, no entanto, que não se apropriou de qualquer informação proveniente de hackers.

O segundo episódio de manipulação eleitoral a que as testemunhas do Guardian se referem, ocorrido também em 2015, diz respeito a Timothy Harris, político do Estado de São Cristóvão e Nevis, nas Canárias. De acordo com as testemunhas, a mesma equipa de hackers israelitas terá obtido informação privada sobre o actual primeiro-ministro, que na altura era líder da oposição.

O escândalo da Cambridge Analytica

As actividades da empresa de recolha e análise de dados, que recentemente se viu envolvida num dos maiores escândalos de roubo e manipulação de dados para propaganda política, estão a ser investigadas nos EUA pelo procurador especial Robert Mueller por suspeitas de um possível conluio da Rússia nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA. A Cambridge Analytica tem sido pressionada a explicar como teve acesso não autorizado a mais de 50 milhões de perfis do Facebook de eleitores americanos, dados que terá usado para construir um programa de software para prever e influenciar as escolhas nas urnas ao usar os dados recolhidos nas redes sociais para manipular as emoções dos utilizadores e conquistar votos.

Uma investigação do canal televisivo britânico Channel 4 denunciou o escândalo de manipulação eleitoral e destruição do sistema democrático por parte da empresa em vários pontos do globo. Os executivos da Cambridge Analytica chegam a assumir, em gravações ocultas, a responsabilidade por vitórias eleitorais em dezenas de países – como o Quénia, México, Malásia e Brasil – e revelam que usam serviços de empresas especializadas e “agentes secretos de países como Israel” para recolher informações e manipularem os eleitorados. Algumas das declarações são feitas pelo antigo administrador, Alexander Nix, o que levou à sua suspensão no início desta semana.

O papel do Facebook

Parlamento Europeu chamou formalmente Mark Zuckerberg para depor sobre o papel do Facebook no uso de dados de cidadãos europeus. Uma comissão parlamentar do Reino Unido convocou também o fundador da rede social para o mesmo efeito. A Cambridge Analytica está sob investigação pela Comissão Eleitoral e pelo Comissariado de Informação britânico por suspeitas de ter manipulado a campanha do referendo sobre o "Brexit", em 2016, e por violações da lei eleitoral e da protecção de dados. Nos EUA, a Comissão Federal para o Comércio anunciou que também vai investigar o Facebook para averiguar se houve uso ilegal de dados pessoais. 

Após cinco dias de silêncio, Zuckerberg, através de mensagem publicada no seu próprio perfil do Facebook, reconheceu “erros” da rede social e anunciou investigações a várias aplicações para garantir a segurança dos dados dos utilizadores. O fundador do Facebook afirmou que assim que soube de falhas de segurança, há cerca de dois anos, exigiu à Cambridge Analytica a eliminação da informação, ordem que a empresa não terá cumprido.

Ainda na quarta-feira, numa entrevista à CNN, Mark Zuckerberg expressou um pedido de desculpas e admitiu que está à espera de legislação que ajude a controlar a acção da rede social, mostrando-se disponível para testemunhar pessoalmente caso seja necessário. 

Texto editado por Maria Paula Barreiros