A nova vida do museu da Escola Politécnica 40 anos depois do incêndio

Este domingo assinalam-se os 40 anos do incêndio da Escola Politécnica, em Lisboa. A 18 de Março de 1978, uma parte importante da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do museu que lá estava ficou destruída. Hoje a colecção de história natural do museu já têm 1,3 milhões de exemplares.

Fotogaleria
, Rui Santos
Fotogaleria
, Rui Santos
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas
Fotogaleria
João Freitas

Dezoito de Março de 1978. Era sábado e o relógio marcava as sete da manhã. Mesmo assim, Maria João Collares-Pereira secava o cabelo para ir trabalhar. Na altura, com 26 anos, era assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e estava a meio da sua tese de doutoramento sobre a evolução de peixes de rio. O telefone tocou. Eram o seu orientador, o biólogo Carlos Almaça, e o naturalista do Museu Nacional de História Natural António Soares. Perguntaram-lhe se já tinha ouvido as notícias. Disse-lhes que não. Do outro lado veio algo inesperado: o museu estava a arder. Nem acabou de secar o cabelo. Foi logo para a Rua da Escola Politécnica, onde se localizava a faculdade e o museu.

Em frente à confeitaria Cister, lá estavam o seu orientador e o naturalista. António Soares agarrou-se a ela a chorar e disse-lhe que uma parte importante das colecções do Museu Bocage (uma secção do museu) tinha ardido. “Pedi para atirarem as caixas cá para baixo [do seu gabinete] e vou ver se nos deixam entrar. Já estamos no rescaldo e está tudo cheio de água”, terá dito. Maria João Collares-Pereira respondeu: “Não vale a pena. As caixas estavam vazias, deixei tudo espalhado em cima da minha bancada.” No incêndio que faz 40 anos este domingo, Maria João Collares-Pereira, agora professora catedrática aposentada, perdeu todo o seu trabalho de investigação.

O incêndio começou no início da madrugada desse dia nos pavilhões pré-fabricados na actual jardineta do museu. Depois, foi-se alastrando. A primeira chamada para a central telefónica do comando do Batalhão de Sapadores Bombeiros foi à 1h12.

Nessa madrugada, João Freitas ia com os amigos para o Bairro Alto. “De repente vi um clarão sobre aquela zona da cidade”, conta o então aluno de 2.º ano de Biologia da FCUL. Acabou por ficar lá toda a noite e fazer o registo fotográfico. O agora professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa tem como principal memória o Museu Bocage a arder. “Não era um sítio onde os alunos da minha idade entrassem. Estavam lá peças únicas.” Nessa noite, com mais alguns alunos e professores, conseguiu entrar na expectativa de salvar algo. “Já havia labaredas no tecto. Ainda tenho essa imagem presente: o Museu Bocage iluminado pelas labaredas. Foi a primeira e última vez que o vi.”

Arderam os pavilhões pré-fabricados, que tinham seis salas grandes, onde havia aulas teóricas e práticas. Ardeu a secção de zoologia e antropologia, assim como a de mineralogia e geologia. A secção de química, o Jardim Botânico e partes do edifício mais próximas da química resistiram. “Só me lembro de ver aquilo a arder e termos de atacar por um lado e pelo outro”, diz José Tomé agora com 86 anos e, na altura, chefe de segunda classe do Regimento de Sapadores Bombeiros. “A certo momento, tivemos conhecimento de que era preciso resguardar a parte onde estavam os químicos.” O incêndio acabou às 17h15. Qual a causa? Indeterminada, segundo o relatório dos bombeiros.

PÚBLICO -
Foto
Incêndio na Escola Politécnica João Freitas

Um rápido renascer

Fernando Catarino recebeu o telefonema por volta das cinco da manhã. “Nem queria acreditar”, recorda o professor catedrático jubilado, que era professor extraordinário da FCUL e foi durante 20 anos director do Jardim Botânico. Foi logo para Lisboa. “Quando cheguei ao ângulo em que se vê a Escola Politécnica [quando se vem do Cais do Sodré] olhei e ainda havia chamas, lume, fumo e água a correr. Mas o fogo já estava dominado.”

Lembra que quem estava a assistir quis salvar o que podia: “Existia algum perigo de derrocadas e estávamos a tentar salvar uma colecção de amonites.” Para tal, fizeram uma fila e passaram os exemplares um a um. Não perdeu nada no incêndio porque a parte da botânica foi poupada. E frisa que houve vontade de começar uma “nova” faculdade dias depois com uma assembleia na Aula Magna com alunos, funcionários e professores. “Foi difícil mas teve um efeito positivo: no fim da desgraça houve um ponto de viragem.”  

Nos anos 70, os alunos aumentaram no ensino superior e as instalações na Rua da Escola Politécnica eram pequenas para todos. Depois do incêndio, houve aulas na parte da FCUL que não ficou destruída, num prédio da Travessa do Rosário e na Avenida 24 de Julho. Em 1984, a faculdade começou a mudar-se para o Campo Grande com a inauguração do edifício C1. A mudança definitiva foi em 2004 com a abertura do edifício C6. “Nos anos 80 e 90, os alunos da Faculdade de Ciências chegavam a ter aulas nos três sítios – Politécnica, 24 de Julho e Campo Grande – e, no mesmo dia, podiam ter aulas nos três sítios”, diz Júlia Alves, actual coordenadora do gabinete de segurança, saúde e sustentabilidade da FCUL.

Durante esses anos, Maria João Collares-Pereira foi professora e investigadora na faculdade. Mas os tempos a seguir ao incêndio foram complicados. “Fiquei sem nada. Trabalhava loucamente aos sábados, domingos e feriados, para além do tempo normal. Sempre fui muito apaixonada pelo meu trabalho de investigação.” Quando isso aconteceu, o pai, que era advogado, propôs-lhe que se tornasse sua secretária e que desistisse da biologia. O orientador, o naturalista e os colegas disseram-lhe que esquecesse essa ideia. Mas nem tinha as colecções de peixes para estudar ou documentos das que tinha estudado em Paris.

PÚBLICO -
Foto
Incêndio na Escola Politécnica em 1978 Rui Santos

O naturalista António Soares foi uma ajuda essencial: viajou com ela em busca de exemplares pelo país. Acabou por terminar a tese no limite do tempo. “Fica a sensação de que vale a pena lutar e não desistir”, diz. “Sozinha não teria conseguido. Vale a pena contar com a solidariedade dos outros. Isso não vou esquecer.”

Também recomeçou a colecção de peixes do museu. “Queria que aquele museu voltasse a ser algo extraordinário, então vinha com peixes de Inglaterra, de Paris ou Madrid”, lembra. “O museu possui uma importante colecção de peixes dos nossos rios, que foi iniciada após o incêndio por Carlos Almaça e Maria João Collares-Pereira, e desde 1999 continuada por mim, curadora desta colecção, que conta agora com mais de 50 mil exemplares”, frisa Judite Alves, coordenadora da área de história natural do museu.

Mas qual o rasto deixado por aquela madrugada trágica no museu? “É difícil ter números do que se perdeu, pois os catálogos e inventários também se perderam. Mas foram certamente muitos milhares de exemplares”, diz Judite Alves.

Em 1978, o museu chamava-se Museu Nacional de História Natural e integrava-se dentro da faculdade. Dividia-se em três secções: Museu e Jardim botânico; Museu Mineralógico e Geológico; e Museu Zoológico e Antropológico (Museu Bocage). Só em 2003 se autonomizou formalmente da FCUL e tornou-se, em 2011, o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC). Sabe-se que as colecções zoológicas foram totalmente destruídas. “Sobreviveram cerca de 200 exemplares de peixes, insectos e anfíbios que estavam emprestados. A colecção perdida é de valor incalculável, pois incluía os espécimes colectados durante as expedições portuguesas no Brasil e África, realizadas no final do século XVIII e XIX”, conta Judite Alves.

Também cerca de 40% das colecções geológicas foram destruídas, com perdas maiores nas colecções de mineralogia e petrologia. Por exemplo, dos 15 mil minerais existentes naquela altura, sobreviveram ao incêndio cerca de cinco mil (agora são 11 mil). Já as colecções de botânica, como estavam num edifício do Jardim Botânico, não foram afectadas. A curadora conta que, nos meses seguintes ao incêndio, o museu fez expedições científicas em Portugal e vários museus e investigadores estrangeiros responderam aos apelos de doação de exemplares. “Contudo, as principais doações vieram de instituições portuguesas.”

PÚBLICO -
Foto
Incêndio na Escola Politécnica em 1978 João Freitas

Hoje, as colecções de história natural do museu (com as colecções do Instituto de Investigação Científica Tropical – IICT, que integra a Universidade de Lisboa desde 2015) são 1,3 milhões de espécimes, sendo 830 mil espécimes do MUHNAC. “Cada espécime em colecções é único, pois documenta a diversidade geológica e biológica de um determinado local, num dado momento. Portanto, o que se perdeu é irreparável”, considera Judite Alves. “Mas podemos dizer que o museu já se reergueu, pois possui hoje colecções muito relevantes e o número total de exemplares ultrapassará o número então existente.”

Jardim Botânico abre em breve

E hoje? “Queremos tornar as exposições mais atraentes e mais interessantes”, diz João Pedro Sousa Dias, director do MUHNAC. Destaca como um aspecto promissor um acordo de empréstimo de uma colecção privada de mamíferos, que tem pelo menos 200 exemplares. Afinal, no incêndio houve uma enorme destruição de animais naturalizados. Como tal, têm trabalhado também com instituições públicas e municípios para recolha de exemplares. “A grande diferença é que já não se consegue recolher [exemplares] para a colecção de zoologia como no século XIX.”

Para se mostrar ao público (um pouco) as colecções de história natural, o museu inaugura a 28 de Março a exposição Specere – a palavra espécime vem do latim specimen, que é formada pela raiz do verbo specere (olhar) e o sufixo men, significando assim “resultado do olhar”. “Esta exposição tem como objectivo dar a conhecer ao público a diversidade das colecções de história natural do MUHNAC e do IICT, incluindo colecções geológicas, botânicas e zoológicas, o trabalho envolvido na sua preparação e preservação, a sua importância e utilidade para a ciência e para a sociedade”, indica Judite Alves.

PÚBLICO -
Foto
Incêndio na Escola Politécnica em 1978 João Freitas

Além disso, espera-se que o Jardim Botânico de Lisboa seja inaugurado em breve. Em 2013, venceu o Orçamento Participativo de Lisboa no valor de 500 mil euros e esteve em obras cerca de um ano e meio, embora o prazo fosse de seis meses. Pelo facto de o jardim ter estado encerrado mais tempo, o director do MUHNAC estima que houve um prejuízo de cerca de 300 mil euros. Terá um novo sistema de rega, o lago de baixo foi reabilitado, haverá uma maior captação de água de fontes naturais, assim como um novo pavimento nos caminhos, uma entrada ajardinada, bebedouros e Internet. “Foi construído um pequeno anfiteatro para 20 ou 30 pessoas e tem um palco. Podem fazer-se pequenos concertos”, acrescenta João Pedro Sousa Dias.

PÚBLICO -
Foto
Incêndio na Escola Politécnica em 1978 João Freitas

A 24 de Março, para comemorar o Dia Internacional das Florestas, haverá uma apresentação (às 11h) das medidas de requalificação do jardim e será possível espreitar uma zona. Às 15h30, está marcada uma visita sobre a história relacionada com praças, jardins e água desde o século XIX, em que se poderá ver uma parte do jardim e atravessar a galeria subterrânea do Loreto.

Indo até à actual FCUL, durante Março, os 40 anos do incêndio assinalam-se com a exposição “Incêndio em Ciências – 40 anos depois”, com fotografias de alunos da altura: João Freitas e Rui Santos. Há ainda recortes da imprensa da época, um documentário ou dois carros de bombeiros que participaram no incêndio.

Numa mesa-redonda Do incêndio aos C’s – o paradigma da prevenção, na quarta-feira, reflectiu-se sobre as mudanças nos últimos 40 anos. “No nosso subconsciente [o incêndio] está sempre presente”, diz Júlia Alves. Mas agora há sistemas automáticos de detecção de incêndios ou uma “cultura” de prevenção e de reacção aos sistemas de alarme. Nesse dia, informou que as “Medidas de Autoprotecção” da FCUL serão submetidas à Autoridade Nacional de Protecção Civil. “Significa que estaremos em cumprimento formal dos requisitos legais da segurança contra incêndios e edifícios.”

Nesta mesma ocasião, apresentou-se o projecto Campus Virtual (iniciado em 2012 e público desde Outubro), que tem modelado o interior e exterior da faculdade em 3D. “Fez-se a modelação de algumas infra-estruturas dos edifícios, extintores, detectores de fumo, condutas de ar condicionado ou de água quente”, mostrou Cristina Catita, professora na FCUL e uma das responsáveis do projecto. Em breve, haverá uma aplicação para dispositivos móveis para recolha de informação sobre os equipamentos da faculdade, assim como percursos de evacuação em 3D.

O incêndio e os meses seguintes ainda estão (e ficarão) na memória de quem os viveu. Um exemplo é o de Vanda Brotas, professora na faculdade e na altura aluna do 2.º ano de Biologia, que guarda preciosamente um texto que escreveu a 2 de Junho de 1978: “A secção de zoologia: duas portas, a segunda vidrada, dois laboratórios, um contraplacado e, para além dele, o incêndio com o qual as pessoas já se acomodaram. Tudo vazio, até à parede, onde apenas existem os sítios das janelas. As aulas são na Faculdade de Ciências ou na 24 de Julho. Diz-se ‘vou para a 24 ter Cálculo’. O autocarro 38 transformou-se num átrio de passagem onde se fala das aulas do [Fernando] Catarino das quatro às cinco.”