Associação de Estudantes demarca-se de abaixo-assinado que contesta contratação de Passos Coelho

Direcção de órgão estudantil afirma que documento não é vinculativo porque não cumpre normas estatutárias da instituição.

Foto
Passos Coelho irá ensinar alunos de mestrado e doutoramento Daniel Rocha

A Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa demarcou-se do abaixo-assinado, promovido por um grupo de alunos da mesma instituição de ensino, que questiona a contratação ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho como professor de mestrado e doutoramento.

Num comunicado dividido em cinco pontos, a direcção da AEISCSP afirma que não se revê “num pretenso” abaixo-assinado, “alegadamente em protesto sobre a recente contratação” de Passos Coelho. O órgão estudantil reitera ainda que o abaixo-assinado “não vincula os alunos do ISCSP” nem o “entendimento da AEISCSP sobre o processo em causa”. É também dito no comunicado que o documento contra a contratação do ex-primeiro-ministro não cumpre as normas estatutárias pelas quais o ISCSP é regido.

A associação de estudantes, através deste texto, pretende demarcar-se de forma clara de uma possível tentativa de utilização por parte dos estudantes no seio da instituição “para fins político-partidários”, afirmando que qualquer decisão “é da exclusiva competência dos órgãos de gestão do ISCSP”, diz a AEISCSP. É, portanto, pedido pelo órgão estudantil que essa autonomia seja preservada “em nome da legitimidade dos órgãos e superiores interesses do ISCSP e da Universidade de Lisboa”.

Núcleo social-democrata apoia contratação

O Núcleo de Estudantes Social Democratas (NESD) do ISCSP publicou por sua vez, na manhã desta sexta-feira, um comunicado onde é apoiada a decisão do ISCSP em contratar o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. No texto do comunicado, o NESD afirma que a “mediatização do caso” o tornou num “assunto político-partidário”. Os estudantes sociais-democratas salientam no documento, datado de 9 de Março, “o mérito e mais-valia” que Passos Coelho “acrescenta ao corpo docente” do ISCSP. Acrescentam também que os alunos de mestrados e doutoramentos — ciclos académicos nos quais Passos Coelho leccionará — irão “adquirir as competências chaves e conhecimentos”.

O documento do NESD faz uma pequena análise à governação de Passos Coelho que, segundo os seus membros, foi feita através de “políticas muito contestadas, contudo necessárias” para a “recuperação económica do país”. O comunicado atribui ainda ao ex-governante muito do mérito pelo estado actual do país que, de acordo com o texto, se deve em grande parte “à intervenção, coragem e trabalho” de Passos Coelho.

Na parte final do documento, os estudantes sociais-democratas, como resposta às críticas sobre a contratação de Passos, citam o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, que escreveu a seguinte frase numa publicação no Facebook: “A experiência de um ex-primeiro ministro, qualquer que seja, é única e valiosa”. Contactado pelo PÚBLICO, o NESD não quis prestar esclarecimentos adicionais relativamente ao assunto.

Este comunicado surge depois de um grupo de alunos da instituição ter criado um abaixo-assinado, no início desta semana, contra o vínculo celebrado entre Passos Coelho e o ISCSP. No texto do abaixo-assinado a formação educativa do ex-governante é posta em causa, bem como o salário que este irá auferir. Os autores do texto mostram preocupação com a “integridade, honra, deontologia e igualdade de oportunidades” do corpo docente do instituto. A remuneração de Passos Coelho — ao nível de professor catedrático, em função da carga horária — foi considerada como “obscena” e uma “ofensa grave à meritocracia” ao percurso “académico normal de um docente universitário”.

Núcleo socialista defende direito à indignação

Também o Núcleo de Estudantes Socialistas (NES) do ISCSP tomou, esta sexta-feira, a decisão de tornar pública a sua opinião sobre a contratação de Pedro Passos Coelho. Em comunicado, o núcleo socialista refere que a decisão tomada pelo Conselho Científico — ao aprovar a contratação do ex-governante — tem “perfeita legitimidade”. Na mesma linha de pensamento, o NES defende o “direito e [a] liberdade” dos alunos da instituição mostrarem o “seu desagrado e descontentamento” através de um abaixo-assinado.

Em resposta ao comunicado do núcleo social-democrata — que lamenta a transformação da questão num “assunto político-partidário” —, o NES garante o seu “não envolvimento” para com o abaixo-assinado de protesto, considerando a questão “académica e não política”, apontando ainda o dedo ao núcleo social-democrata, à associação de estudantes da instituição e a “alguns docentes do ISCSP filiados do PSD”. Por último, o núcleo socialista garante o seu apoio a “qualquer decisão dos alunos” sobre o assunto, providenciando liberdade de decisão aos seus membros.

Texto editado por Hugo Torres