Entrevista

“A China tem um plano para retaliar no que doa mais politicamente”

Ao contrário de Trump, a especialista em geopolítica económica Anja Manuel defende que as guerras comerciais “são más e difíceis de ganhar”, mas assinala que não se deve ser “ingénuo” perante a China.

Anja Manuel, especialista em geopolítica económica
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Anja Manuel, especialista em geopolítica económica Daniel Rocha

Anja Manuel trabalhou no Departamento do Estado durante a presidência de George W. Bush e agora é consultora de empresas à procura de conquistar mercados internacionais, especialmente na Ásia. De visita a Lisboa para participar na conferência “The Role of Portugal as a Global Competitor”, falou ao PÚBLICO dos impactos das medidas proteccionistas agora anunciadas pela Casa Branca.

Donald Trump diz que “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”. Tem razão em alguma destas ideias?
Eu acho que elas são más e difíceis de ganhar, portanto exactamente o contrário. Mas concordo com o presidente Trump quando ele diz que a China é um actor único no comércio internacional e que não joga com as mesmas regras que os outros. Não devemos ser ingénuos perante a China. Existe mesmo roubo de propriedade intelectual por parte da China e esta subsidia a sua indústria de aço de formas que o Ocidente nem consegue imaginar, seja através da concessão de terrenos grátis, seja através de crédito com taxas de juro zero, tendo de se juntar a isto ainda a mão de obra muito barata. Há realmente um excesso de aço e alumínio no Mundo. Agora, será a aplicação de taxas alfandegárias a todos os países a solução para isto? Não me parece. E serão estas taxas alfandegárias que irão ajudar os trabalhadores da indústria da metalurgia – os que elegeram Donald Trump – a recuperar os seus empregos? Não me parece. Quando se fala com os CEO da indústria de metal, eles rapidamente reconhecem que 90% dos postos de trabalho perdidos durante a última década se perderam devido à automação, e portanto não vão ser recuperados seja qual for o comércio que venha a ser feito.

Que tipo de resposta é que podemos esperar da China a medidas deste tipo dos EUA?
É sempre difícil de especular em relação a isso. Falei há umas semanas com responsáveis da liderança chinesa e disse-lhes que era provável que a Administração Trump fizesse algo deste género, e a reacção deles foi sanguínea, do estilo “eles que tentem”. Penso que a China têm um plano para retaliar contra os Estados Unidos naquilo que doa mais politicamente.

De que forma?
Por exemplo, subir as taxas alfandegárias aplicadas à entrada de bourbon produzido no Kentucky, porque esse é o Estado de Mitch McConnell [líder republicano do Senado]. Também podem tentar afectar o sector agrícola, porque esse lobby tem muita força dentro do Partido Republicano. Os chineses são muito sagazes politicamente. Por isso é que eu acho que nesta guerra comercial, ninguém ganha. E para além disso, nos EUA, não vejo sinais de que as pessoas que estão a trabalhar na área do comércio internacional estejam coordenadas com as pessoas que estão na diplomacia política. Por exemplo, apesar de se pretender que a China coopere na questão norte-coreana, ao mesmo tempo estão a criar-se conflitos a nível comercial, sem que ninguém pense nas consequências.

Qual deve ser a posição da Europa?
Um dos problemas das medidas apresentadas pela Casa Branca é que seria muito melhor que os EUA e a Europa apresentassem uma frente unida para lutar contra as posições da China que não se devem aceitar. Nas questões comerciais, é evidente que devia haver uma frente comum. Aliás, em Dezembro o Japão e a UE emitiram um comunicado em que disseram que gostariam de apoiar os EUA em questões como a do excesso de capacidade na produção de metais e outros problemas comerciais com a China, mas depois não houve uma sequência. E isso tem consequências infelizes. O que se vê cada vez mais é líderes alemães e britânicos a irem à China dizer que são uma alternativa aos EUA, caso estes abram um conflito comercial, e eu penso que isso é muito perigoso.

A China é um líder credível da globalização?
É desde que isso beneficie a China. No caso da iniciativa “One Belt, One Road” lançada por Pequim [também conhecida como “nova rota da seda”], há benefícios reais para os países participantes. Se formos ao Paquistão, vemos que o asfalto nas estradas está mais regular e que é muito mais fácil transportar produtos pelo país. Por isso, essa generosidade chinesa está a ter impactos positivos, mas também vêm com um lado negro: muitos desses países ficaram politicamente ligados à China porque os empréstimos que começaram com taxas de 2%, agora começam a subir para 5% e 6%. Quem é que os conseguirá pagar?

Porque é que a Europa ou os EUA não fazem o mesmo?
Porque não há dinheiro. Pura e simplesmente, não se vai estar a construir estradas noutros países. Portugal não vai construir uma linha de ferro que atravesse o Brasil. Agora, tenho algumas dúvidas se, no longo prazo, a estratégia chinesa vai resultar bem porque é possível que muitos dos empréstimos que estão a ser feitos agora não sejam amortizados. Neste momento, estão a receber juros, estão a usar o seu excedente de produção de metal e cimento e estão a usar as suas empresas públicas para criar pontos de entrada e saída da China, mas no longo prazo, existem dúvidas que países como o Casaquistão ou o Uganda lhes paguem tudo o que devem.

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