A geração pós-Columbine está farta de orações e assume a luta contra as armas

Alunos da escola na Florida onde foram mortas 17 pessoas na semana passada organizam grande manifestação em Washington e deixam aviso aos políticos, do Presidente ao Congresso: "Ou estão connosco, ou estão contra nós."

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Emma Gonzalez é uma das vozes mais activas pelo controlo das armas Reuters/JONATHAN DRAKE
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14 alunos e três funcionários foram mortos numa escola na semana passada Reuters/JONATHAN DRAKE
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Os alunos vão manifestar-se no dia 24 de Março em Washington DC Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS
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Há 25 anos que o Congresso não aprova uma lei abrangente sobre as armas Reuters/JONATHAN DRAKE
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Emma González, 18 anos, tem uma pergunta para o Presidente Donald Trump: "Quanto dinheiro recebeu da National Rifle Association?" David Hogg, 17 anos, tem uma mensagem para os congressistas norte-americanos: "Nós somos as crianças, vocês é que são os adultos. Trabalhem em conjunto e façam alguma coisa." Na semana passada, Emma e David escaparam às mais de 100 balas que o seu ex-colega Nikolas Cruz disparou contra alunos e funcionários de uma escola na Florida, e saíram desse pesadelo com uma promessa vestida de ultimato nunca antes feita com tanta raiva e convicção após um dos incontáveis tiroteios nos EUA: "Vocês vão ler sobre nós nos manuais. Não por sermos mais uma estatística sobre tiroteios na América, mas porque vamos ser as últimas vítimas de um tiroteio."

Cinco dias depois de a Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas se ter transformado num campo de morte para 14 alunos adolescentes e três funcionários, o eterno debate sobre o controlo de armas nos EUA parece ter feito nascer uma nova voz – ou uma nova posição comum, repetida por muitas vozes como as de Emma González e David Hogg.

Em contraste com os dias de choque e confusão que se seguiram a tiroteios como o de Sandy Hook, em 2012, ou o de Las Vegas, há menos de cinco meses, a reacção ao que aconteceu na Florida na semana passada junta ao choque inicial a promessa de uma luta sem tréguas pelo reforço do controlo da venda de armas – uma luta marcada por fracassos sucessivos no Congresso nos últimos 25 anos.

Mais do que sobreviventes do tiroteio na Florida e alunos da Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas, adolescentes como Emma González e David Hogg fazem parte da geração pós-Columbine – crianças e jovens nascidos depois do tiroteio na escola do Colorado, em 1999, e criados num ambiente escolar que os treina não só para se protegerem de um terramoto ou de um incêndio, mas também de um colega armado com uma espingarda semi-automática fabricada à imagem das armas de guerra, que dispara dezenas de balas de cada vez que se aperta o gatilho.

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Os alunos vão manifestar-se no dia 24 de Março em Washington DC REUTERS/CARLOS GARCIA RAWLINS

O mundo deles só pode ser um mundo diferente daquele que chocou o país no dia 20 de Abril de 1999, quando Eric Harris e Dylan Klebold entraram vestidos com gabardinas negras e carregados com carabinas de canos serrados, explosivos e facas na Escola Secundária de Columbine, no Colorado, e mataram 12 alunos e um professor. Com o tiroteio da semana passada, Columbine – talvez o caso que mais vem à memória da maioria das pessoas quando se fala em tiroteios em escolas – saiu da lista dos dez tiroteios mais mortíferos da História dos EUA.

Denunciar o bullshit

A marca mais distintiva desta geração pós-Columbine, arrastada por alunos como Emma González e David Hogg para o centro do debate sobre o controlo das armas, é a ideia de que o controlo das armas é essencial para travar casos como o da semana passada – ao contrário do que muitos congressistas do Partido Republicano e alguns do Partido Democrata lhes têm dito ao longo dos anos, estes alunos estão convencidos de que centrar o debate nos problemas de saúde mental ou na insegurança nas escolas é bullshit (uma treta). E foi isso que Emma González foi dizer aos alunos, familiares e professores que estiveram numa manifestação a favor do controlo de armas no sábado em Fort Lauderdale, na Florida – e foi isso que ela e outros alunos da Marjory Stoneman Douglas disseram ao Presidente dos EUA e aos congressistas com a ajuda das câmaras de televisão e dos smartphones.

"Cada uma das pessoas que está aqui hoje deveria estar em casa a fazer o seu luto. Mas, em vez disso, estamos aqui unidos. Se tudo o que o nosso governo e o nosso Presidente podem fazer é rezar, então chegou a hora de as vítimas fazerem a mudança de que precisamos", disse Emma González durante um discurso emocionado e interrompido várias vezes com fortes aplausos – principalmente quando a ideia, directa ou indirecta, era acusar os políticos de nada fazerem e dizer aos jovens de todo o país que chegou a hora de eles fazer alguma coisa.

E o discurso terminou com uma espécie de manifesto desta nova geração, contra todos os sectores que resistem a pôr o controlo das armas no centro do debate: "Estamos preparados para denunciar a treta das empresas que tentam fazer dos adolescentes meras caricaturas, e que dizem que todos nós somos ensimesmados e que estamos obcecados com modas, para depois nos silenciarem até à submissão quando a nossa mensagem não chega aos ouvidos da nação. Estamos preparados para denunciar a treta dos políticos que se sentam na Câmara dos Representantes e no Senado em cadeiras douradas financiadas pela NRA, e que nos dizem que nada poderia ter sido feito para evitar o que aconteceu. Eles dizem que um reforço das leis de controlo das armas não reduz a violência. Nós dizemos que isso é uma treta."

Sempre que há um tiroteio semelhante ao que aconteceu na semana passada na Florida, em que morrem várias crianças e adolescentes num local em que devem sentir-se protegidos, o debate sobre o controlo das armas regressa, mas o espaço público costuma ser preenchido apenas pelas vozes que falam no Congresso e na Casa Branca – desta vez, são os próprios alunos a assumir esse protagonismo, e com uma mensagem despida dos cuidados que os especialistas costumam ter.

"A minha mensagem para as pessoas que foram eleitas é esta: ou vocês estão connosco, ou estão contra nós", disse Cameron Kasky, 17 anos, outro dos porta-vozes do movimento contra a venda de armas nascidos com o tiroteio da semana passada.

"Os alunos da minha escola tiveram uma experiência comum – os nossos políticos abandonaram-nos, porque não mantiveram as armas longe das escolas. Mas, desta vez, eu e os meus colegas vamos pedir-lhes responsabilidades. Desta vez, vamos pressioná-los a agirem. Desta vez, vamos forçá-los a gastarem mais energia a proteger vidas humanas do que fetos", escreveu Cameron Kasky num artigo de opinião publicado no site da CNN.

Nos últimos 25 anos, o debate sobre a posse e a venda de armas nos EUA tem acabado sempre por resvalar para o mesmo buraco onde se mantém adormecido quando não há notícias sobre tiroteios com dezenas de vítimas. A principal diferença, desta vez, é que os alunos da Marjory Stoneman Douglas – a geração pós-Columbine – está a mexer-se para manter o assunto no topo da actualidade: no dia 24 de Março, vão manifestar-se na capital do país, Washington DC, numa iniciativa a que chamaram "March For Our Lives", que deverá contar também com manifestações em várias cidades norte-americanas no mesmo dia.

Apesar da determinação, o reforço do controlo das armas nos EUA através de leis que sejam aplicadas em todo o país da mesma forma continua a ser um objectivo de concretização muito difícil.

A última grande mudança aconteceu em 1993, quando o Congresso aprovou a Brady Handgun Violence Prevention Act com a bênção do ex-Presidente Ronald Reagan – uma lei que impôs aos vendedores de armas autorizados a obrigatoriedade de pedirem informações ao FBI sobre um candidato a comprador, e que foi sendo abalada ao longo dos anos por processos em tribunal apoiados pela poderosa National Rifle Association. Hoje em dia, na esmagadora maioria dos casos em que um vendedor licenciado pede informações ao FBI, a resposta é imediata; mas, em alguns casos, essa informação leva mais tempo – quando isso acontece, a venda pode ser concretizada se o FBI não voltar a dizer mais nada em três dias.

Mas a lei de 1993 só obriga os vendedores de armas licenciados a pedirem informações sobre os compradores. De fora ficam os vendedores particulares, em negócios feitos em mão ou numa exposição de armamento, por exemplo. Alguns estados aprovaram leis específicas para taparem aquilo a que os activistas anti-armas dizem ser um buraco legislativo, mas noutros – como na Florida –, não é preciso perguntar nada sobre o passado criminal e sobre a saúde mental ao comprador.

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Há 25 anos que o Congresso não aprova uma lei abrangente sobre as armas REUTERS/JONATHAN DRAKE

Em 2012 e 2013, nos meses que se seguiram ao tiroteio na escola primária de Sandy Hook, o debate sobre o controlo de armas voltou a estar na ordem do dia.

Um atirador tinha matado 20 crianças de seis e sete anos, e muitos pensaram que, dessa vez, tinha sido ultrapassada uma linha vermelha. E que os congressistas do Partido Republicano e do Partido Democrata iriam finalmente aprovar um par de propostas aparentemente modestas, que alargavam a obrigação de pedidos de informação ao FBI a compras particulares e exposições, e proibiam a venda de várias armas catalogadas como automáticas e semi-automáticas.

Apesar dos apelos emocionados do Presidente Barack Obama, e de a senadora Dianne Feinstein ter levado para o Congresso fotografias ampliadas das crianças que foram mortas em Sandy Hook, ambas as propostas foram derrotadas no Senado no dia 17 de Abril de 2013.

O Partido Republicano votou em linha com a sua posição tradicional e rejeitou em peso as propostas, mas o Partido Democrata desiludiu o Presidente de então – o mínimo que Obama tinha pedido aos senadores do seu partido era que votassem em peso a favor das duas propostas, mesmo sabendo que a aprovação seria muito difícil, mas vários deles votaram contra. Na altura, o argumento foi o cálculo político: sabendo, à partida, que não havia senadores suficientes para vencer essa batalha, vários senadores do Partido Democrata eleitos em estados onde a caça é uma tradição enraizada decidiram votar contra para não serem prejudicados nas respectivas eleições.