Nem a lei mais branda foi aprovada no Senado, num "dia vergonhoso para Washington"

Foto
Um "cemitério" encenado à porta do Capitólio, em Washington KEVIN LAMARQUE/reuters

Quatro senadores democratas entre os 46 que votaram contra uma proposta sobre verificação de antecedentes criminais

No dia em que 20 crianças foram mortas na escola primária de Sandy Hook, em Dezembro passado, o Presidente dos Estados Unidos falou ao país com o coração: "Foi o dia mais difícil da minha Presidência." Ontem, dia em que o Senado rejeitou uma proposta de lei que alargaria a verificação de antecedentes criminais para quem compra armas, a reacção de Obama - carregada de raiva e desilusão - gritou ao país um sentimento ligeiramente diferente: este foi, talvez, o dia mais frustrante da sua Presidência.

Acompanhado nos jardins da Casa Branca por pais de algumas das crianças mortas na localidade de Newtown, Obama disse acreditar que a lei do controlo de armas vai mudar "mais cedo ou mais tarde", mas a mensagem de ontem tinha destinatários bem definidos: os 46 senadores que impediram a aprovação de uma lei "baseada no senso comum", incluindo os quatro democratas "que cederam à pressão" do lobby das armas, e a poderosa National Rifle Association (NRA).

"Se uma medida do Congresso pudesse salvar uma pessoa, uma criança, umas centenas, uns milhares - se pudesse prevenir que essas pessoas percam a vida no futuro por causa da violência com armas, protegendo ao mesmo tempo os direitos garantidos pela Segunda Emenda, tínhamos a obrigação de tentar. Esta proposta de lei estava à altura desse teste, mas muitos senadores não estiveram", declarou Obama.

A frustração da Casa Branca esteve presente em cada palavra de Barack Obama. Como podia o Senado ter rejeitado uma proposta "defendida por 90% dos americanos", baseada no "senso comum" e desenhada por dois senadores bem vistos pelo lobby das armas?

Depois de se ter tornado evidente que as propostas mais radicais iriam ser reprovadas (como a proibição da venda de armas de assalto e de carregadores com mais de dez munições, por exemplo), coube ao republicano Pat Toomey e ao democrata Joe Manchin (ambos defensores do porte de armas e referenciados pela NRA como senadores de "classe A") o desenho de uma proposta menos ambiciosa e, portanto, com mais hipóteses de passar no Senado - uma "proposta baseada no senso comum", como lhe chamavam os seus defensores.

Se esta lei tivesse sido aprovada, a única coisa que mudaria no cenário actual é que os vendedores de armas em exposições e através da Internet seriam obrigados a investigar os antecedentes criminais dos potenciais compradores. A proposta de lei até mantinha a venda de armas entre vizinhos e familiares sem necessidade de se fazer perguntas, mas nem assim obteve os 60 votos necessários entre os 100 senadores. Ficou-se pelo 54 - o Partido Democrata domina 55 assentos, mas quatro democratas votaram contra e quatro republicanos votaram a favor, o que baralhou as contas.

"O facto é que muitos destes senadores não conseguiram dar nenhuma razão válida para não dificultarem a compra de armas por criminosos e pessoas com doenças mentais graves. Tudo se resumiu a política - ao receio de que uma minoria fosse atrás deles em futuras eleições. Preocuparam-se com a hipótese de o lobby das armas os retratar como opositores da Segunda Emenda", acusou Obama. Por isso, o outro lado da barricada deve usar as mesmas armas: "Todas as pessoas que apoiaram esta proposta de lei (...) têm de fazer saber aos seus representantes no Congresso que estão desiludidas, e que, se eles não agirem desta vez, vão ser recordados disso nas próximas eleições."

Ontem "foi um dia vergonhoso para Washington", afirmou Obama.

Sugerir correcção