Aqui as plantas venceram o porco

O novo restaurante do apresentador de televisão João Manzarra transformou um antigo talho num projecto de comida (e não só) sustentável e vegana.

Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos

Os braços da hera enrolam delicadamente um porco — um símbolo de como as plantas podem ir substituindo a carne na nossa alimentação, que é exactamente o que se pretende com o projecto O Antigo Talho, recentemente inaugurado na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa. Neste caso, a metáfora é literal: aqui, onde durante anos funcionou um talho, nasceu agora um restaurante vegano, a partir de uma ideia do apresentador de televisão João Manzarra.

A história de João Manzarra já foi contada, pelo próprio, várias vezes. Decidiu tornar-se vegano em 2014, depois de ter visto o documentário Cowspiracy, que mostrava como são tratados os animais pela indústria alimentar. O percurso que então iniciou (e que o levou a desligar-se do seu anterior restaurante não-vegano, o Matateu, no Estádio do Restelo) acabou por o trazer até este projecto, que, para além do restaurante, tem uma loja que vende produtos de marcas, nacionais e internacionais, preocupadas com a sustentabilidade ambiental.

Quando a Fugas passou pel’O Antigo Talho, João Manzarra não estava, mas estava o seu irmão, António, aliado e cúmplice em toda esta aventura. É hora do almoço quando chegamos e o pequeno espaço da loja, no piso térreo, está cheio de pessoas que aguardam a vez para subir ao restaurante situado no andar de cima (a transformação do talho e decoração ficou a cargo de Joana Astolfi). A pessoa que está a atender na loja vai controlando as subidas e perguntando, através de um intercomunicador, se já pode deixar subir o próximo grupo.

Para quem está sozinho, é mais fácil — as duas mesas do restaurante têm vários lugares (que são pequenos troncos de madeira) e a ideia é partilhar a mesa com outras pessoas. Por isso, tal como tinha prometido António Manzarra, rapidamente surge um lugar vago e somos convidados a sentar-nos depois de escolhermos ao balcão o que vamos comer.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

Todos os dias há um prato diferente, que, neste caso, é uma sopa pho vietnamita, para além da sopa do dia, um wrap, uma quiche, e ainda bolos à fatia (na ocasião havia um de cacau, abacate, lima e nougat), bolas energéticas, e opções de chá, sumo, kombucha (bebida fermentada feita a partir de chá) ou cervejas artesanais. Optamos pela sopa “Morning Walk”, com espinafres, ervilhas e lemon grass e a quiche “Mushroom Queen”, com uma base de caju, cogumelos portobello, pimentos e cebola confitada.

Junto à janela, há livros com receitas veganas e, ao nosso lado, duas amigas conversam sobre o facto de uma delas ter decidido aderir ao veganismo, enquanto, noutro grupo, um homem pergunta o que é um pho e interroga-se sobre se irá ficar com fome rapidamente — o que mostra que O Antigo Talho tanto está a atrair clientes já convertidos a uma alimentação vegana como tradicionais carnívoros curiosos para conhecer o novo restaurante.

Entre os pratos diários, muitas vezes com influências asiáticas, pode encontrar-se, por exemplo, o “Beethy Burger”, um hambúrguer de beterraba com quinoa e cogumelos; ou um “Eat Your Greens”, espargos com arroz cremoso com leite de coco e lima kefir; ou ainda um “Happy Pig”, cogumelos desfiados com molho barbecue.

Aos fins-de-semana, O Antigo Talho tem um brunch, sempre entre as 11h e as 16h (12,50€), que inclui pão com creme de ervas, creme de pimentos ou compota de morango, fruta com iogurte e granola caseira, pão de banana com caramelo, quiche de cogumelos com salada e sumo natural, café ou chá. Por mais 4€ pode-se incluir tofu mexido com tomates assados.

O café, biológico, claro, pode ser tomado em baixo, na zona da loja, onde existe uma máquina. É também aí que se paga o almoço, o que permite aproveitar os momentos de espera para espreitar os diferentes produtos que ali se vendem, e que resultam da pesquisa feita pelos dois irmãos Manzarra entre marcas sustentáveis.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

Para quem não as conhece, existe ao lado das peças expostas um pequeno texto que apresenta cada uma: das meias dinamarquesas Solo Socks aos sabonetes Amor Luso, passando pelos ténis da Muroexe, feitos em Espanha com fibras naturais, tal como as malas e carteiras com design da Wetheknot, as velas aromáticas portuguesas da Ecolove, de cera de soja, ou a roupa da Näz, que usa tecidos nacionais, muitos deles provenientes de excedentes de produção. No final (com compras ou sem elas), basta pagar a conta do almoço e sair — sem levar um cartão da casa, que não os usa para combater o desperdício de papel.