Sobreviventes de cancro a trabalhar só 30 horas por semana? Petição chega ao Parlamento

Professora lançou petição que já conta com mais de 22 mil assinaturas. Quer que sobreviventes de cancros que tenham feito quimio e radioterapia tenham horários de trabalho reduzidos e reformas antecipadas.

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Professora lançou petição que já conta com mais de 22 mil assinaturas ENRIC VIVES-RUBIO

A proposta é polémica: os sobreviventes de cancro que foram sujeitos a tratamentos de quimioterapia e radioterapia devem poder trabalhar apenas 30 horas por semana e reformar-se aos 30 anos de serviço ou 60 anos de idade, sem penalizações. É neste sentido que aponta uma petição posta a circular há dois anos e já assinada por mais de 22 mil pessoas cuja autora, uma professora do ensino secundário, vai para a semana ser ouvida pelos deputados da Comissão de Trabalho e Segurança Social, no Parlamento.

A redução do horário de trabalho proposta na petição não teria repercussões no salário, ficando a parte restante a cargo do Estado, de maneira a evitar que o empregador fosse penalizado. A audição está marcada para a próxima quarta-feira no Parlamento.

A ideia de lançar a petição online “A favor do justo tempo de serviço do sobrevivente oncológico” partiu de Cristina Coelho, professora do ensino secundário a quem foi diagnosticado um carcinoma no pulmão em Setembro de 2012.

Sequelas difíceis de compatibilizar com horários

Cristina, que criou uma página no Facebook intitulada “Viver com cancro e ser feliz”, regressou ao trabalho pouco tempo depois de ser sido tratada com quimioterapia e radioterapia no Instituto Português de Oncologia do Porto, mas rapidamente percebeu que os tratamentos deixam sequelas difíceis de compatibilizar com horários a tempo inteiro.

As sequelas variam consoante o tipo de cancro, tratamento e condição física do doente, mas podem passar pela perda de audição, dificuldades de aprendizagem, de memória e concentração, de visão, problemas cardiovasculares e respiratórios, do sistema endócrino, entre outros, elenca, sublinhando que é vasta a bibliografia que aponta neste sentido.

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A professora Cristina Coelho é a autora da petição

Explica ainda que decidiu avançar para esta petição porque percebeu que o actual quadro legislativo é obsoleto -  a adequação da função ou posto de trabalho à incapacidade, prevista na lei, "raramente acontece” - e porque quis também dar a voz a outros sobreviventes oncológicos que muitas vezes têm “vergonha de falar” ou mesmo “medo de serem despedidos”.

Há sobreviventes que "reduzem a sua carga horária, com prejuízo financeiro, ou acabam por se despedir por não aguentarem o esforço", descreve, acrescentando que "outros entram em baixa auto-estima, depressão e consequente baixa médica de forma regular".