Sobreviventes de cancro devem trabalhar só 30 horas por semana, propõe petição

Trabalhar apenas 30 horas por semana e poder reformar-se com 30 anos de serviço são as propostas de uma petição online criada por uma professora.

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O objectivo é reunir quatro mil assinaturas para levar a petição ao Parlamento Enric Vives-Rubio

Os sobreviventes de cancro que tenham sido submetidos a tratamentos de quimioterapia e radioterapia devem trabalhar apenas 30 horas por semana e poder reformar-se aos 30 anos de serviço ou 60 anos de idade, sem qualquer penalização, propõe uma professora que foi diagnosticada com um carcinoma pulmonar em 2012, numa petição online que ao final da manhã desta terça-feira contava com perto de 1300 assinaturas.

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Em Portugal há muitos milhares de sobreviventes de cancro, mas ninguém sabe precisar quantos são. Tendo em conta os dados actuais, segundo o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Veloso, em cada ano haverá mais de 20 mil novos sobreviventes, uma vez que a incidência é cada vez maior e a mortalidade é menor (cerca de 70% dos doentes já sobrevivem, diz). 

A redução do horário de trabalho proposta na petição idealizada pela professora não teria repercussões no salário, cobrindo o Estado a parte restante, de forma a que o empregador não fosse penalizado. Cristina Coelho, que é autora de uma página no Facebook intitulada “Viver com cancro e ser feliz”, defende também a antecipação da reforma sem penalização. 

“Os tratamentos no combate ao cancro são por norma agressivos e deixam lesões que mais tarde se vêm a declarar” e que variam consoante “o tipo de cancro, tratamento e condição física do sujeito”, argumenta a professora, que elenca um vasto leque de "efeitos tardios causados pelo tratamento" dos cancros num "considerável número de doentes". Efeitos que podem passar pela perda de audição, dificuldades de aprendizagem, de memória e concentração, de visão, problemas cardiovasculares e respiratórios, do sistema endócrino, entre muitos outros.

"Existe inúmera leitura e informação que poderá atestar a desigualdade entre as capacidades de um sujeito que nunca foi submetido a tratamentos à base de quimioterapia ou a radioterapia e de um sujeito sobrevivente de cancro e sujeito a tratamentos deste tipo", enfatiza Cristina Coelho, que pretende chegar até às quatro mil assinaturas no mínimo, o necessário para se levar a petição a discussão em plenário da Assembleia da República.

Direitos "não podem ser generalizados"

O cancro é cada vez mais uma doença crónica mas as situações "diferem de pessoa para pessoa", retorque o presidente da LPCC, para quem os direitos à redução do horário de trabalho semanal e da antecipação da reforma previstos nesta petição "não podem ser generalizados" da forma agora proposta.

"Grande parte destes doentes retomam o trabalho", sublinha Vítor Veloso, que reconhece, porém, que os sobreviventes de cancro "têm muito poucos direitos" em Portugal. Aliás, frisa, é muito difícil para uma pessoa nesta condição conseguir o reconhecimento da incapacidade para o trabalho nas juntas médicas que avaliam estes casos. Só em situações mais graves, em que há amputação ou paralisação de membros, por exemplo, é que se tem conseguido declaração de incapacidade. 

Mas há outros problemas que urge resolver, reivindica o médico, que recorda os obstáculos que os doentes, após a alta, enfrentam para fazer exames clínicos, as dificuldades acrescidas para pedir empréstimos bancários, os agravamentos dos prémios dos seguros. São questões de tal forma prementes que vão ser debatidas no 2.º congresso dedicado aos sobreviventes de cancro, que vai ser organizado pela Liga em Novembro próximo.

Vítor Veloso chama ainda a atenção para a petição da LPCC que reclama igualdade de tratamento para as pessoas com cancro de mama, que foi assinada por mais de 28 mil pessoas e deu entrada na Assembleia da República em Abril passado. Está a ser preparada para discussão por um grupo de trabalho.

Fadiga, enjoo, dores

Quanto à petição que reclama direitos para os sobreviventes, a professora lembra a sua experiência pessoal nos comentários que se seguem ao documento. Diagnosticada em Setembro de 2012 com "um adenocarcinoma pulmonar IIIB, inoperável", foi sujeita a radioterapia e quimioterapia que provocaram efeitos colaterais. "No imediato veio o sono, fadiga, enjoo, dores articulares, lentidão no raciocínio, falhas de memória, perda de peso, esofagite aguda grave, dor ao engolir, neuropatias periféricas", recorda. Nove meses depois, em Julho de 2013, Cristina Coelho voltou a dar aulas no colégio onde é docente há 23 anos. 

Com o tempo, porém, verificou “que a memória continua com falhas” e que, apesar de as dores articulares terem melhorado e já sentir “as pontas dos dedos”, ainda não recuperou totalmente e sente fadiga. “O final de um dia normal, um dia após outro, torna-se complicado e injusto quando nos comparamos a um trabalhador normal e saudável... Trabalhar é extremamente benéfico para nós, mas deveríamos ter uma redução”, alega.