Balsa, a mítica cidade romana à beira da ria Formosa, continua à deriva

A zona de protecção do sítio arqueológico está publicada, mas as restrições ao urbanismo não estão ainda definidas. Os investigadores apresentaram um anteprojecto para salvaguardar o que resta do património.

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Uma visão panorâmica de Balsa (séc. I-IV d.C.) de Christof Studer, Filomena Campos e Luís Fraga da Silva — Campo Arqueológico de Tavira
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Olhando em redor, mal se adivinha a riqueza patrimonial que ali se esconde. Quando se caminha na Luz de Tavira, junto à ria Formosa, há um mundo por desvendar debaixo do chão — é Balsa, a mítica cidade romana. “Nós, arqueológos, falamos de coisas que não se vê e o discurso fica difícil”, admite Vítor Silva Dias, responsável pela equipa de investigação que, no Verão passado, radiografou o “coração” da urbe, que tem estado à mercê dos caçadores de tesouros. As últimas escavações comprovaram a necessidade de continuar a desbravar o terreno do (des)conhecimento.

A Quinta da Torre d’Aires, onde há dois anos foi autorizada a implantação de uma grande superfície de estufas (que acabaram por não avançar, pois os proprietários passaram à dedicar-se à produção de plantas aromáticas), é o sítio onde se encontra o fórum (praça pública) de Balsa. As últimas prospecções arqueológicas detectaram a “eventual” existência de um templo ainda por descobrir. “Desde os bancos da faculdade de Coimbra que ouço falar de Balsa como uma cidade mítica”, disse Vítor Dias no Centro de Ciência Viva de Tavira durante a apresentação de uma proposta para resgatar a memória da cidade romana, cujas origens, presume-se, recuam ao século I antes de Cristo.

O especialista em arqueologia romana João Pedro Bernardes, da Universidade do Algarve (Ualg), adiantou que estão sinalizadas duas bases de estátuas, que estariam no fórum, e que irão ser levadas para o museu de Tavira. “Muito se tem escrito sobre Balsa, mas pouco se sabe sobre Balsa.” Na verdade, acrescentou, “muito do que se tem escrito é muito ficcionado”.

A comunidade científica tem os olhos postos neste lugar, onde já foram recolhidos materiais que constituem a reserva e mostra principal do Museu Nacional de Arqueologia. “Apesar ter sido muito afectada, muito destruída, a cidade ainda tem uma área relativamente extensa que se preserva”, sintetizou João Pedro Bernardes. E adiantou: “Há uma universidade espanhola e outra alemã que estariam interessadas, se lhes fosse feito o convite, para virem amanhã para aqui trabalhar.” Este professor do Departamento de História Arqueologia e Património da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Ualg prestou, nos últimos dois anos, consultoria científica ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido para que sejam tomadas medidas de salvaguarda do património. O Ano Europeu do Património Cultural, que se comemora, e a Convenção de Faro — assinada em Outubro de 2005 por iniciativa de Guilherme d’Oliveira Martins para reforçar as políticas públicas de cultura, ao nível do Conselho da Europa — são instrumentos que servem de apelo ao envolvimento da comunidade. Dos parceiros aderentes ao projecto arqueológico, destaca-se a Lais de Guia — Associação Cultural do Património Marítimo e o Centro de Ciência Viva de Tavira.

Caça ao tesouro

Durante décadas não faltaram curiosos, com detectores de metais, pelos campos fora, em busca de vestígios com interesse para venda no mercado de arte. “Há muitas coisas que aparecem na Internet — moedas, por exemplo — e isso, sim, é um problema”, observou João Bernardes, referindo-se à pilhagem dos bens públicos. Por seu lado, a arqueóloga da Direcção Regional da Cultura do Algarve (DRCA) Cristina Garcia, que tem acompanhado os trabalhos de prospecção, lembra que vem de longe a caça ao tesouro. Mas, por outro lado, destaca que a mostra no Museu Nacional de Arqueologia — fruto, em grande parte, das escavações efectuadas por Estácio da Veiga, no século XIX — “inclui também peças doadas pelos proprietários das terras”. São mais de 8 mil registos de peças que foram do Algarve para Lisboa. Só que, desde a década de 1970, que deixou de haver trabalho sistemático. Em Maio passado, na sequência de uma proposta da DRCA, foi publicado em Diário da República o alargamento da Zona Especial de Protecção Provisória (ZEPP) da Estação Arqueológica de Balsa, com uma área quase quatro vezes superior à até então existente — passou de 53 para 233 hectares. Porém, ainda estão por delimitar as zonas de restrição e os terrenos à beira da ria Formosa continuam a ser alvo dos interesses imobiliários.

Quando as pedras falam...

O que os arqueólogos propõem, secundados pelas associações de defesa do património, é desenvolver uma iniciativa, com base na Ualg, para a valorização do território juntando o património cultural ao natural. “É o momento decisivo: faz-se, ou não”, advertiu Cristina Garcia durante a apresentação do anteprojecto científico no passado fim-de-semana.

O presidente da Câmara de Tavira, Jorge Botelho, disse acompanhar “com preocupação” o desenrolar do processo, mas entende que a pressão pública deve-se virar mais para a administração central do que para a autarquia. “Os terrenos privados [dentro da estação arqueológica] devem passar para a esfera pública, e o ministro da Cultura deve ser envolvido”, sugeriu.

João Pedro Bernardes defende a criação de um projecto científico plurianual, de longo prazo, podendo vir a ser criado um núcleo museológico integrado em circuitos turísticos.

O relatório da Archaeofacory — a empresa de arqueologia contratada pelos privados para fazer as prospecções preventivas — chama a atenção para a necessidade de prosseguir com as investigações. As imagens, recolhidas com recurso a georradar, mostram os vestígios de uma cidade que se desenvolvia numa faixa ao longo da ria Formosa. Os muros das edificações têm cerca de um metro de altura. Em relação às teorias sobre a dimensão da cidade que dão conta de que esta teria uma área quase o dobro da Lisboa de então, João Pedro Bernardes desvaloriza: “Balsa não era uma cidade muito grande, embora seja certo que temos uma extensão enorme de vestígios que vai, pelo menos, da ribeira da Luz até Pedras d’El Rei.”

Mas há outras estórias por contar neste território onde as pedras falam. O arqueólogo lembra, a este propósito, a epigrafia funerária de Balsa, destacando Annius Primitivus — um comerciante que enriqueceu tão rapidamente que dedicou uma lápide à deusa Fortuna e ofereceu à população dois combates: um de boxe e outro de barcas. É certo, disse, a “arqueologia é por definição uma ciência muito conjectural (os arqueólogos têm de ter imaginação para a partir de fragmentos reconstituir uma civilização) mas há limites”. E os limites, enfatizou, “são determinados pela metodologia científica”.