O Ocidente está de regresso? Sim e não

Com a Europa a levantar finalmente a cabeça e a economia mundial a crescer a bom ritmo, o ambiente de Davos volta a ser optimista. Mesmo que com a visita de Trump, o “homem anti-Davos” no último dia.

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Bastou um ano para que quase tudo mudasse na grande encenação de Davos LAURENT GILLIERON/EPA
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Nos longos anos em que as economias ocidentais enfrentaram a Grande Recessão (depois da crise financeira de Wall Street), Davos foi o reflexo de um mundo em mudança que, aparentemente, deixava de ser americano ou ocidental, para passar a ser do “resto”, ou seja, das grandes potências emergentes, que tinham tirado partido da globalização dos mercados.

No segundo mandato de Obama, a economia americana já estava em franca recuperação. Na Europa, as coisas foram mais lentas, deixando que a crise da dívida se transformasse numa crise do euro e, depois, numa crise do próprio projecto de unidade europeia, dando um espectáculo de divisão e declínio pouco atractivo.

No ano passado, Davos coincidiu com a tomada de posse de Donald Trump e a sua promessa de contrariar a globalização e os seus efeitos “nefastos” sobre a economia americana, ameaçando aplicar tarifas pesadas aos países com gigantescos excedentes comerciais com a América. A China e a Alemanha estavam na primeira linha. A sua ausência abriu uma oportunidade ao Presidente chinês, Xi Jinping, que se apresentou em Davos (onde a China nunca costumava ir) como o grande líder da globalização dos mercados. Foi ovacionado, mas o entusiasmo durou pouco: a abertura do mercado chinês está ainda muito longe da dos grandes países para onde exporta.

Um ano é muito tempo

Bastou um ano para que quase tudo mudasse na grande encenação de Davos. A economia mundial cresce a bom ritmo (o FMI acaba de rever em alta as previsões), já não porque puxada pelas economias emergentes, como aconteceu durante a crise, mas pelo crescimento das economias desenvolvidas. Restabeleceu-se algum equilíbrio.

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Xi Jinping foi a estrela de Davos no ano passado, onde a China nem sequer costumava ir Ruben Sprich/REUTERS

A Europa regressa a Davos com a fase mais crítica da crise já, em boa medida, ultrapassada e um crescimento invejável, com o melhor que tem para mostrar: um novo entendimento entre Paris e Berlim e, sobretudo, um Presidente francês apostado em devolver à França (e à Europa) o seu prestígio perdido e a sua capacidade de agir à escala global. Os analistas esperam dele um discurso marcante.

Será secundado pela chanceler alemã, que também fala igualmente esta quarta-feira, regressando aos palcos mundiais, depois de quatro meses de negociações penosas para constituir o seu próximo governo.

Deixou os holofotes quase todos para Macron, mas o que disser terá a importância que é devida à líder da maior economia europeia. Os primeiros-ministros da Holanda, de Portugal e da Irlanda também estão em Davos para falar da Europa. Theresa May vai tentar a “missão impossível” de convencer os grandes patrões e investidores que o Brexit não muda nada.

O medo do populismo

Também mudaram as preocupações dos CEO presentes em Davos, que hoje vêem no populismo uma séria ameaça ao crescimento global, que somam à incerteza internacional, agravada pela entrada em cena de Donald Trump. Vão ter de esperar pelo próprio, que decidiu ir a Davos discursar no último dia dos trabalhos, na sexta-feira, depois de uma longa ausência dos presidentes americanos, desde Clinton.

Chega tarde mas o que disser não será irrelevante, porque fala em nome da maior economia mundial, cuja moeda ainda domina as transacções internacionais. Os grandes patrões temem o seu proteccionismo mas, ao mesmo tempo, olham com optimismo para a sua reforma fiscal, com a redução drástica da carga fiscal sobre as empresas e os ricos, antecipando mais um estímulo ao crescimento económico da economia americana. “Muitos dos presentes gostam da sua reforma fiscal”, diz Ian Bremmer, director do think-tank Eurasia (dedicado à avaliação de risco), mas acrescenta que isso não deve chegar para “ganhar o apoio da plateia”.

Para não deixar os seus créditos por mãos alheias, a Casa Branca anunciou ontem o aumento das tarifas para vários produtos importados da China e da Coreia do Sul. Trump já tinha rasgado o Tratado Trans-Pacífico de comércio livre, negociado por Obama com 11 países da Ásia Oriental. O Times chama-lhe “o homem-anti-Davos”. A própria escolha do tema para esta edição do Fórum choca de frente com a America First: “Criando um futuro partilhado num mundo fracturado”. Mesmo assim, outro inquérito aos CEO presentes em Davos indica que o país onde mais gostariam de investir se continua a chamar Estados Unidos.

“Choose France”

 Entretanto, antes de partir para Davos, o Presidente francês voltou a demonstrar que França não tenciona perder a oportunidade de atrair o investimento estrangeiro, tirando partido da incerteza criada pelo "Brexit" (Theresa May também vai estar em Davos). Macron quer “valorizar a atractividade da França, alguns meses depois do lançamento de transformações económicas profundas” explicava o Eliseu.

A palavra-de-ordem é “Choose France”. O Presidente francês convidou 140 CEO das grandes multinacionais, incluindo as gigantes tecnológicas, para uma reunião informal na segunda-feira no Palácio de Versailles, o símbolo máximo do poder da França e do seu Presidente-rei. O mesmo inquérito ainda coloca o Reino Unido à frente da França.

Pode dizer-se que o Ocidente está de regresso? Talvez não, em boa medida graças ao afastamento entre os dois lados do Atlântico, na sequência da eleição de Trump. Mas o tempo em que a Europa ia desaparecendo do mapa e o Ocidente lutava contra uma profunda crise económica e financeira, já lá vai. Davos será ainda um retrato muito inacabado do mundo que está a emergir, mas não será a confirmação do declínio acelerado e inevitável das democracias ocidentais.

O primeiro líder mundial a discursar em Davos foi o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Fez a defesa da globalização contra “as forças do proteccionismo que estão a levantar as suas cabeças”. Alguns cenários sobre o futuro indicam que a Índia acabará por ultrapassar a China, graças ao seu crescimento populacional e, consequentemente, ao peso da juventude na sua pirâmide etária, para além de ser uma democracia.

O desafio indiano não é só para Pequim, cuja população praticamente estagnou, é também para a Europa, cuja demografia é um enorme entrave à sua ambição económica e política. 

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