O dia em que Santana pediu desculpas por caretas, desmaios e outras trapalhadas

Candidato à liderança do PSD atacou os que se "exaltam e vociferam" contra si e desafiou António Costa para um encontro para falarem sobre o país depois das eleições no partido.

Foto
LUSA/NUNO FOX

Embalado pelo debate que teve esta semana com Rui Rio, Santana Lopes juntou neste sábado algumas centenas de pessoas no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. Mas estas começaram a convenção sem o cabeça-de-cartaz. Quando discursou, Santana Lopes justificou por duas vezes a ausência inicial dizendo que esteve a “trabalhar” ou a “acompanhar pelas redes sociais” os trabalhos. Quando chegou, levava no bolso um discurso político em que não só atacou Rui Rio, sem nunca dizer o seu nome, marcando as diferenças perante o adversário, nomeadamente na defesa do legado de Passos Coelho, como pediu desculpas por alguns actos de 2004, mas não pelos erros de governação.

No discurso de encerramento da convenção de Pedro Santana Lopes em Lisboa, o candidato não teve dúvidas em insistir em dois pontos: colar Rio às ideias e ao Governo de António Costa e a colocar-se a si ao lado de Pedro Passos Coelho. Santana diz ao partido que esteve sempre e que “há que separar as águas”, porque houve outros que nem sempre o fizeram. “Passos Coelho não pôde fazer mais. Teve de salvar o país da bancarrota. Fez um trabalho absolutamente excepcional. Enquanto a extrema-esquerda está só a pensar na sobrevivência no poder em vez de pensar noutros objectivos mais nobres”, disse.

É nesta lealdade ao partido que o candidato aposta para conseguir a vitória no dia 13 de Janeiro, apontando o dedo aqueles que nos últimos dias o têm criticado. “Não se exaltem, não vociferem, não se incomodem, não se irritem”, disse. E nessa crença que vai ganhar, desafiou António Costa a marcar uma data “para falar sobre o estado do país”.

Tal como no debate, Santana Lopes colocou-se numa espécie de máquina do tempo para voltar a 2004 para reduzir “as trapalhadas” do seu Governo a alguns actos. “Aqueles que dizem que não tirei lições de 2004, eu respondo: peço desculpa por uma careta de um ministro numa tomada de posse. Ou por uma secretária de Estado não ter ficado numa secretaria e ter ficado noutra. Peço desculpa por me ter sentido indisposto na tomada de posse, por ter feito um discurso a falar de uma incubadora, eu peço desculpa. Mas não peço desculpa por erros de política interna e externa, por isso não peço desculpa. Estava a cumprir o meu dever”, afirmou.

Reduzir a despesa pública

No campo das ideias, Santana quer reduzir a despesa pública, “para libertar recursos para amortizar dívida em percentagem do PIB", mas também em valores brutos”, quer rever o regime de utilizador-pagador em algumas auto-estradas do país ou impulsionar as exportações.

Durante a tarde, tinha respondido a algumas perguntas e nessas respostas levantou o véu sobre algumas das suas propostas. O homem que quer ser de novo líder do PSD – mas “#porumPSDmaisPPD”, uma das hashtags usada na convenção – surgiu na pele de ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia. Falou sobretudo de áreas sociais e sobre elas, não tem dúvidas que é preciso “contratualizar mais com o terceiro sector”.

Santana preferiu falar em “Estado solidário” e não em “Estado social” porque este se liga “mais ao conceito de que cada um deve ser tratado em função dos seus rendimentos". "O Estado social não pode fornecer todos os serviços de modo tendencialmente gratuito", defendeu.

Esta ideia enquadra-se numa antiga, quando propôs o pagamento de taxas moderadoras diferenciadas, colocando os mais ricos a pagar mais por alguns serviços sociais. Quando questionado sobre os apoios continuados e as ajudas aos mais velhos, Santana falou na necessidade de “retenção” de uma parte dos descontos para esta fase da vida, sem no entanto esclarecer a proposta.

Nesta convenção, Santana deixou "o outro candidato" a falar sozinho. Primeiro, não falou sobre a proposta de Rui Rio de variar as pensões tendo em conta a economia, em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença. E por outro lado, também não respondeu ao pedido do ex-autarca do Porto para que explique “tim-tim por tim-tim o que aconteceu” para que a Santa Casa entre no capital do Montepio, depois de o ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva, ter dito que a ideia tinha sido de Santana Lopes.