Guida Maria (1950-2018), uma actriz combativa e ousada

Morreu esta terça-feira a actriz Guida Maria. Protagonista de A Promessa, de António de Macedo, no cinema, fez longa carreira na televisão e nunca deixou o teatro – onde teve um dos seus grandes sucessos, Os Monólogos da Vagina. Nos palcos, aliás, procurou mulheres à sua imagem, frontais e destemidas.

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Guida Maria na peça Os Monólogos da Vagina Rui Gaudencio
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Guida Maria na peça Os Monólogos da Vagina RUI GAUDENCIO/RUI GAUDENCIO
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RUI GAUDêNCIO
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PEDRO CUNHA
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Em Serenidade DR
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Em Os Emissários de Khalom dr
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A Promessa dr

Lá fora, Glenn Close, Susan Sarandon, Kate Winslet, Whoopi Goldberg, Winona Ryder ou Melanie Griffith. Em Portugal, Guida Maria. As numerosas produções do monólogo teatral Os Monólogos da Vagina, da autoria de Eve Ensler, atraíram muitas das mais notáveis e mediáticas actrizes de todo o mundo. A estreia nacional ficou a dever-se a Guida Maria, que, em Outubro de 2000, se atirou a um texto pautado pela frontalidade e desassombro com que aborda a sexualidade feminina. Tal como acontecera nas maiores salas norte-americanas ou londrinas, também por cá foi um sucesso que se colou, com justiça, à pele da actriz, que faleceu esta terça-feira, aos 67 anos, no Hospital São Francisco Xavier, Lisboa, onde se encontrava hospitalizada desde o início de Dezembro. Foi vítima de um cancro no pâncreas.

A notícia foi avançada à agência Lusa pelo encenador António Pires, declarando que a actriz morreu durante a manhã, “tranquilamente durante o sono”. O velório tem lugar na Basílica da Estrela, em Lisboa, desde o final da tarde desta terça-feira, de onde o corpo sairá, na quarta-feira, em direcção ao Cemitério dos Prazeres, para a realização do funeral.

António Pires dirigiu Guida Maria em três ocasiões, a primeira das quais em Março de 2004, quando a actriz o convidou a assumir a encenação de Zelda, título com que rebaptizou The Last Flapper, peça de William Luce baseada nos diários de Zelda Fitzgerald. Pires era já um amigo da família, uma vez que há muitos anos que o seu percurso profissional se cruzara com a da actriz Julie Sargeant, filha da actriz e do músico Mike Sargeant. “Gostei muito de trabalhar com ela”, declara o encenador ao PÚBLICO. “Era uma actriz muito combativa, muito forte, com muita energia, muito determinada nos seus projectos – depois de ter saído do Nacional [a actriz integrou o elenco residente do Teatro Nacional Dona Maria II entre 1978 e 1998] começou a fazer os seus projectos pessoais, ia convidando encenadores para trabalhar com ela porque não conseguia ficar quieta.”

As características a que António Pires se refere – combativa, enérgica, determinada – correspondem, de alguma maneira, às personagens e aos textos de um universo marcadamente femininos (e feministas, em muitos casos) que Guida Maria escolheu para essas produções que ela própria desencadeava. Assim foi, por exemplo, com Os Monólogos da Vagina, quando viajou até Nova Iorque em busca de um espectáculo à sua medida e se reuniu com os agentes de Ensler para negociar a aquisição de uma peça esgotadíssima na Broadway e que montou com o encenador Celso Cleto para a estreia nacional no Casino Estoril.

Zelda, por seu lado, levava para palco a história da mulher de F. Scott Fitzgerald, libertando a escritora, pintora e bailarina da sombra do escritor norte-americano. Antes da estreia, Guida Maria descrevia ao PÚBLICO a mulher que encarnava em palco como “uma intelectual numa altura em que as senhoras eram feitas para casar”. “Eram sempre mulheres muito fortes, com muita opinião sobre a vida, nada conformadas com a vida e com as injustiças e mulheres que marcaram as suas épocas – com as quais ela se identificava”, comenta António Pires acerca das protagonistas em que Guida Maria apostou nos últimos anos da sua carreira teatral e que desenvolveu, em larga medida, em paralelo com os seus papéis na televisão. “Era também assim – uma pessoa muito livre e que falava muito abertamente sobre as coisas.”

Esse perfil seria vincado sobretudo por Os Monólogos da Vagina. Depois da estreia no Casino Estoril, com o público a acorrer em barda (foram quase 20 mil espectadores), Guida Maria regressaria ainda por duas ocasiões ao texto – primeiro no Teatro Villaret, em 2002; depois partilhando o espectáculo com as actrizes Ana Brito e Cunha e São José Correia no Casino de Lisboa, em 2009.

Aos monólogos voltaria ainda em 2015, com a peça de Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo Sexo? Sim, mas com Orgasmo, dirigida também por António Pires e incidindo de novo nos interditos relacionados com a sexualidade, reforçando uma imagem de ousadia que não deixou de levar para palco. Mais recentemente, interpretou Os Malefícios do Tabaco, de Anton Tchékhov, numa encenação de Paulo Ferreira.

Cinema, televisão e sempre teatro

A imagem de ousadia associada a Guida Maria como actriz vinha já de trás. Em 1973, ao protagonizar com João Mota uma cena de nudez no filme A Promessa, de António de Macedo, faria um enorme furor no taciturno meio cultural e social português – o filme estreou-se pouco antes do 25 de Abril, após uma troca de argumentos com a Censura. O impacto desse momento foi algo que, no entanto, sempre desvalorizou, salientando a normalidade de uma cena daquelas naquilo que o seu trabalho lhe exigia e considerando a decisão – numa entrevista a Ana Sousa Dias para o programa da RTP O Outro Lado – “um acto de coragem do realizador”. “Ela fazia um papel magnífico e era uma das forças daquele filme”, recorda ao PÚBLICO o realizador Lauro António, com quem filmaria mais tarde.

A Promessa, de resto, significaria um episódio raro (até então) de chegada do cinema português ao Festival de Cannes – antes disso apenas Leitão de Barros, em 1946, e Bárbara Virgínia tinham estado presentes no certame –, onde François Truffaut, segundo lembrou Fernando Madaíl no Diário de Notícias, lhe terá perguntado: “Mas como é que uma cara tão bonita só fez um filme?”

Com António de Macedo, Guida Maria filmou ainda O Princípio da Sabedoria (1975), A Bicha de Sete Cabeças (1978) e Os Emissários de Khalom (1988), tendo sido também dirigida por Artur Semedo (O Barão de Altamira, 1986), Rosa Coutinho Cabral (Serenidade, 1987), João Botelho (No Dia dos Meus Anos, 1992) e Lauro António (O Vestido Cor de Fogo, 1985). Lauro António cruzava-se regularmente com a actriz em encontros organizados por Jorge Vale na Casa da Comida, às Amoreiras (em Lisboa). “Estávamos a falar numa determinada altura e ela disse-me: ‘Estou farta de fazer de princesinha.’ Eu perguntei-lhe se ela gostava de fazer de prostituta. Ela respondeu: ‘Adorava.’” E foi assim que o realizador aumentou o papel que lhe atribuiu em O Vestido Cor de Fogo, permitindo-lhe fugir à imagem de “princesinha”.

Depois dessas escapadas por terras do cinema, a actriz passou a ser vista sobretudo na televisão, participando em telefilmes, séries e telenovelas, tais como Riscos, Super Pai, a série brasileira O Bem Amado, Olhos de Água, Tudo por Amor, Amanhecer, Doida por Ti ou A Única Mulher (já em 2016).

Nascida em 1950, filha do actor Luís Cerqueira, Guida Maria – assim baptizada porque, escrevia Fernando Madaíl, a mãe escolhia para os filhos nomes de personagens do livro As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis – foi desde cedo uma presença frequente nos palcos portugueses. Iniciou-se com sete anos, na peça Fogo de Vista, de Ramada Curto, e aos 12 teve o primeiro sabor de verdadeiro sucesso enquanto protagonista de O Milagre de Anne Sullivan, uma encenação de Luís de Sttau Monteiro do texto em que William Gibson relatava a história de Helen Keller. “Quase fiquei apaixonado por ela nessa altura”, recorda Lauro António, porque “era muito bonita e tinha uma força muito grande dentro dela que era muito visível”.

“A Guida é de Campo de Ourique”, diz Jorge Silva Melo ao PÚBLICO, “aquele que conheci nos finais dos anos 50, e era la plus belle pour aller danser daquele bairro pequeno.” O encenador nunca esquecerá “aquela matinée no Teatro Avenida” em que também a descobriu no papel de Hellen Keller, a “menina surda-muda que, ao fim de dois actos habilidosamente elaborados, conseguia dizer ‘Água’”. “Eu chorei. E a sala vinha abaixo.”

Após uma breve aproximação à LUAR no pós-25 de Abril, dedicou-se durante duas décadas às produções do Teatro Nacional Dona Maria II, que interrompeu apenas para frequentar a American Academy of Dramatic Arts, em Nova Iorque, com uma passagem ainda pelo Actor’s Studio. Ao longo dos anos passados no Nacional, Guida Maria representou os grandes textos do cânone teatral, de Garrett e Shakespeare a Gil Vicente, Brecht e Lorca. Com Lorca, aliás, teve a experiência dupla de representar mãe e filha em A Casa de Bernarda Alba: primeiro na sala lisboeta, foi uma das filhas de Eunice Muñoz; depois no Mindelo, em Cabo Verde, foi a matriarca e actuou parcialmente em crioulo. Foi também no Nacional que se aventurou pela primeira vez numa criação sua a partir do texto Shirley Valentine de Willy Russell, cuja tradução pediu a Silva Melo.

Em 2009, desvelando a sua vida artística e abrindo portas para parte da sua intimidade, publicou com Rui Costa Pinto a biografia Guida Maria – Uma Vida. Aí recorda os seus diversos papéis, na ficção e fora dela, sendo certo que nunca deixou de desempenhar aquele que talvez melhor a defina – a de mulher combativa e ousada.

Texto corrigido relativamente à data de estreia do filme A Promessa e acrescentada informação sobre os filmes portugueses em Cannes