Permitida a entrada a homens

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Eve Ensler, jornalista e activista política norte-americana, escreveu em 1997 a peça "Os Monólogos da Vagina", depois de ter entrevistado várias mulheres. Desde aí tem sido interpretada em vários palcos por várias actrizes, incluindo ela própria. Chegou a vez de Portugal. A actriz Guida Maria dá corpo e voz a esta série de monólogos de mulheres a falarem sobre o seu "lá em baixo". É permitida a entrada a homens.

A actriz Guida Maria foi a Nova Iorque, em Janeiro, com a ideia específica de ver espectáculos que eventualmente pudesse trazer para Portugal. Na altura, algo lhe chamou a atenção. "Havia um cartaz brutal na Broadway, que dizia Os Monólogos da Vagina. Olhei para aquilo e para ser honesta pensei que fosse um espectáculo de cabaret." Mas logo chegou à conclusão de que "esse tipo de espectáculos hardcore não tem esta relevância, um cartaz enorme em plena Broadway". Começou então a perguntar aos amigos se tinham ouvido falar do espectáculo.

"Todos diziam maravilhas. Fui a correr tentar comprar bilhetes. Esgotadíssimo. Comecei a ter uma certa fixação no espectáculo, porque me apercebi de que havia um ponto fundamental na peça: o seu lado económico, ou seja, eu sabia que era só feita com uma actriz - a Eve Ensler - e, pelo cartaz, eu só via um microfone. Para trazer peças para cá têm que ser económicas, senão é impossível fazê-las. Acabei por descobrir os agentes da Eve Ensler, marquei uma reunião e falei com uma senhora muito simpática que me explicou tudo."

"Ela disse-me exactamente o que eu queria ouvir: era um espectáculo com 90 minutos (o que também me interessava porque espectáculos muito compridos são uma chatice), só tinha uma actriz à volta dos 46 anos, não tinha um guarda-roupa complicado, não havia mudanças de fatos, não tinha cenários. E disse-me que o espectáculo era brilhante."

"Aposto que estão preocupadas. Eu cá, estava. Foi por isso que me pus a escrever esta peça. Andava preocupada com vaginas. Preocupava-me o que pensamos sobre as vaginas e ainda mais preocupada por não pensarmos nelas. Estava preocupada com a minha vagina. Precisava de um contexto de outras vaginas - uma comunidade, uma cultura de vaginas. Há tanto obscurantismo, tanto mistério à volta delas - elas são como o triângulo das Bermudas. Nunca ninguém conta o que lá se passa."

Começa assim a peça escrita por Eve Ensler. "Em primeiro lugar não é muito fácil encontrarmos a nossa própria vagina. Há mulheres que passam semanas, meses, por vezes anos, sem olhar para ela. Entrevistei uma importante mulher de negócios que me disse ter mais que fazer; não tinha tempo. Olhar para a vagina, disse-me, é coisa para demorar um dia inteiro. (...) Assim, decidi falar com outras mulheres sobre as suas vaginas, vaginas de entrevistadas e essas entrevistas deram lugar aos monólogos da vagina. Falei com mais de duzentas mulheres. (...) Essas mulheres, ao princípio, tinham relutância em falar. Eram um pouco tímidas. Mas assim que começavam, ninguém as conseguia calar. As mulheres, lá bem no fundo, adoram falar em vaginas. Ficam excitadas, sobretudo porque nunca ninguém lhes tinha feito tais perguntas."

Eve Ensler escreveu uma peça baseada nas suas entrevistas a mulheres de várias faixas etárias e de diferentes estratos sociais. Fez-lhes várias perguntas deste género: "Se a sua vagina se vestisse, o que é que usaria?"; "A que cheira a vagina" e "Se a sua vagina pudesse falar, o que é que diria?". E ainda lhes colocou questões sobre a menstruação, ouviu as suas queixas sobre o desconforto das idas ao ginecologista e os lamentos sobre um marido infiel que gostava de rapar vaginas, mas não tinha jeito nenhum. Ouviu histórias sobre experiências de terapias de grupo para a descoberta de vaginas, classificou os orgasmos consoante a classe social, ouviu a mulher que gemia muito dizer-lhe como tinha passado a dar prazer a outras mulheres, a senhora de idade que por causa da vergonha das suas enchentes fechou a loja lá em baixo e a história da mulher a quem um homem sem interesse mostrou como gostar da sua vagina. E, muito importante, dedicou um monólogo às mulheres violadas da Bósnia (em 1993, 20 mil a 70 mil mulheres foram sistematicamente violadas na Bósnia) e um outro ao parto, ao momento do nascimento de um filho. "Vamos começar pela palavra 'vagina'. O seu som, no melhor dos casos, lembra uma infecção, um instrumento médico. 'Depressa, enfermeira, traga-me a vagina'. 'Vagina' 'Vagina'. Por mais vezes que a pronunciemos, nunca soa como uma palavra que se queira dizer. É uma palavra completamente ridícula e nada sexy. Se a empregamos enquanto fazemos amor, tentando ser politicamente correctas - 'Acaricia-me a vagina, querido'- acaba-se tudo logo ali. Ando preocupada com as vaginas, com o que lhes chamam e com o que não lhes chamam."

Guida Maria não chegou a ver o espectáculo em Nova Iorque mas comprou revistas e leu as críticas onde a peça era posta "nos píncaros". Percebeu então que estava dentro da faixa etária das mulheres que podem fazer a peça. Já a fizeram Donna Hanover (actriz e ex-mulher do que foi presidente da câmara de Nova Iorque Rudy Giuliani), Calista Flockhart, Brooke Shields, Glenn Glose, Susan Sarandon, Whoopi Goldberg, Melanie Griffith...

"De facto, este texto a ser dito por uma jovem de vinte e tal anos parece-me descabido. Fala-se ali de tantas coisas... Eu já passei por aquelas experiências quase todas. Bom, em relação ao monólogo dedicado às mulheres na Bósnia não. Quer dizer, nunca fui violada, graças a Deus, mas gajos com fetiches de rapar vaginas, já passei por isso tudo, tenho 50 anos. Acho que tem que se ter alguma maturidade e experiência de vida para se poder perceber e interpretar aquele texto."

Guida Maria regressou a Portugal, entrou em contacto com a Sociedade Portuguesa de Autores, pagou os direitos e ficou com a peça. Depois começou o dilema, "Onde é que vou fazer esta peça" e a seguir veio o choque. "Quando dizia Os Monólogos da Vagina as pessoas ficavam a olhar para mim (e já me apercebi que isto não acontece só em Portugal). Achavam que estava doida, completamente deslocada. Falei com muitas empresas importantes para serem sponsors, todos olhavam para mim e diziam: 'Você está doida?' 'Está a ver o nome da minha empresa associada a uma peça com esse título?'. Acho isto inacreditável." "Como é que empresas que têm patrimónios em arte, têm quadros de mulheres nuas, têm estátuas de homens nus com o pénis e os testículos e pagam balúrdios por aquilo - e eu acho muito bem - como é possível terem-me dito cavalidades como me disseram quando ouviram o nome da peça? Ninguém teve a curiosidade de me dizer: 'Bom, o nome da peça é um bocado, enfim, mas diga-me lá de que é que se trata'. Eu fiquei tão triste, tão triste, tão triste. Curiosamente os únicos que nos apoiaram foi a administração do Casino, que não precisa de nós para nada, mas disseram que tinham muito gosto em ter-nos a actuar lá."

Guida Maria foi a Paris ver o espectáculo e ficou a saber que a actriz francesa, Fanny Cottençon, e o director do espectáculo tiveram exactamente os mesmos problemas. "Não tiveram um único apoio por causa do título da peça".

Foi a Espanha ver o espectáculo, "também não tiveram um único apoio." "No Brasil o espectáculo está a ser feito por três mulheres. Em Espanha são duas actrizes em palco e num teatro de Nova Iorque estão a fazê-lo com 12 actrizes. Por aquilo que vi achei menos interessante o espectáculo dividido por várias actrizes".

Na sua opinião, a figura de Eve fica dispersa. "Eve é uma mulher que teve a coragem de fazer um trabalho importante, de se dedicar às vaginas do mundo inteiro e de dizer coisas muito importantes. É uma mulher nova, com quarenta e tal anos, que tem conseguido levar a sua voz ao mundo inteiro e fazer uma chamada de atenção. Porque não há dúvida nenhuma de que se não houvesse vaginas não havia humanidade. Isto é tão simples como isso."

Em 1996, Guida Maria estreou-se na sala estúdio do Teatro D. Maria (a actriz faz parte do elenco do teatro nacional) a interpretar o seu primeiro monólogo: Shirley Valentine. Nessa altura disse aos jornais que não se iria meter noutra. Agora explica que o contexto era completamente diferente.

"Eu adorava aquela peça (também a escolhi e descobri) e embora quisesse muito fazê-la, aconteceu que na altura estava doente, com uma profunda depressão. Estava a tomar muitos comprimidos (Prozac e do género) porque não estava psicologicamente a 100 por cento. Aliás, tinha começado a fazer a menopausa naquela altura. Andava muito baralhada, não percebia o que me estava a acontecer. Falei com médicos, disseram-me que era normal, mas aquilo era um bocado incontrolável. Eu não conseguia controlar a minha própria cabeça." Por isso, diz, teve um trabalho triplo. "Porque só queria chorar, não me apetecia levantar, não queria trabalhar. Mas depois queria, tomava os comprimidos e ficava bestial. Depois deixava de tomar os comprimidos e ficava na fossa. Foi um processo muito penoso para mim do ponto de vista pessoal. Era uma coisa que eu tinha de fazer, mas escusava de ter sido logo naquela altura." E estava "completamente apavorada" com a responsabilidade de ser o seu primeiro monólogo. Ao fim de dez dias de estar a fazer a Shirley Valentine e ver que as pessoas gostavam muito e de ter tido apoios "extraordinários de espectadores, nomeadamente dos homens", aquilo "entrou nos carris" e passou a gostar muito de o fazer. "O público é sempre uma incógnita", continua Guida Maria.

Na Shirley Valentine as cartas e as palavras mais bonitas que recebeu foram de homens. "Toda a gente me dizia que se tratava de uma peça feminista. Afirmei sempre que era uma peça que tinha a ver com um problema específico de uma mulher, que curiosamente também estava com problemas de menopausa. Mas tudo isto tem a ver com os homens", afirma. "As mulheres só são infelizes porque os homens as fazem infelizes, mais nada! A gente sabe que quando se apaixona e quando os gajos nos tratam bem, andamos todas porreiras. Quando os gajos nos começam a tratar mal ou não nos ligam nenhuma, a gente começa a ficar... Para eles é mais fácil. Eles mudam muito rapidamente porque são habitualmente muito pouco criteriosos: 'Não estás tu está outra!' Mas nem todas as mulheres funcionam assim. A maior parte não funciona. Aquele sentimento de reprodução, de maternidade, impede-nos de saltar constantemente como eles saltam. Isto é que é a pura das verdades. Eu raramente vejo um gajo preocupado, e se o vejo é só uma semana porque acabou uma relação de dez anos! Aquilo é uma semana no máximo, em 15 dias já vejo o gajo atracado a outra. E não vejo muitas mulheres a fazerem isso."

A Eve Ensler nunca ataca os homens nos seus monólogos. "Acho extraordinário como é que se pode falar de vaginas durante uma hora e meia sem nunca atacar os homens", contrapõe a actriz. "Obviamente que as mulheres se vão sentir mais identificadas com este espectáculo, mas se calhar os homens vão achar muita graça. Porque não os atacam frontalmente, o que acontecia na Shirley Valentine. Quando ela dizia ao marido: 'Já ouviste falar no clitóris?'. E ele respondia: 'Já mas prefiro o Ford Cortina.'"

"Os Monólogos da Vagina", a partir de sexta-feira, no Teatro do Casino do Estoril, com encenação de Celso Cleto.