Com o ano novo, é tempo de vida nova?

Os desejos podem ser 12 (ou mais), mas as mudanças devem ser feitas com calma e com um plano, aconselha quem mudou de vida.

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O ditado diz “ano novo, vida nova”, e há quem à meia-noite suba para uma cadeira com o pé direito e coma as passas desejando grandes mudanças na sua vida. Será esta a melhor altura para as fazer? Qual é o tempo ideal para mudar? Devemos ter medo da mudança? O PÚBLICO perguntou a uma actriz, a uma terapeuta, a uma investigadora e à responsável pelo Movimento Slow Portugal como se muda de vida.  

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Por vezes, as mudanças fazem-se porque algo se altera na vida das pessoas — uma doença, um despedimento, um divórcio. Helena Marujo, especialista em psicologia positiva no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, fala de “três razões maiores”: “Insatisfação com o que se está a viver e como se está a viver; ou inspiração vinda da vida de outros que toca tão fundo que muda o nosso rumo; ou um choque pessoal que traz uma reviravolta às prioridades da vida e traz clareza e consciência que convidam a começar um caminho novo.”

Pode dizer-se que foi um choque pessoal que levou Rute Caldeira a mudar de vida, mais concretamente uma doença. Enquanto trabalhava na área da comunicação e marketing, aos fins-de-semana fazia formações sobre terapias complementares. “Desejava aplicar aquilo que aprendia e, na prática, não era possível estar numa empresa e, ao mesmo tempo, trabalhar com pessoas na área das terapias”, conta. Por isso, sete ou oito anos depois de ter começado uma carreira no mundo empresarial, “deu o salto” e tornou-se professora de meditação, instrutora de ioga, mestre de reiki e autora dos livros Liberta-te de Pensamentos Tóxicos e Simplifica a Tua Vida.

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A actriz Anabela Teixeira não mudou de profissão, mas de projecto de vida. O clique fez-se quando viveu um cancro no ecrã, ou seja, quando fez uma personagem de uma novela, em 2011. O cancro era um “flagelo e não tinha noção de que afectava tantas pessoas em meu redor. Foi uma performance intensa que mudou a minha vida”. “Comecei aos poucos a introduzir produtos de alimentação biológica, a fazer limpezas ecológicas (não há químicos em casa), a comprar produtos ecológicos para o corpo e rosto. Não sou fundamentalista, ainda como peixe”, conta por email. 

Estas mudanças fizeram-na regressar à terra dos avós, à procura dos cheiros, dos sabores, das origens. “O sabor das batatas cozidas, esmagadas com tomate e azeite sempre me ficaram na memória, como um sabor único, natural”, exemplifica, apelando: “É preciso voltar às árvores, à criação de animais ao ar livre, voltar a aproveitar recursos naturais e nacionais.” A actriz criou o blogue Voltar à Terra, um espectáculo de teatro e, entretanto, publicou um livro com o mesmo nome.

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Pequenas mudanças

Raquel Tavares mudou da cidade, Lisboa, para o campo, Arruda dos Vinhos. E enveredou por uma vida mais calma. Pertence à direcção do Movimento Slow Portugal. “Abrandar. Não fiz nenhuma mudança radical. Este é um movimento de equilíbrio, que pode ser iniciado com pequenos passos”, explica a autora do livro Slow, as coisas boas levam tempo, e dá alguns exemplos: depois de sair do trabalho, não responder a emails, andar mais devagar, observar as coisas. Estas são pequenas mudanças que podem melhorar a vida de quem as faz. Ter tempo para si, sugere.

Tempo para meditar e respirar. “Perdemos muita energia vital com o stress”, considera Rute Caldeira. Dez minutos de manhã e outros dez antes de deitar, sugere. Mas o que podem a meditação e o saber respirar trazer de mudança? A respiração ajuda a oxigenar o cérebro, a meditação é um tempo pessoal que aumenta a concentração, defende. E esta é uma rotina que não exige uma mudança radical de vida. “Quando pomos a fasquia muito alta, perdemos a motivação; se dermos pequenos passos, estes podem trazer-nos mudanças gigantes”, defende. 

Perante as propostas apresentadas — viver com mais calma, ter tempo para si, para respirar e meditar — há quem ponha como entrave a desculpa de sempre: “Não tenho tempo.” “Costumo responder: ‘Já pensaram no tempo que perdem nas redes sociais ou a ver televisão? É mais do que dez minutos’”, diz Rute Caldeira. Há quem alegue que não consegue desligar-se da azáfama diária. “Pode ser muito emocionante viver de forma frenética, tem glamour o ‘live fast, die young’, mas é preciso equilíbrio. Se não desacelerarmos, as consequências sentem-se na nossa saúde e bem-estar”, alerta Raquel Tavares. E essas reflectem-se em todas as esferas da vida, dos relacionamentos às questões ambientais, acrescenta. “É preciso ter coragem para defender e assumir que é preciso abrandar”, diz, até porque as pessoas podem ficar malvistas — “slow não é preguiça”, esclarece.

Fazer algo de novo precisa de tempo até se tornar um hábito: alguns estudos dizem 20 dias, refere a investigadora Helena Marujo. “Sem repetição é mais fácil voltar ao habitual.” Por isso sugere que a mudança seja feita com alguém próximo que ajude ou que também queira mudar. “Isso facilita a mudança. Por isso, este ano, veja junto da família e amigos quem quer fazer mudanças semelhantes ou a quem faz sentido a sua vontade e direcção da mudança. Escreva as metas e os caminhos. Date e planeie temporalmente quando, como e com quem serão dados os pequenos passos iniciais e os seguintes, e integre a avaliação da mudança e a sua celebração vivida e inequívoca (mesmo aparentemente insignificante) na decisão estratégica”, recomenda.

Estratégias para a mudança

Até agora, lemos sobre pequenas mudanças que podem fazer diferença nas nossas vidas. E as grandes, as radicais? “Mudar não acontece nas decisões de passagem de ano. Ou raramente acontece. Precisa de estratégia, decisões sobre pequenos passos a dar, recursos a activar. Precisa de uma determinação e de ajudas. Ter testemunhas e apoiantes. Ter planos sobre os caminhos a fazer. Ter motivação sustentada e intrínseca”, receita a investigadora Helena Marujo.

Rute Caldeira é da mesma opinião. Apesar de haver “força e motivação” no início do ano, para mudar de vida é preciso ter um projecto e “muita confiança”, diz, falando da sua história. À medida que ia fazendo formações — por exemplo, esteve na Índia duas vezes, fez cursos de programação neurolinguística —, ia compreendendo que era aquilo que queria fazer, e, como ninguém a conhecia, decidiu criar um blogue e escrever sobre as mudanças na sua vida, os resultados da meditação, os seus projectos. De repente, os seus textos — fez o curso de Comunicação Social na Universidade Católica — eram partilhados e começou a dar formações, consultas, massagens, a fazer pequenos grupos de meditação. Hoje recebe convites de empresas para dar formação aos colaboradores.

Quando começou, a terapeuta não tinha dinheiro para comprar uma marquesa, por isso empilhou as espreguiçadeiras da piscina de casa dos pais, colocou uns colchões e mantas até tornar confortável o espaço onde os clientes se deitavam para receber massagens. “Às vezes deixamos de fazer as coisas porque queremos logo a marquesa. Aos poucos veio a marquesa, a aparelhagem, as almofadas...”, conta Rute Caldeira, que trocou os subúrbios de Sintra pela serra onde construiu a casa de madeira, entre a serra e o mar. É ali que recebe os clientes.

Não basta ter vontade de mudar, é preciso um projecto, reforça Raquel Tavares. Mais: “É preciso ter um suporte. Se não houver suporte, então é preciso preparar a mudança com tempo, slow, a prazo”, recomenda. “Mas também é preciso arriscar”, acrescenta.

De início, o retorno não é imediato, “mas tem de existir a convicção, determinação e ser pró-activo”, aponta Rute Caldeira. “Tenho muita fé, mas sou muito pró-activa, porque para acontecer é preciso fazer acontecer. Saber sonhar é muito importante, mas temos de ser ‘mestres’”, continua, ou seja, enquanto esteve empregada pagou as formações que a levaram a despedir-se e a lançar-se na sua nova vida com conhecimento suficiente, exemplifica.

A mudança faz-se com medo? “Muitas vezes, sim. Mas muda-se melhor pela positiva, com um horizonte bom, construtivo, determinado, alinhado com os nossos valores e o nosso sentido de vida”, conclui Helena Marujo. 

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