Editorial

Um ícone para a Palestina

Uma adolescente está a desempenhar um papel importante na reconstrução da imagem palestiniana. A óbvia encenação não anula a sua relevância.

Ahed Tamimi é a nova figura central da causa palestiniana. A jovem de 17 anos foi detida pelo Exército depois de ter sido filmada a tentar esbofetear soldados israelitas. A jovem Ahed é a melhor representação simbólica que este conflito poderia ter. Ela está desde muito jovem a ser preparada para cumprir o papel de activista através da vitimização cuidadosamente coreografada para se tornar viral nas redes sociais. Não há um pixel de espontaneidade no papel que desempenha, nem uma palavra de inocência na exploração que dela é feita pelos apoiantes da causa palestiniana em todo o mundo.

O que é grave é que, tirando os momentos das encenações, a sua história podia ser representada por milhares de outras crianças palestinianas de duas gerações que viram a infância perdida para um conflito que começa na fronteira das aldeias cercadas por colonatos e continua nas balas que matam membros de quase todas as famílias da região.

Aquando da detenção, logo um solícito ministro israelita fez o favor de cumprir o papel de perigoso radical, sugerindo uma pena de prisão perpétua para a jovem. Os palestinianos agradeceram a notoriedade para o seu novo ícone. Ao darem a vitória nesta pequena batalha ao Hamas, ficou claro que não há maneira de defender com seriedade a postura de Telavive face à sua política de detenções. Aliás, o principal efeito desta acção foi chamar a atenção para o comportamento desumano dos israelitas sobre as crianças e jovens palestinianos. Há várias crianças detidas em regime de solitária e já foi posta em prática uma lei aprovada em 2016 que permite que se julguem como terroristas crianças a partir dos 12 anos. Os vídeos de crianças palestinianas detidas em jaulas só serviram para confirmar o padrão de comportamento das autoridades de Telavive.

Num conflito tão extremado, em que o comportamento do Governo israelita de Netanyahu tem conduzido à erosão dos apoios construídos ao longo dos anos, esta nova “arma” palestiniana tem o condão de abrir novas perspectivas ao conflito. Israel está a apostar tudo no apoio de Washington, ao mesmo tempo que aliena apoios tradicionais e constrói as bases para que o conflito volte a ser visto como uma superficial luta entre bons e maus — dando força à terceira intifada, que até agora era apenas um projecto do Hamas que não tinha saído do papel.

dqandrade@publico.pt