Entrevista

"É preciso captar jovens e pessoas com novas ideias para os sindicatos"

Richard Hyman, professor emérito de relações industriais na London School of Economics, e Rebecca Gumbrell-McCormick, docente e investigadora na Universidade de Londres, defendem que os sindicatos têm de sair da sua zona de conforto e encontrar forma de representar os trabalhadores mais frágeis que, agora, estão à margem destas organizações.

Ricardo Lopes
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Ricardo Lopes

Richard Hyman, professor emérito e reconhecido especialista em relações industriais, e Rebecca Gumbrell-McCormick, professora  do departamento de gestão na Universidade de Londres, têm-se dedicado à investigação sobre o sindicalismo e as relações laborais na Europa. Juntos publicaram vários artigos sobre o tema e estiveram em Portugal a convite do Fórum Manifesto, para falarem sobre o passado, o presente e os futuros possíveis do trabalho. Em entrevista, desafiam os sindicatos a encontrarem novas formas de resistência e alertam que é preciso que os cidadãos participem de forma activa na discussão sobre o trabalho do futuro.

O mercado de trabalho tem sofrido grandes transformações e o emprego atípico tem vindo a ganhar expressão. Estamos condenados à precariedade e à insegurança do emprego?
Richard Hyman (RH): Se “condenados” significa que não há alternativa, a resposta é não. Mas se significa que é a força social dominante, então sim. Tem de haver alternativa, temos de resistir.

Como é que se resiste a essa força social dominante?
RH: Não tenho uma resposta. Mas penso que as pessoas estão a tentar. Em Portugal e noutros países.

Tradicionalmente a resistência vinha sobretudo dos sindicatos, mas eles têm a vindo a perder poder e representatividade. Como é que a sociedade se pode organizar para resistir?
RH: Historicamente, a maior parte dos sindicatos, na maior parte dos países e no contexto industrial, foi-se comprometendo com a ideia de que é melhor ter um acordo do que não ter nenhum acordo. E, nas últimas décadas, temos vindo a assistir à celebração de compromissos que pendem mais para o lado dos interesses dos empregadores e dos governos do que para o lado dos trabalhadores.

Por que é que isso tem acontecido?
RH: Os sindicatos tendem a ser instituições muito conservadoras: têm as suas tradições, os seus procedimentos, as suas formas de operar. É muito desconfortável para uma organização reconhecer isso e sair da sua zona de conforto e fazer as coisas de forma diferente. Normalmente, os sindicatos estão mais preocupados com os riscos do que com as oportunidades de fazerem as coisas de forma diferente. Em alguns países, os sindicatos estão passar por um mau bocado e têm de procurar alternativas, de ser mais ambiciosos e de olhar para lá do seu público-alvo, que é cada vez em menor número. Ao mesmo tempo, os empregadores e os governos estão menos disponíveis para responder às suas exigências e os sindicatos têm de encontrar novas formas de mobilização.

Tem exemplos dessas novas formas de mobilização? Estou a pensar, por exemplo, na aproximação entre os sindicatos e outros movimentos sociais que se verificou em Portugal durante o período da troika.
RH: Também houve iniciativas interessantes em Espanha. Os sindicatos não são organizações monolíticas, são uma arena onde diferentes ideias e influências competem e se mobilizam. Em alguns países, vão surgindo tendências inovadoras e mais ambiciosas que estão a desafiar as antigas formas de proceder dos sindicatos e que, se tiverem sucesso, podem fazer parte de um novo paradigma. Os sindicatos têm de assumir compromissos que respondam à evolução da sociedade, mas têm de estar cientes de que qualquer tipo de compromisso não é a vitória final, de que é preciso procurar formas de ir mais longe, em vez de serem complacentes como tem acontecido em alguns países.

Ao mesmo tempo os sindicatos parecem ter dificuldade em dar voz e representar os trabalhadores precários, que são cada vez em maior número. Também aqui há um caminho a fazer?
Rebecca Gumbrell-McCormick (RGM): No livro que escrevemos em 2013 ["Os sindicatos na Europa Ocidental: tempos difíceis, escolhas difíceis"] e que olha para dez países europeus – infelizmente não incluímos Portugal – concluímos que na maioria dos casos a resposta ia no sentido de tentar limitar o volume de trabalho precário. Mas à medida que se foi tornando claro que o trabalho precário não vai desaparecer, os sindicatos começaram a organizar estes grupos de trabalhadores. Há muitas formas de precariedade: trabalho temporário, contrato a termo, falso trabalho independente. As combinações variam de país para país. Os países que têm uma legislação laboral que protege mais os trabalhadores permanentes, tendem a ter mais trabalho atípico. Em países como Portugal ou Espanha é um grande problema. Alguns sindicatos tentam alcançar os trabalhadores com ocupações precárias. Uma das campanhas mais interessantes que vimos foi na Holanda, com a organização dos trabalhadores da limpeza dos caminhos-de-ferro holandeses. Muitos destes trabalhadores eram mulheres de origem emigrante e alguns nem sequer tinham autorização legal para trabalhar. Os sindicatos ajudaram-nos a organizar-se, houve uma greve de grande sucesso e depois disso conseguiram um contrato colectivo. Em França, tem havido grandes campanhas relacionadas com o trabalho precário nos centros comerciais. Na Alemanha, houve uma grande campanha contra a utilização dos contratos de aprendizagem para empregar jovens de forma mais barata que teve um grande sucesso e aumentou a adesão aos sindicatos.

É complicado conseguir que os trabalhadores precários se filiem…
RGM: Um dos grandes problemas é, de facto, conseguir que os trabalhadores precários adiram aos sindicatos, porque mudam de trabalho com frequência e até de sector de actividade. Há sindicatos a tentar resolver o problema. Em Itália, um sindicato criou a possibilidade de uma filiação territorial dos trabalhadores, que não depende do sector ou do trabalho em particular. É um conceito antigo que tem uma nova utilização. As três confederações italianas têm sindicatos separados para os trabalhadores temporários ou precários, mas que estão a voltar para os sindicatos-mãe, para não se criar uma espécie de gueto. No caso dos trabalhadores de limpeza dos caminhos-de-ferro holandeses, que estão no emprego um ano e depois eventualmente voltam para o seu país de origem, o ponto importante é que estes trabalhadores estão cobertos pela contratação colectiva. Quem quer que esteja a desempenhar aquele trabalho está protegido pela contratação colectiva. Isto é importante para mostrar que o papel dos sindicatos é representar os trabalhadores mais vulneráveis e os mais explorados.

RH: Esta ideia é particularmente importante porque em muitos países a ideia que passa é que os sindicatos servem para proteger os privilégios de um determinado número de trabalhadores.

Os trabalhadores mais jovens ou mais vulneráveis muitas vezes também não revêem no discurso dos sindicatos. Têm de mudar a forma passam a mensagem?
RGM: O sindicato alemão IG Metall [a maior organização sindical da Alemanha] fez uma campanha dirigida aos jovens aprendizes, cujos materiais foram desenvolvidos pelos seus membros mais jovens, o que foi muito inovador. Os filmes que fizeram eram muito apelativos e ganharam filiados entre os jovens trabalhadores.

RH: Outra parte da resposta prende-se com a utilização dos novos media e com o uso da web – há dez anos, os sites dos sindicatos eram arcaicos. Há dias estive em Bruxelas para avaliar a tese de doutoramento de um jovem sindicalista que desenvolveu uma aplicação que os trabalhadores precários ou por conta própria podem usar para se ligarem a outros trabalhadores nas mesmas condições, falarem sobre as condições de pagamento ou estabelecerem uma ligação com os sindicatos. Na maior parte dos países, os sindicatos têm sido lentos a adaptar-se a estas novas oportunidades, mas nos últimos anos têm avançado bastante.

Essas novas plataformas são uma forma de chegar aos trabalhadores, mas a mensagem não tem também que mudar?
RGM: Podemos usar as novas tecnologias, mas se mantivermos as ideias antigas e se as pessoas não souberem como comunicar, as novas tecnologias não vão ajudar. O ponto é que é preciso captar os jovens e as pessoas que têm novas ideias e envolvê-las nos sindicatos, só assim teremos mais dinamismo. Não se trata apenas de uma questão tecnológica, a mensagem e as campanhas têm de ser feitas com paixão.

A revolução tecnológica está a mudar a natureza do trabalho. É uma oportunidade ou uma ameaça?
RH: É as duas coisas. É claramente uma ameaça para os trabalhadores mais velhos que têm determinadas qualificações que agora podem ser obsoletas. Há quem diga que, dentro de 15 anos, 50% dos trabalhadores existentes terão perdido os seus empregos, outros são menos dramáticos… A resposta está na existência ou não de uma regulação social em relação à mudança tecnológica. 

RGM: Uma das maiores ameaças será para os trabalhadores com baixas qualificações. Cada vez mais os empregos vão requerer licenciados, competências interpessoais e conhecimento de línguas. Mas ao mesmo tempo, continuará a haver necessidade de trabalhadores dos serviços, da restauração, transportes públicos, cuidados de saúde.

Os governos estão a atacar o problema da maneira certa?
RH: Em alguns casos, os governos estão a acentuar o problema, porque as soluções, nomeadamente as políticas de austeridade, aumentaram o desemprego e a insegurança, e baixaram a qualidade do emprego. As instituições europeias e a maior parte dos governos nacionais aceitaram o diagnóstico e as receitas neoliberais.

RGM: Nada é inevitável. Podemos usar a tecnologia para apoiar as pessoas e para garantir a execução do trabalho mais monótono. Há desafios como o ambiente ou o envelhecimento da população, que exigirá mais prestação de cuidados às pessoas mais velhas que agora é um trabalho desvalorizado, muito mal pago e precário. Há muitas áreas para as quais a formação e o trabalho podem ser redireccionados.

O poder político está à margem destes desafios ou há sinais positivos?
RH: Parte do problema é o facto de os governos terem dificuldade em ser honestos e admitirem que não têm as respostas. Há problemas que exigem debate colectivo e imaginação. Num certo sentido a política tem de reconceptualizar os problemas e é preciso cidadãos activos que ajudem a delinear as políticas e a emergência de abordagens imaginativas e novas.

RGM: A crise nos sistemas políticos também tem o enorme risco de emergência da extrema-direita, como temos visto em alguns países. Pode ir numa direcção ou noutra, ou em ambas as direcções. Em França, assistimos à emergência do movimento em torno de [Emmanuel] Macron, embora ainda não saibamos exactamente o que significa. No Reino Unido, o voto a favor do Brexit, embora agora a maioria das pessoas admita que foi um erro, mostra a raiva contra a classe política e contra a maioria dos partidos políticos. Ora, essa energia pode ser encaminhada para uma direcção mais positiva.