Sociais-democratas decidem se querem repetir governo com Angela Merkel

Conversas entre conservadores, liberais e os Verdes falharam e Alemanha continua sem novo governo. A solução poderá estar no SPD , que já admite fazer uma nova coligação.

O líder do SPD, Martin Schulz, começou por dizer que não faria parte do governo
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O líder do SPD, Martin Schulz, começou por dizer que não faria parte do governo LUSA/FELIPE TRUEBA

Depois de terem sido humilhados nas eleições legislativas de Setembro, os sociais-democratas alemães têm agora uma palavra importante a dizer sobre o futuro do próximo governo do país. Na convenção que arranca esta quinta-feira, em Berlim, os membros do SPD vão decidir se querem que Martin Schulz continue a ser o seu líder, e se querem que ele os guie até uma nova grande coligação com os conservadores de Angela Merkel.

Esta decisão caiu no colo do SPD em finais do mês passado, depois de as negociações entre a CDU-CSU, os liberais do FDP e os Verdes terem falhado com estrondo. 

O líder dos liberais, Christian Lindner, preferiu ficar de fora de um governo e marcar a sua independência face aos conservadores de Angela Merkel, já que a aproximação entre os dois partidos, que levou o FDP ao governo entre 2009 e 2013, acabou por ser muito penalizadora nas urnas – quando voltou a ir a votos, em 2013, o FDP desceu de 14,6% para apenas 4,8% e ficou de fora do Bundestag (câmara baixa do Parlamento alemão) pela primeira vez.

Com o fim prematuro da chamada coligação Jamaica (assim baptizada por causa das cores dos partidos envolvidos), a CDU-CSU voltou-se para os sociais-democratas do SPD – afastada que está uma solução com pelo menos dois pequenos partidos, os conservadores só conseguem formar um governo maioritário com o SPD.

Só que o SPD também tem os seus próprios problemas de identidade, à semelhança do FDP. Apesar de serem de áreas políticas diferentes, nenhum dos dois quer continuar a ser visto como uma muleta dos conservadores – o FDP foi muito penalizado em 2013 pelos quatro anos em que esteve no governo com Angela Merkel e o SPD pode queixar-se do mesmo agora, depois de ter obtido o seu pior resultado de sempre em Setembro, ao fim de quatro anos no governo com Angela Merkel. Quando soube do resultado eleitoral, o líder do SPD, Martin Schulz, disse mesmo que não estaria disposto a formar uma coligação com a CDU-CSU, já que era essa a leitura que fazia da forma como os eleitores votaram.

Mas, entretanto, as negociações com os liberais e os Verdes falharam, e a maioria dos líderes europeus já deixou clara a sua preferência por um governo estável na Alemanha. E é por isso que todos os olhos estão agora postos num desejado arranque das negociações entre a CDU-CSU e o SPD.

E é isso que os sociais-democratas vão decidir esta quinta-feira: não a entrada num governo de coligação, nem um apoio parlamentar, mas sim se dão luz verde ao início das conversas com os conservadores. Se derem, ainda fica muito caminho por percorrer: as bancadas parlamentares da CDU-CSU e do SPD vão conversar; a direcção do SPD dirá depois se essa conversa foi positiva e se aprova a entrada no governo; e os militantes do SPD terão ainda de carimbar a vontade dos seus líderes – o vice-presidente do SPD, Ralf Stegner, disse ao jornal Welt am Sonntag que não haverá problemas se as negociações só começarem em Janeiro.

A travar o caminho para uma coligação está a memória dos resultados de Setembro, em que o SPD teve apenas 20,5% e em que a extrema-direita do Alternativa para a Alemanha passou a ser a terceira maior força política no Parlamento. Seja qual for a decisão do SPD, dificilmente haverá uma saída airosa para os sociais-democratas: se aceitarem entrar no governo, serão acusados de servirem mais uma vez de muleta a Angela Merkel; se se ficarem por um apoio parlamentar, serão acusados de contribuírem para a instabilidade governativa na Alemanha; e se recusarem ambas as soluções, serão acusados de provocarem eleições antecipadas, onde a extrema-direita poderá capitalizar ainda mais a ideia de que o país está a caminho de ser ingovernável.

Para além do problema de identidade e do recado dado pelos seus eleitores em Setembro, o SPD tem ainda de pesar os números das sondagens actuais entre o seu eleitorado: a maioria não quer ver o partido mais uma vez no governo com Angela Merkel, embora muitos tolerem a ideia de um apoio parlamentar.

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