Há 21 lições para aprender com Eduardo Marçal Grilo

A jornalista Dulce Neto juntou-se ao ex-ministro da Educação e ambos escreveram um livro que não é apenas de memórias pessoais, mas políticas.

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Dulce Neto foi editora de Educação do PÚBLICO quando Marçal Grilo era o ministro com a mesma pasta Rui Gaudêncio

Ao todo foram 40 horas de conversas gravadas e a leitura de quase cem diários pessoais que permitiram construir Quem só espera, nunca alcança, um livro feito a quatro mãos – entre a jornalista Dulce Neto (que foi directora-executiva do PÚBLICO) e o ex-administrador da Gulbenkian, Eduardo Marçal Grilo –, e que é para todos. Para os que ainda têm memória do Estado Novo e do PREC, mas também para as gerações mais novas porque há lições a aprender. Um livro em que o ex-ministro da Educação de António Guterres fala não só de política e políticos, mas também do futuro do país.

Este é um livro que mistura as memórias desde a infância em Castelo Branco, passando pelos conturbados anos de 1970, pelos corredores da 5 de Outubro, onde fica o Ministério da Educação, em Lisboa, e pelos do Parlamento – em que Marçal Grilo revela-se muito crítico em relação aos deputados, chama-lhes “badamecos” –, e pelos anos em que trabalhou no sector privado. É um livro “atípico”, classificou António Vitorino, durante a apresentação do mesmo, em Lisboa, no início desta semana. É-o porque é um livro de memórias, mas que não estão escritas cronologicamente, onde se mistura o ensaio e com muitos exemplos de que Grilo “é um humanista”. Há 21 lições para aprender que vão desde o “pensar por si próprio” a “ganhar mundo” ou a “ter valores” e “ser positivo”. “São lições de bom senso, de senso comum, que é um dos elementos mais raros da nossa vida pública”, considera o ex-comissário europeu, acrescentando, no final: "Estamos perante um livro que é um testemunho cívico. São as memórias de um cidadão exemplar."

Ao longo dos capítulos, Marçal Grilo vai fazendo críticas a figuras políticas e também aos partidos. Fala de uma “direita estúpida” e de uma “esquerda cega”. Critica “a rapaziada que vem da ‘esquerdofilia’ e agora nos quer dar lições de ‘economia de mercado’”. Recorda Durão Barroso que “vem agora criticar o que se passou depois do 25 de Abril nas nossas escolas, quando ele nesse período andava a destruir a Faculdade de Direito” de Lisboa.

Já recebeu reacções por parte de alguma dessas pessoas? “Não, só tenho tido reacções positivas”, responde ao PÚBLICO, em entrevista. Essas pessoas mudaram, é contra a mudança? “Não, só os burros é que não mudam”, acrescenta, lembrando uma das entradas do livro em que diz que o que o “irrita são aqueles, não todos, que mudaram (o que é compreensível porque todos mudamos ao longo da vida, só não mudam os burros) mas transportaram com eles o mesmo rancor que agora usam muitas vezes contra os seus antigos companheiros ideológicos”.

Marçal Grilo que actualmente é comentador na RTP – “estou a gostar muito”, confessa ao PÚBLICO – identifica três defeitos nos portugueses: “gostamos de nos autoflagelar”, “gostamos de estar mais do lado do problema do que da solução” e “somos invejosos”. O turismo, apesar de todas as críticas que ouvimos, trouxe-nos mais auto-estima, em que outras áreas o país deve apostar? “Devemos explorar o conhecimento acumulado nas universidades”, responde ao PÚBLICO. “O que nos falta é alguma capacidade de investimento em áreas estratégicas para as quais não há capital de risco. Não precisamos de 100, mas de 1000 ou 2000 startups em áreas em que os nossos compatriotas, sobretudo jovens dos 25 aos 35 anos, dêem largas à sua imaginação”, continua. Outra área de aposta é a do mar e da plataforma continental, enuncia.

No último capítulo, intitulado “sou uma pessoa banal” – Vitorino, durante a apresentação, refuta a ideia dizendo que “mesmo os grandes autores mentem, mas neste livro não há nada de banal. É um percurso muito particularmente singular” –, Marçal Grilo revela uma enorme preocupação com a geração dos netos, com aqueles que vão ter uma vida mais difícil do que tiveram os pais. Que conselhos dar a uma geração que está mais bem preparada que as anteriores, mas não tem as mesmas oportunidades? “Têm de ter consciência das dificuldades que vão encontrar. É muito importante estarem bem preparados, saberem coisas, somos muito fruto do nosso trabalho, do nosso esforço, da nossa dedicação”, conclui ao PÚBLICO. A última lição é: “Olhar para a frente.”