Reportagem

Salvar a aldeia do fogo e do esquecimento

Guida Marques regressou à aldeia da avó, na Serra do Açor, para recuperar uma casa da ruína. Em Outubro acabou a combater e a guardar o fogo dia e noite. A defender aquela que é agora a sua casa, na sua aldeia.

A avó Encarnação dizia-lhe sempre: "Tu és de Relvas." A neta não sabia se isso era bom ou mau. Guida Marques conhecia muito pouco dessa pequena aldeia no Interior de Portugal, concelho de Arganil, onde os pais não iam por questões familiares. Era uma espécie de aldeia-fascínio, proibida. Em 2007, a avó deixou-lhe a casa como herança, conhecida na aldeia como a casa da laranjeira. E com ela, mais uma crença: "Tu vais perceber, o teu futuro vai passar por aqui." Guida Marques, 31 anos, na altura ainda estudante de arquitectura em Coimbra, pensou na recuperação da casa como uma homenagem à avó Encarnação.

As obras arrancaram em 2013, preservando a construção típica da Serra do Açor: xisto, madeira, ardósia, argila. Guida Marques foi sempre fotografando o processo e fotografando-se a si própria dentro e fora da casa. O projecto de reconstrução acabaria por transformar-se também numa obra artística para o mestrado de Multimédia Performance/Instalação na Faculdade de Belas Artes, em Lisboa, onde a arquitecta ingressou em 2016.

Em As casas também morrem/O meu corpo é uma ruína, Guida recriou as diferentes fases de um projecto de arquitectura — ruína, demolição, construção e apropriação —  através do seu corpo, da videoarte e da performance. O espaço amplo e isolado do "campo da bola" da aldeia de Relvas tornou-se o estúdio ao ar livre da arquitecta. Mas agora a paisagem mudou. “Quando se tem uma relação forte com um lugar e ele muda, a nossa relação muda com ele. Como qualquer relação de amor”, conta ao PÚBLICO. O denso verde da floresta que a rodeava, no deserto campo da bola, está negro, despido.

Unir a aldeia para salvar a aldeia

Na aldeia de Relvas já se conhece o ciclo vicioso dos incêndios florestais. O último chegou no fim-de-semana de 7 e 8 de Outubro, uma semana antes daquele dia a que a Protecção Civil chamou “o pior dia do ano em matéria de incêndios”. “A nossa sorte no dia 15 de Outubro foi isto já estar queimado”, explica ao PÚBLICO José Costa, presidente da União de Freguesias de Cepos e Teixeira, onde Relvas se insere. “Foi uma catástrofe. Onde não estava queimado, o fogo seguiu para a zona de Pampilhosa."

José é um filho da terra, presidente de junta há mais de 20 anos. E é também mestre florestal: “A minha vida foi floresta sempre, até agora”, conta. Em 1987 ingressou na guarda florestal, numa altura em que os serviços florestais dinamizaram o emprego no Interior do país. O salário, no caso de José, era quatro vezes maior do que o que ganhava na restauração em Lisboa. Hoje chefia uma equipa de fiscalização florestal (caça, pesca, incêndios) nos concelhos de Tábua e Oliveira do Hospital.  

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José Costa quer mobilizar a aldeia para criar uma Zona de Intervenção Florestal.

“Todo o arvoredo que aqui estava, com 26 anos, já o vi nascer. Choca-me ver isto queimado. E nunca mais volta a estar como estava, a não ser que haja medidas de fundo. É difícil." O discurso de José ainda tem o peso da memória dos incêndios de Outubro. Esteve no terreno dia e noite, mobilizou os dois carros da junta para, com pequenos depósitos de água, acudir às situações mais urgentes. Ofereceu ajuda aos bombeiros para travar o incêndio longe das aldeias, mas esbarrou nas ordens de deixar arder até o fogo chegar às casas.

Numa união de freguesias com 234 eleitores e uma média de idades que ronda os 80 anos, José Costa diz que as causas para o que viveu estão identificadas há muito: “O problema estrutural é a desertificação, o abandono das florestas e o fim da agricultura como meio de subsistência. Havia paredes construídas para suportar as terras para a agricultura. Eram zonas-tampão, quebravam ali a floresta. Aliado a isso, toda a gente tinha rebanhos de cabras e ovelhas, o mato era cortado periodicamente para camas de gado, estrume para terras”, descreve. “Havia uma quebra de continuidade de combustíveis."

As últimas semanas têm sido passadas a identificar as necessidades das populações, depois dos incêndios daqueles dois fins-de-semana de Outubro. A rede fixa de telefone ainda não foi restabelecida. Em alguns locais da sede de freguesia, em Cepos, ainda não há iluminação pública. Houve danos em casas de segunda habitação, mas os maiores prejuízos foram nas áreas de cultivo, sobretudo de oliveiras, fonte de rendimento para muitas famílias.

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Ao mesmo tempo que fez o levantamento dos prejuízos casa a casa, José Costa tentou mobilizar a população para pôr em marcha uma ideia que gostaria de ter implementado há muito: uma Zona de Intervenção Florestal (ZIF). “Vamos fazer a faixa de 100 metros à volta das aldeias onde não é permitido plantar resinosas nem folhosas de rápido crescimento. Vamos tentar plantar castanheiro, nogueira, resistentes ao fogo. E manter aquela faixa limpa”, lista José. Para isso é preciso unir os proprietários de terrenos cuja área não ultrapassa um ou dois hectares. A ideia foi acatada, por unanimidade, numa reunião recente em que estiveram representadas todas as aldeias da freguesia, e na qual se discutiu também a hipótese de criar um rebanho de cabras comunitário que possa ajudar a controlar as zonas de mato.

Guida Marques tem participado activamente na mobilização de pessoas e ideias, para que o fogo possa trazer algo de positivo à aldeia: a mudança. “Como arquitecta tenho capacidade para ajudar na reorganização do território e consciencialização das pessoas”, explica ao PÚBLICO.

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Quando terminou a recuperação da casa da avó, começou a prolongar as estadias em Relvas. Hoje tem projectos de arquitectura nos concelhos de Arganil mas também na Papilhosa da Serra. Por agora, diz, os clientes vão ter de ser pacientes. “Eu sinto que é importante estar aqui e ajudar. Sinto quase maternalmente que tenho de proteger esta aldeia”, insiste.

Um “tenebroso manto negro de 25 mil hectares”

No fim-de-semana de 7 e 8 de Outubro, arderam cerca de quatro mil hectares no concelho de Arganil. No fim-de-semana seguinte, foram quase 21 mil. “Setenta e cinco por cento do concelho e 92% da área florestal do concelho, uma área brutal”, descreve o presidente da câmara, Luís Paulo Costa. “Um tenebroso manto negro de 25 mil hectares." Em 2017, metade da área ardida em Portugal resultou dos incêndios de Outubro. Coimbra foi o distrito mais afectado pelas chamas.

Em Arganil, apenas as propriedades sob gestão das empresas de celulose e as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) possuem planos de gestão florestal. “O valor de 2,78% de área florestal abrangida por planos de gestão não satisfaz, uma vez que a falta de gestão da restante área florestal é muito responsável pelas dimensões, por vezes gigantescas, que os incêndios assumem”, lê-se no Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios 2013-2017 de Arganil.

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“São necessárias medidas concretas para proteger as aldeias. Os fundos têm de chegar cá”, nota José Costa. “Se não conseguirmos alterar as dimensões da propriedade privada, por mais boas intenções que existam, não vamos ser bem sucedidos”, defende, por sua vez, Luís Paulo Costa, presidente da Câmara de Arganil.

Num país com a menor área de floresta pública — 2,4%, quando a média da União Europeia é de 40% — o presidente reclama mais apoio do governo central para o ordenamento da floresta e para combater outro combustível para os incêndios: o despovoamento. Para Luís Paulo Costa, não se pode desejar o regresso ao modelo que existiu na década de 60 e que obrigou à imigração. "É preciso uma decisão do Estado central de atrair pessoas para o mundo rural."