Metade do governo catalão destituído foi mandado para a prisão

Juíza ordena prisão efectiva enquanto decorre a investigação. Puigdemont mantém-se em Bruxelas e assume-se como "presidente legítimo". Milhares manifestam-se nas ruas de Barcelona contra "ditadura" e "prisões políticas".

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Os governantes catalães foram todos enviados para prisões diferentes Susana Vera/REUTERS

Oito membros do governo catalão que decretou a independência e foi destituído, incluindo o vice-presidente Oriol Junqueras, foram a Madrid responder perante a justiça e tiveram ordem de prisão preventiva. A juíza Carmen Lamela da Audiência Nacional considera existirem indícios de crime de rebelião, que pode ser punido com uma pena de prisão até 30 anos, e que há risco de fuga e de destruição de provas.

Mas o presidente do governo destituído, Carles Puigdemont, que foi também citado a comparecer a tribunal esta quinta-feira, mantém-se em Bruxelas. Garantiu que colaboraria com a justiça, mas não foi a Madrid. No Twitter, disse que “o govenro legítimo da Catalunha foi preso pelas suas ideias e por ter sido leal ao mandato aprovado pelo parlamento”, e gravou uma mensagem vídeo: “Enquanto presidente legítimo, exijo a libertação dos conselheiros e o fim da repressão política”.

O Ministério Público pediu à juíza Carmen Lamela um mandado europeu para a captura de Puigdemont, assim como para os quatro outros ministros destituídos que estão com ele na Bélgica. Todos estão a ser investigados por “rebelião, sedição [“agir publicamente e de forma tumultuosa” para “impedir, por força ou fora das vias legais, a aplicação de leis] e desvio de fundos [para a organização do referendo, por exemplo]”.

Os detidos (além de Junqueras,  Meritxell Borrás, Jordi Turull, Raul Romeva, Josep Rull, Carles Mundó, Joaquim Forn e Dolors Bassa) foram distribuídos por cinco estabelecimentos prisionais, nenhum dos quais é o mesmo em que estão já detidos preventivamente desde 16 de Outubro Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, presidentes das duas maiores associações independentistas, a Assembleia Nacional Catalã e a Òmnium, investigados por “sedição” por causa de uma manifestação.

“Não é justiça, é ditadura!”

Em Barcelona, milhares de pessoas manifestaram-se contra a prisão dos conselheiros destituídos. O parlamento catalão pode ter sido dissolvido mas continua a ser o cenário preferido para as manifestações independentistas. Afinal, foi ali que se aprovou a proclamação da república catalã, há uma semana. “Não é justiça, é ditadura!", gritavam os manifestantes. Ou então "Puigdemont, presidente", "Presos políticos" e "greve geral".

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Manifestação em Barcelona, junto ao parlamento JAVIER ETXEZARRETA/EPA

Iolanda ainda só consegue chorar. Ainda não começou a falar e já não consegue conter as lágrimas. Veio sozinha, estelada (bandeira independentista) atada ao pescoço. O que é que Iolanda tem para deitar para fora? "Raiva, muita raiva. Eu hoje subia para cima de tanques e olha que nunca tomaria um tanque", diz, enquanto morde os lábios e tenta parar de chorar. "Odeiam-nos, em Madrid odeiam-nos. O meu pai é das Astúrias, a minha mãe é de Albacete. Eles [Madrid] é que me fizeram independentista. E hoje até a minha mãe diz que se tiver de escolher é catalã."

Iolanda tem 53 anos, trabalha numa empresa com a delegação Ibérica em Lisboa e tem um chefe português. "Há umas semanas tive uma reunião em Madrid e os meus colegas perguntavam o que se passava, como se nós estivéssemos loucos. O mais compreensivo foi o português", diz. "Há muita desinformação".

Mulher de esquerda, eleitora da CUP (Candidatura de Unidade Popular), jura que nunca "votaria no PDeCAT", antiga Convergência de Artur Mas e Carles Puigdemont. "Mas hoje grito com todas as forças que Puigdemont é o meu presidente, o único que eu reconheço".

Iolanda não está zangada com Puigdemont por ele estar na Bélgica, enquanto quem ficou vai dormir na prisão. "O que a Justiça e o Estado decidiram prova que ele tem razão em tudo. Quando diz que não há garantia de um processo justo, de separação de poderes... Até quando pergunta a Mariano Rajoy se vão aceitar os resultados das eleições de Dezembro. Eles agora já admitem que se ganharem os independentistas podem continuar a controlar a Catalunha".

Os ministros catalães foram mandados para diferentes prisões espanholas. Só Santi Villa, que se demitiu antes de ser declarada a independência, poderá sair em liberdade, depois de pagar uma fiança de 50 mil euros. Até lá, foi enviado para a prisão também. A juíza considerou especialmente grave que os governantes, à excepção de Santi Villa, se tenham recusado responder às suas perguntas. Embora tenham o direito a permanecer calados, o seu silêncio pode ser valorizado para interpretar os factos, explica o jornal La Vanguardia.

A presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, falou de “um dia negro” e pediu “uma frente comum para pedir a liberdade para os presos políticos” no Twitter. Numa conferência de imprensa disse mais tarde: "Estamos perante um despropósito jurídico", que "não tem precedentes nas democracias europeias".

De Madrid, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, usou o mesmo termo: dizendo-se contra a independência da Catalunha, declarou no Twitter que tem “vergonha” que no seu país “se prendam opositores”, pedindo “liberdade para os presos políticos”.

O vice-presidente destituído reagiu no Twitter antes de ser levado para a prisão: “Façam em cada dia tudo o que esteja ao vosso alcance para que o bem derrote o mal nas urnas a 21 de Dezembro”, declarou Junqueras. “De pé, com determinação e até à vitória.”

Vítor Martin, 20 anos, Niel Mon, 21, e Ramon Giba, 42 anos, querem "tomar as ruas e exercer a República". "Há muitas coisas a fazer. Quem ainda não esteja organizado tem de se organizar, é preciso apostar tudo na campanha e vencer as eleições com uma maioria que não deixe dúvidas", defende o empresário Ramon. 

"As eleições são a chave, tem de ser 'sim' ou 'sim'. Para acabar com a desculpa deles, que não tínhamos chegado aos 50% em 2015", concorda Vítor, estudante de matemática. "E depois é preciso fazer o que não se fez a seguir à proclamação da república, é preciso tomar as ruas, aplicar a república, torná-la efectiva", afirma Niel, que estuda química. 

"Isso, controlar o espaço público e assumir o nosso próprio país", insiste Vítor. "Se tu não assumes o teu país como é que alguém te vai levar a sério?".

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