Mexer agora nas cinzas pode ser pior que os incêndios

Lá para Abril, a floresta queimada revelará a vida que esconde. Que se regenerará, podendo voltar a ser um barril de pólvora. Mas não são só as políticas florestais que podem defender vidas e bens. É descer das cadeiras de Lisboa para o território e trabalhar com as suas gentes.

Adriano Miranda
Foto
Adriano Miranda

O melhor agora é estar quieto. Cortem-se as árvores que estão em perigo de cair, usem-se troncos para fazer de mini barreiras nas encostas para conter as enxurradas e espere-se pela Primavera. Nessa altura, a vida rebentará. Com muitíssima força. O que é um risco, por causa das invasoras, e uma oportunidade para dirigir a floresta para onde a queremos. Mas tão ou mais importante do que planear a floresta que se deseja é saber para quem e com quem se faz essa reforma. Ou se olha o interior de outra forma ou tudo voltará a arder daqui a 15 anos.

“O simples processo de retirar os troncos queimados pode destruir mais que os incêndios”, alerta Francisco Moreira, e especialista em recuperação de áreas ardidas. O que é fundamental, por agora, é retirar as árvores que podem provocar acidentes, vender as que ainda têm valor económico e deixar estar as restantes. Com alguns troncos vão-se fazendo sucessivas barreiras pelas encostas abaixo para evitar a perda de solo e criar mini-habitats. Depois é esperar, explica o investigador do Instituto Superior de Agronomia e do CIBIO do Porto.

O eucalipto irá recuperar e os pinheiros, se estiverem em idade adulta, terão armazenado sementes que depois germinarão. As nativas estão também habituadas ao fogo – que sempre fez parte dos ecossistemas mediterrânicos. “Do ponto de vista ecológico, isto não é uma catástrofe, as plantas estão adaptadas ao fogo e a maioria vai regenerar. E o problema pode ser esse: após 2003 e 2005 houve um excesso de regeneração, criou-se um matagal contínuo".

"O que importa é saber o que queremos e fazer uma regeneração natural assistida, controlando umas espécies e potenciando outras”, acrescenta Moreira. Mas a informação para isto ser feito só chega na Primavera. “No sub-bosque dos pinhais e dos eucaliptais estão árvores nativas que só descobriremos quando voltarem a rebentar. Por isso é má ideia ir tudo raso. Fizemos essa experiência em Mafra no pós-fogo: comparámos o sucesso de uma reflorestação com carvalhos de viveiro com aqueles que já lá estavam. Estes últimos sobreviveram mais e cresceram três vezes mais depressa que os de viveiro”, acrescentou o investigador.

Aguarde-se então mas há um perigo imenso à espreita: as espécies exóticas, isto é, as acácias (mimosas) e as haqueas. Adoram fogo, competem com as espécies nativas, ganham sempre e são difíceis de erradicar. “É usar o fogo controlado quando começam a germinar”, sugere Francisco Moreira. Servi-las como repasto a cabras pode ser outra resposta.

Joaquim Sande Silva, da Escola Superior Agrária de Coimbra, também sublinha a importância de a primeira prioridade ser o controlo da erosão, evitando os escoamentos superficiais que contaminam as águas e geram enxurradas. Mas como é que se faz isto, “com que dinheiro e como é que se actua na propriedade privada”, questiona.

Aqui é o problema é mais político, assegura: “Os proprietários estão agora mais receptivos a entregarem a gestão dos seus terrenos, fizemos um inquérito em Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) e 80% aceitavam essa solução mas em Lisboa estão todos convencidos que não”.

Tem de se ir por essa via, um caminho mil vezes defendido – a entrega dos direitos de gestão às ZIF, que funcionam como um condomínio. “Mas o que foi aprovado no pacote da reforma da floresta de Agosto diz que a implementação do plano gestão é responsabilidade dos proprietários, isto é, mata tudo à partida pois esta deveria ser uma competência da entidade gestora”, critica.

Um problema também agrícola e urbano

“Uma coisa sabemos: agora temos 15 anos até que estas zonas estejam novamente em condições de arder mas não nos podemos esquecer de quem realmente manda: o clima. Vai continuar a arder, isso é certo, mas o que interessa é que não faça vítimas nem grandes estragos”, advoga Francisco Moreira. Dado o abandono do interior, a intervenção na floresta tem de ser cirúrgica, nos locais certos.

Mas a resposta não está só na floresta, está também na agricultura, nas políticas urbanas e de coesão territorial. “Antes as aldeias eram defendidas por uma cintura agrícola que agora desapareceu. Tem de haver uma política agrícola orientada para defender os agregados populacionais”, acrescenta. Dado o flagelo, defende que a Política Agrícola Comum, no Sul da Europa, seja dirigida para este problema. “A agricultura produz paisagem, ecossistemas que reduzem riscos como incêndios ou cheias, e há dinheiro disponível que pode ser entregue aos agricultores para fazerem pastagens ou pomares, por exemplo, à volta de aldeia”. Uma questão de prioridades.

Mas isto não basta. “Estamos a reformar tudo com quem? E para quem?”, questiona Helena Freitas, que liderou a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. “Nada se conseguirá fazer sem nos apoiarmos nas estruturas que existem no território, sejam públicas sejam organizações de produtores florestais, Associações de Desenvolvimento Local, etc. Temos de encontrar entidades que nos conseguem aproximar dos territórios e elaborar programas que envolvam as comunidades”, defende.

A sua experiência na Unidade de Missão diz-lhe, porém, que essa não foi nem é prioridade. O investimento privado no interior é uma gota no oceano e o do Estado raro e pouco eficaz, não há descentralização dos serviços centrais e não se geram condições para cativar os mais novos. No seu lugar, surgirão e vencerão os matos.

“Tinha de se recuperar o programa Leader [que apoiava associações de desenvolvimento local], redirigir as verbas para a reabilitação urbana - que hoje são despejadas em catadupa nas cidades - para as aldeias de forma a torná-las locais seguros onde os habitantes se podem refugiar dos incêndios, criar uma rede wi-fi e fibra óptica que as coloque no mundo, enfim, há investimento simples e cirúrgicos” que poderiam pelo menos estancar este processo de desertificação humana, sublinha.