João Pinto Coelho é o vencedor do Prémio Leya

Depois de ter sido finalista em 2014, com Perguntem a Sarah Gross, o escritor recebe a distinção pelo romance Os Loucos da Rua Mazur. O regresso ao mal, com actores inusitados.

João Pinto Coelho fotografado em Auschwitz, cenário do seu anterior romance
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João Pinto Coelho fotografado em Auschwitz, cenário do seu anterior romance RUI GAUDÊNCIO

Um leitor a quem a escrita aconteceu por acaso, como reacção à leitura: é assim que João Pinto Coelho (Londres, 1967), esta manhã anunciado vencedor da edição 2017 do Prémio Leya com o livro Os Loucos da Rua Mazur, se situa na literatura. Autor do romance Perguntem a Sarah Gross (D. Quixote, 2015), que fora já finalista ao prémio na edição de 2014, revelou-se agora o eleito do júri presidido por Manuel Alegre com um livro que continua a interpelar o mal. “Quando acabei o Sarah Gross tinha muito presente na cabeça a ideia da universalidade do mal. Precisei de distribuir o mal por outras aldeias, pelos actores improváveis. E neste romance os actores do mal são os mais improváveis: os bons cristãos que conviveram durante séculos com os vizinhos judeus numa pequena comunidade da Polónia e conseguem ser tao bárbaros quanto os nazis”, explicou João Pinto Coelho ao PÚBLICO pouco após o anúncio, ainda não refeito da surpresa e da “felicidade” de se saber vencedor deste prémio que distingue originais em língua portuguesa.

Os Loucos da Rua Mazur é um romance bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos, um no passado imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial e no início desta, e o outro no mundo actual. Não cede ao facilitismo do romance histórico, embora a História seja parte da acção e nos apresente uma visão inédita da tragédia resultante das invasões russa e nazi da Polónia”, referiu Manuel Alegre na conferência de imprensa que anunciou o romance de João Pinto Coelho como o escolhido entre um total de 409 originais a concurso (nove dos quais desclassificados).

A decisão, como o próprio Manuel Alegre sublinhou, baseou-se “numa prova cega” em que os jurados não conhecem a identidade dos autores a concurso. Na sua declaração, o júri destaca ainda “as qualidades de efabulação e verosimilhança em episódios de violência brutal com motivações ideológico-políticas e étnico-religiosas, emergindo do fundo de uma convivência comunitária multi-secular”. Ao PÚBLICO, Manuel Alegre elogiou a “qualidade literária” do romance, acrescentando que este se passa “num fundo de guerra mas não cai nos estereótipos do romance histórico", escolhendo retirar-se dos campos de concentração e da frente de batalha: "É a história de uma comunidade polaca, religiosamente diferente, mas que convive entre si. Primeiro sofre a invasão soviética e depois a nazi. E tudo se passa ali, nesse meio fechado. E a grande crueldade, a grande violência, é cometida por uma parte da comunidade sobre a outra que, entretanto, é desestruturada pelos episódios da guerra.”

Finalista em 2014, João Pinto Coelho voltou a concorrer ao Prémio Leya por uma questão de calendário. “Tinha o livro terminado no início do ano”, conta, especificando que desta vez não demorou quatro anos, como no anterior, mas “uns 11 meses mais o tempo de revisão”. A expectativa agora, confessa, é o teste dos leitores: "E depois não sei, nem sei se vou continuar neste caminho da literatura. Tudo isto me aconteceu tão por acaso. Até aos 43 anos nunca escrevi nada, nem um poema. Lia, só lia. Mas estou a gostar desta experiência que a ficção me dá de viver duas vidas ao mesmo tempo”, diz o escritor de 50 anos nascido em Londres, educado entre Lisboa e os Estados Unidos, formado em Arquitectura, e actualmente a viver em Trás-os-Montes. 

Os Loucos da Rua Mazur sucede assim a O Coro dos Defuntos, de António Tavares, o vencedor de 2015. No ano passado, este prémio no valor de cem mil euros não foi atribuído, uma vez que o júri, de que fazem parte ainda os escritores Nuno Júdice, Pepetela e José Castello e os professores José Carlos Seabra Pereira, Lourenço do Rosário e Rita Chaves, considerou que nenhum dos romances a concurso reunia suficiente qualidade. Desta vez, faz ainda uma recomendação de edição à margem do romance premiado, cuja publicação com a chancela do grupo Leya está salvaguardada: O Testamento de José de Nazaré, do brasileiro Ivan José de Azevedo Fontes.

Ainda sem data de publicação, Os Loucos da Rua Mazur deverá estar nas livrarias ainda antes do Natal. É essa pelo menos a expectativa de Maria do Rosário Pedreira, a editora de João Pinto Coelho, que sabia que o seu autor tinha concorrido ao prémio mas não leu ainda o livro. “Estou muito curiosa”, confessa. “Ele já tinha sido finalista com um livro que depois teve imenso sucesso e que até hoje não parou de se vender. É um autor que está muito próximo do público, é muito universal, que escreve muito no estilo anglo-saxónico e que penso que até tem grandes hipóteses de ser traduzido noutros países. Isso [ainda] não aconteceu, mas penso que este prémio também pode ajudar alguns editores estrangeiros que estavam indecisos, que não sabiam se ele iria continuar. Quanto ao livro, vamos agora lê-lo e ver se é tão bom ou melhor do que o outro.”

Instituído em 2008, o prémio Leya distinguiu até agora nove romances. Além deste Os Loucos da Rua Mazur, foram premiados O Rasto do Jaguar, de Murilo Carvalho (2008), O Olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho (2009), O Teu Rosto Será o Ultimo, de João Ricardo Pedro (2011), Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro (2012), Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade (2013), O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral (2014), e O Coro dos Defuntos, de António Tavares (2015). Ou seja: sete autores portugueses, um brasileiro e um moçambicano (houve dois anos em branco, 2010 e 2016). João Pinto Coelho confessa que não os leu todos, mas o seu preferido entre os vencedores é o livro de João Ricardo Pedro.     

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