Entrevista

"Pedro Passos Coelho em alguns momentos falou de mais"

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

Daniel Bessa escreveu uma carta a Pedro Passos Coelho agradecendo-lhe o seu mandato no Governo. “Ninguém na minha vida governou numa situação tão difícil”, explica. Sobre o futuro do PSD, elogia Rio, mas diz que “a caricatura maior que tem de combater é a de que quer ser o número dois de António Costa”. Para isso, diz, “já há Catarina Martins e Jerónimo e Sousa”.

O que espera da nova liderança do PSD? A herança mais liberal de Pedro Passos Coelho parece estar comprometida?
Eu não sei quem vai ganhar, não faço ideia. Há no PSD muita gente que não quer Rui Rio. Fiquei surpreendido, mas a vida é o que é. É preciso alguém que se lhe oponha, quase que não interessa quem – Luis Montenegro, Paulo Rangel. Zero de programa, nesta discussão.

Mas não conhecemos ainda o programa de Rui Rio
Talvez fizesse algum sentido que as pessoas antes de estarem com essa preocupação esperassem um bocado. O que vejo é uma recusa da pessoa, não sei bem porquê. Acho isso um bocadinho primário.

Não será porque, pelo que se conhece de Rui Rio, haja receios de que ele coloque o PSD mais ao centro?
Há uma questão que acho muito importante e esse é um grande tema político que é a ideia que se criou de uma relação privilegiada com António Costa.

Ou seja, a iminência de um Bloco Central?
Eu penso que em determinados momentos o Bloco Central pode ser necessário. Portugal teve um Bloco Central quando se apresentou perante a troika. Fomos lá dizer que estávamos todos de acordo, com excepção do Bloco e do PCP. Em certos momentos isso é necessário. Em condições mais normais, como as actuais, não me parece que isso seja positivo. O facto de Rui Rio ter uma boa relação com António Costa pode querer dizer que ele está mais disponível para os ditos acordos de regime. A caricatura maior que Rui Rio tem de combater é a de que quer ser o número dois de António Costa. Para isso já há Catarina Martins e Jerónimo e Sousa. É um espaço já muito ocupado.

Portanto está convencido que uma vitória de Rui Rio será bom para o futuro da política portuguesa?
Sabe, isso parece que estou aqui já a pôr uma ficha qualquer num futuro qualquer.

Não era essa a intenção…
Eu sei, eu sei. Eu não disse nada a Passos Coelho quando ele chegou lá. E senti-me na obrigação de lhe dizer alguma coisa na semana passada, quando se foi embora.

O que lhe disse?
Disse-lhe, enfim, não vou dizer tudo, até porque há elementos pessoais, mas disse-lhe que estava agradecido. Ninguém na minha vida governou numa situação tão difícil. Vi-o na televisão, a dizer que era o fim de um ciclo, ninguém me obrigava a isso, ele não estaria à espera de coisa nenhuma e eu senti-me na obrigação de dizer àquele senhor que lhe estava agradecido. Houve muita gente a dizê-lo e alguns ainda não dizem mas dizem que um dia destes vai ser dito. Eu acho é que Pedro Passos Coelho em alguns momentos falou de mais.

Quando disse por exemplo que queria ir além da troika?
Esse é o momento fatal. É ingénuo. Ou jactante.

Mas é só isso ou não havia ali uma vontade de acreditar na destruição criativa ou nas teorias da austeridade expansionista?
Seria ele um neoliberal? Por exemplo, o tema dos feriados. Eu acho que Portugal tem feriados a mais. Acho tão normal partilhar os lucros como factor de mobilização como trabalhar ao sábado sem suplemento de remuneração como, em caso de necessidade, trabalhar mais quatro dias por ano. Mas há mais. O não a Ricardo Salgado foi Passos Coelho que disse e estou agradecido por isso, acho que foi preciso uma coragem enorme. A forma como geriu a crise Paulo Portas é uma coisa admirável. Isso nós devemos-lhe. Acho que, no essencial das medidas que tomou, houve uma preocupação de não agredir muito os mais pobres. O salário mínimo não foi mexido. Os impostos sobre as classes mais baixas não subiram. Houve uma preocupação de os tentar defender. Vi aumentar os impostos sobre os ricos. Se Passos é neoliberal o que vou dizer de Trump, que vai descer os impostos sobre os ricos? Vi, isso sim, o que hoje se consideraria uma enorme falta de habilidade porque há gente a fazer o mesmo dizendo outra coisa. E portanto desse ponto de vista, esse pecado ele tem.

Rio, Rangel ou Montenegro seriam uma boa solução. Mas não mencionou Santana Lopes. Será um lapso?
Não, Santana Lopes tem uma experiência de governo que eu acho que não correu bem. É por isso que não o refiro. Acho que Jorge Sampaio fez muito bem no momento em que o nomeou primeiro-ministro e também fez muito bem no momento em que acabou com aquela solução governativa.

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