Peritos dizem que diferente actuação da Protecção Civil poderia ter evitado mortes

Comissão independente considera que se a população tivesse sido sensibilizada ou aldeias evacuadas, "provavelmente" as mortes "não teriam acontecido". Ficou "impossível tomar conta do incêndio" a partir de meio da tarde.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

Quase três meses depois e num relatório de quase 300 páginas, os técnicos independentes que analisaram o incêndio de Pedrógão Grande consideram que houve falhas no momento inicial do incêndio, o que dificultou a actuação posterior e a retirada de pessoas. Diz a comissão, que se as populações tivessem sido sensibilizadas, "provavelmente os dramas que aconteceram, não tinham acontecido". Os técnicos consideram que depois de meio da tarde se tornou "impossível tomar conta do incêndio" e que foi nesse período de tempo que morreram as pessoas. 

Aos jornalistas, o presidente da comissão independente, João Guerreiro, explicou que a comissão chegou à conclusão de que houve falhas da responsabilidade do comando da Protecção Civil, que à hora era liderado pelo comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnault, sendo apenas substituído no comando pelo segundo comandante dostrital de Leiria, Mário Cerol, às 19h55. Falhas por não ter havido uma capacidade de informar as pessoas para poder evacuar aldeias e de não terem sido dadas instruções para que ou fossem retiradas ou permanecessem nas habitações.

"Poderia ter havido antecipação de medidas no momento imediatamente a seguir ao espoletar do incêndio. Mas o incêndio reuniu condições excepcionais de meteorologia e de comportamento da atmosfera nesse momento, a partir das 17h, 18h, que gerou impossibilidade de atacar o próprio incêndio", disse o coordenador do grupo de peritos.

"As medidas que deveriam ter sido tomadas, e da responsabilidade do comando, poderiam ter moderado o efeito do incêndio, designadamente levando à retirada das pessoas das aldeias", explicou João Guerreiro.

Para o perito, "se houvesse um sistema de sensibilização e se o comando entre as 15h e as 16h pudesse ter tido uma actuação no sentido de sensibilizar a população e de dar instruções de evacuação ou pelo menos de se meterem nas casas e de não saírem, provavelmente os dramas que aconteceram, não tinham acontecido", defendeu.

Contudo, frisou o coordenador, o incêndio teve características únicas em termos meteorológicos, provocando um descontrolo no combate ao incêndio e levando à morte das 64 pessoas. Questionado sobre se houve falhas no momento posterior, quando aconteceram as mortes, João Guerreiro explicou que "a partir de certa altura era impossível tomar conta do incêndio. Há indicações de que numa hora o número de hectares ardidos é uma coisa completamente fora do usual.  Houve condições atmosféricas que convergiram para essa hora que foram susceptíveis de criar isso", conta. "No espaço de uma hora a área ardida é impressionante e é nessa hora que morrem quase todas as pessoas", explica.

Garantiu ainda que não houve mortes que tenham resultado do encaminhamento da GNR para a Estrada Nacional 236-1.

No sumário distribuído aos jornalistas, os peritos escrevem que "a insuficiente prontidão dos meios de pré-supressão e combate face às condições meteorológicas e a consequente resposta desajustada face à ocorrência estão na génesa da tragédia". Antes, no mesmo documento que acompanha o relatório, os peritos começam por dizer que as "características do incêndio" aliado às "previsões meteorológicas existentes não anteviam o seu domínio rápido". "Assim, doponto de vista da eficácia das operações de controlo do incêndio, são pouco relevantes as deficiências identificadas no comando e gestão da operação de socorro,incluindo as dificuldades de comunicação. Pelo contrário, as opções táticas e estratégicas que foram tomadas não são alheias às consequências catastróficas do evento", lê-se. Esta era uma das questões mais importantes uma vez que num momento inicial, foram remetidas responsabilidades para as comunicações da rede de emergência nacional, o SIRESP.

A comissão de 12 independentes trabalhou durante os últimos três meses na elaboração do relatório sobre o que aconteceu no grande incêndio de Pedrógão Grande e também na elaboração de algumas recomendações para futuro. Em Agosto, o presidente da comissão contava ao PÚBLICO que parte do seu trabalho passaria por fazer algumas recomendações sobre reforma florestal.

Além deste relatório, faltam ainda conhecer alguns dados sobre os inquéritos internos da Autoridade Nacional de Protecção Civil e o estudo científico sobre o comportamento do incêndio da autoria do professor Xavier Viegas.

Nota: artigo corrigido às 18h38. Por lapso era identificado Mário Cerol, segundo comandante de Leiria, como sendo o comandante no comando das operações no período descrito. Até às 19h55, foi o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnault a assumir o comando das operações.