Eles carregaram a independência até aqui

Puseram o independentismo catalão na agenda política de Espanha. Agora, esperam que os políticos cumpram a palavra. A prova é já hoje, quando Puigdemont for ao parlamento. Para declarar independência?

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Jordi Cuixart, presidente da Òminum, e Jordi Sanchez, presidente da Assembleia Nacional Catalã VICTOR LERENA/EPA

Muitas vezes descritas como “braço armado do governo”, a verdade é que sem elas nenhum partido catalão teria assumido o independentismo como projecto de curto prazo. Uma nasceu durante o franquismo, a outra no início da década passada. Aconteça o que acontecer esta terça-feira no parlamento catalão, a Òmnium e a Assembleia Nacional Catalã (ANC) vão continuar a existir – e, para uma boa parte dos independentistas catalães, são elas os seus legítimos representantes.

“Nós só temos poder enquanto formos capazes de ler o que uma parte da sociedade quer”, diz Adrià Alsina, responsável de imprensa da ANC. “Temos uma base territorial ampla e há muita gente que confia em nós. Por causa disso, os partidos aceitam-nos como facilitadores. Mas somos um lobby, sem legitimidade a não ser aquela que uma parte da sociedade e dos partidos nos dá”.

Alsina tem outro apelido, Leal, e para além de (ainda) espanhol é português, filho de mãe portuguesa. “Na verdade, acho que só deixei de me sentir espanhol na semana passada, quando o Estado mandou a polícia bater nas pessoas [no referendo de 1 de Outubro, suspenso pela Justiça] e depois, ao ouvir o discurso do rei”. Mas foi há três anos que voltou à sua cidade, depois de trabalhar como jornalista e consultor em São Paulo ou Washington, “por acreditar que em Barcelona estava a acontecer algo que não se passava em mais lado nenhum”.

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A polícia reprimiu com violência os catalães que tentaram votar no referendo considerado ilegal de 1 de Outubro Alberto Estevez/EPA

Para Alsina, “o futuro da Europa joga-se aqui”. Aqui, em Barcelona, onde “se verá se um grande Estado europeu ocidental pode reprimir uma parte da população e acabar com um movimento de bases tão poderoso sem sofrer consequências”. Aqui, no independentismo como a ANC o vê, “sem fronteiras, mas uma delimitação clara das responsabilidades de Bruxelas ou Barcelona”. Num nacionalismo que acredita “numa Europa das cidades como lugares de comércio, intercâmbio de ideias e abertura” face à “Europa dos impérios e dos movimentos populistas, que usam o nacionalismo de Estado para justificar o medo”, como o Brexit ou a extrema-direita de Marine Le Pen.

Alsina chegou à ANC em 2014. Oficialmente, a organização nasceu dois anos antes. Mas as suas origens estão um pouco mais atrás, na vaga de consultas populares de 2009. “Foi o momento em que pessoas de lugares pequenos perceberam que podiam unir-se em redor de algo muito concreto. Um objectivo em que o comunista, o anarquista, o padre ou gente da Convergência [actual Partido Democrata Europeu Catalão, nacionalistas de direita] estavam de acordo”, descreve. “Para além do sucesso das consultas, foi a prova de que as pessoas podiam fazer coisas juntas”.

Entretanto, houve quatro senhores que pensaram que era possível pôr esta gente toda a conversar, de Arenys de Munts (lugar da primeira consulta, a 13 de Setembro de 2009) a L´Hospitalet, de Mataró a Barcelona (onde se realizou a última de 554 consultas).

Uma faísca

“O que nós queríamos era deitar uma faísca no associativismo catalão, pô-lo em movimento”, explicou há dias Miquel Selláres, um dos fundadores, citado pelo El Confidencial. “Vivíamos um momento de grande desprestígio das forças políticas, com uma juventude desiludida e uma população desencantada. Muitos viram a Assembleia como o sítio perfeito para se reunirem.”

Tal como Selláres, nenhum dos fundadores faz hoje parte da direcção. São quatro sócios entre os 40 mil que pagam a quota de cinco euros por mês, numa associação que tem 80 mil membros.

A ANC queria a independência e queria-a quanto antes. A primeira prova de força aconteceu em 2012. “Durante o Verão organizaram-se encontros em todo o país sem ninguém saber muito bem o que ia acontecer.” O resultado foi a Diada, a 11 de Setembro (dia nacional catalão, que assinala a integração definitiva em Espanha, em 1714), com 1,5 a 2 milhões de pessoas numa manifestação sob o lema “Catalunha, o novo Estado da Europa”.

De um dia para o outro, a ANC torna-se “um dos grandes actores políticos, ganha espaço e faz do ‘direito a decidir’ a questão central da política catalã”. Artur Mas, então líder da Generalitat (Convergência), recebe a presidente da ANC Carme Forcadell (hoje presidente do parlamento autonómico) e pouco depois marca eleições. E assim, o referendo sobre a independência surge no programa de um partido que nunca tinha sido assumidamente independentista.

O resto é a história dos últimos anos e das últimas semanas. Artur Mas quis organizar o referendo, a Justiça declarou-o ilegal e o governo passou a organização oficial para as associações. Assim se cruzaram os caminhos da ANC com os da Òmnium Cultural, associação de defesa e promoção da língua catalã nascida em 1961. “Eram as duas únicas organizações com capacidade financeira e recursos para pôr em marcha uma campanha”, diz Alsina.

Catalanismo e burguesia

Hoje, explica Alsina, as duas associações “coordenam-se” mas já não funcionam em equipa. “Cada uma faz o que sabe fazer melhor, mesmo se em público aparecem juntas”. Ou juntos, se pensarmos nos actuais líderes: Jordi Sànchez (ANC) e Jordi Cuixart (Òmnium), ambos investigados por “sedição” (Alsina também tem o nome nesse processo) por causa da mobilização popular de dia 20 de Setembro, junto ao Departamento de Finanças da Generalitat, onde agentes da Guardia Civil estiveram horas encurralados.

Como os fundadores da ANC, os cinco homens na origem da Òmnium estavam unidos pelo seu catalanismo. Joan Baptista Cendrós, que transformou a barbearia dos pais numa empresa milionária por causa de um after shave; os empresários Fèlix Millet i Marista e Lluís Carulla; Joan Vallvé, em cuja fábrica eram cunhadas pesetas; e o industrial Pau Riera, que herdara da mãe um império têxtil, eram mecenas decididos a pensar para lá da ditadura.

Nesses anos, a cultura era a única área onde se podia respirar democracia. E "era óbvio que, quando houvesse democracia, o catalão ia reaparecer no espaço público, era preciso começar a preparar o terreno”, disse ao PÚBLICO em 2012 Muriel Casals, então presidente da Òmnium (morreu em 2015, com 70 anos).

Num artigo recente, o jornal El País explora o poder desta burguesia e a forma como soube, em diferentes momentos, impor a sua vontade à dos políticos. “É impossível olhar para o processo soberanista sem nos determos na implantação e poder de convocatória da Òmnium, que após um período de irrelevância, encontrou uma bengala na outra grande plataforma civil, a ANC”, escreve o diário.

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Carme Forcadell, ex-presidente da Assembleia Nacional da Catalunha, é hoje presidente do parlamento catalão Yves Herman/REUTERS

Juntos pelo Sim

Jordi Cuixart tem um estilo diferente de Muriel Casals, professora de Economia e História Económica nascida em França, formada na resistência ao franquismo. Cuixart nasceu em Barcelona no ano da morte de Franco (1975). Filho de um operário catalão e de uma talhante de Múrcia, decidiu fundar a sua empresa aos 29 anos e teve sucesso.

Alguma imprensa pró-Espanha descreve Cuixart e Sànchez como “duo dinâmico” ou “dupla de agitadores”. Sànchez, de 53 anos, ensinou em várias universidades e foi líder e porta-voz da Crida a la Solidaritat (Apelo à Solidariedade), que nos anos de 1980 agregava a luta pela “língua, cultural e nação catalãs”. Chegou à presidência da ANC em 2015, apoiado por Forcadell.

Forcadell e Casals promoveram a formação da coligação Juntos pelo Sim, unindo a direita nacionalista do actual PDCAT e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) a uma série de independentes, com o referendo e a declaração de independência no programa.

Agora, Forcadell faz a sua luta no estrado do parlamento. É lá que estará terça-feira, à espera de ouvir o presidente do governo, Carles Puigdemont, declarar a independência. “Não temos motivos para acreditar que não o faça, é o compromisso que assumiu”, diz Alsina. Na rua, junto ao parlamento, vai estar Sànchez. Acompanhado pelo outro Jordi e seguramente por muito mais gente, depois do apelo à mobilização cidadã.