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A razão para Suzanne Cotter deixar Serralves é um convite irrecusável

Directora do Museu de Arte Contemporânea do Porto sai no final do ano. O seu sucessor no cargo será escolhido por concurso internacional.

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Suzanne Cotter chegou a Serralves em 2013 Nelson Garrido

Só nas próximas semanas é que se saberá por que outro cargo Suzanne Cotter trocou a direcção do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, mas a directora que chegou há cinco anos ao Porto sai no final do ano porque recebeu um convite irrecusável. Foi uma decisão “muito difícil”, diz Suzanne Cotter ao PÚBLICO, mas o convite, que ainda não pode revelar, vai "expandir" a sua carreira profissional.

A Fundação de Serralves anunciou na quinta-feira à noite que vai lançar um concurso internacional para escolher o novo nome para o cargo, repetindo o procedimento que resultou na selecção de Cotter para substituir João Fernandes, actual subdirector do Museu Nacional Rainha Sofia, em Madrid.

“Tenho outros projectos que me foram apresentados”, avançou Suzanne Cotter numa conversa com o PÚBLICO esta sexta-feira. A curadora, que tem nacionalidade britânica e australiana (nasceu em Melbourne), trabalhava em Nova Iorque no projecto do Museu Guggenheim Abu Dhabi, cuja abertura foi sendo sucessivamente adiada, antes de chegar ao Porto em 2013.

“Não posso ainda falar da proposta, mas talvez seja anunciada nos próximos 15 dias. Também é uma surpresa para mim, porque tive uns tempos fantásticos de trabalho aqui”, explica Cotter quando interrogada sobre as razões que a levaram a não renovar o contrato com Serralves por outros cinco anos. “Cinco anos na minha cabeça sempre foram um momento de avaliação.”

Suzanne Cotter traçou objectivos quando chegou a Portugal e diz que cinco anos depois o país e Serralves estão num momento muito diferente. “Mudou muita coisa em Portugal desde que cheguei e gosto de pensar que contribuí para o desenvolvimento do museu e para o seu sucesso. Há muitas coisas positivas a acontecer em Portugal, como o turismo, e tudo isso faz com que me seja muito difícil partir. Não é uma decisão que tenha tomado de ânimo leve e tenho estado a discuti-la com a administração.”

Suzanne Cotter, diz o comunicado enviado às redacções, manterá uma ligação à Fundação de Serralves ao longo dos primeiros meses de 2018, acompanhando a implementação da programação do museu, que passará brevemente por momentos importantes, como a instalação e dinamização da Colecção Miró e a abertura da Casa de Cinema Manoel de Oliveira. “Há um desejo de continuarmos a trabalhar juntos”, acrescenta Cotter, “e um sentimento mútuo de optimismo em relação ao futuro".

Suzanne Cotter teve em Serralves o seu primeiro cargo de direcção. “Já tive outros cargos de assistência de direcção e de liderança, mas este é o meu primeiro cargo de directora. Sinto que já atingi muito [aqui] e é tempo de fazer outras coisas.” Quanto ao futuro, nada mais adianta, evitando apontar geografias ou esclarecer se se trata de um cargo numa instituição museológica. “Não posso mesmo dizer. Só que é alguma coisa que vai expandir a minha carreira profissional.”

Serralves no mundo

Fazendo o balanço do seu mandato em Serralves, Suzanne Cotter acredita que voltou a “pôr o museu no mapa internacional”, com exposições como a da artista iraniana Monir Shahroudy Farmanfarmaian, que foi de Serralves para o Guggenheim de Nova Iorque, ou a da artista portuguesa Helena Almeida, que foi do Porto para o Jeu de Paume, em Paris, e para o WIELS, em Bruxelas, ou o estabelecimento de parcerias com o Centro Canadiano de Arquitectura ou a Bienal de São Paulo, entre outras. “Toda a gente fala de Serralves e os artistas querem trabalhar connosco. Dei-lhe uma maior visibilidade internacional ao ser capaz de colaborar e conseguir que as exposições circulem pelo mundo.”

Outro objectivo cumprido, na sua perspectiva, foi conseguir profissionalizar a infraestrutura do museu. “Demos à colecção um papel central no museu, tornando-a constantemente presente. Nomeámos um gestor para a colecção e repensámos a maneira de trabalhar com ela. Introduzimos mais investigação, expressando isso em trabalhos publicados e em exposições.” O gestor da colecção, Filipe Duarte, entrou no ano passado.

Trazer a arquitectura para o programa do museu, permitindo às pessoas que apreciem o espaço projectado por Álvaro Siza, a Casa original e o Parque de Serralves, foi outro dos desafios ganhos, segundo a directora. “Deu-me muita satisfação institucionalizar a arquitectura como parte do nosso programa. Convidámos artistas a responder a contextos muito diferentes em Serralves e conseguimos o envolvimento da comunidade de arquitectos com a criação de uma posição curatorial dedicada à arquitectura." O investigador catalão Carles Muro juntou-se à equipa este Verão.

Mas se Suzanne Cotter acha que conseguiu fazer muita coisa, reconhece também que “há sempre muito mais para fazer”. Entre os desafios importantes para o futuro, diz Cotter, está uma melhoria dos "recursos físicos e intelectuais" da instituição. Do lado material, é preciso “ser capaz de trabalhar de uma forma mais completa com a colecção, expandindo o trabalho do ponto de vista da conservação e da visibilidade”. Já quanto aos recursos intelectuais, trata-se de garantir "conhecimento curatorial", trazendo para Serralves "vozes frescas, uma nova geração de investigadores e produtores curatoriais”.

O Museu de Serralves, que fará 20 anos em 2019, já teve três directores ao longo da sua história. Foi inaugurado em Junho de 1999 com o espanhol Vicente Todolí, que saiu para ir dirigir a Tate Modern, em Londres, uma das principais instituições culturais do mundo. Seguiu-se João Fernandes, que tinha sido director-adjunto de Todolí, até à sua saída para Madrid. Actualmente, a direcção conta com João Ribas como director-adjunto, tendo Cotter ainda como adjunto Ricardo Nicolau, cargo que foi criado durante o seu mandato.