Casa Manoel de Oliveira muda-se para Serralves e Siza é autor do projecto

O arquitecto do Museu de Serralves é o autor do novo equipamento no Porto. Fica definitivamente posta de parte a utilização do edifício desenhado por Souto de Moura e já construído na Foz.

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Maqueta de Siza Vieira
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Antiga Casa do Cinema Manoel de Oliveira desenhada por Souto de Moura
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Antiga Casa do Cinema Manoel de Oliveira desenhada por Souto de Moura
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Manoel de Oliveira Miguel Riopa/AFP

A Casa do Cinema Manoel de Oliveira vai, afinal, ter sede em Serralves, num espaço projectado pelo arquitecto Álvaro Siza.

A decisão, que vinha sendo negociada desde 2008, quando o cineasta celebrou o 100.º aniversário e a fundação portuense lhe dedicou uma grande exposição retrospectiva, será hoje ratificada com a assinatura de um protocolo entre Serralves e o realizador de Aniki-Bóbó.

A cerimónia decorre num intervalo do seminário Cultura 2000, que decorre ao longo do dia na fundação, e vai contar com a presença do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.

Luís Braga da Cruz, presidente da administração de Serralves, disse na quinta-feira ao PÚBLICO que recebera nesse mesmo dia a notícia do acordo com a família do realizador para a localização definitiva do seu acervo e arquivo.

Com este protocolo, fica definitivamente posta de parte a utilização da casa projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura e já construída pela Câmara Municipal do Porto num bairro da Foz, junto de Serralves e da actual residência do realizador. A falta de acordo entre a autarquia e Manoel de Oliveira inviabilizou a utilização da casa, que terá custado mais de dois milhões de euros e hoje se encontra sem utilização visível e a degradar-se.

Braga da Cruz não quis pronunciar-se sobre o destino do projecto de Souto de Moura. “Serralves não teve nada a ver com isso. Sei que foi um projecto que não correu bem, mas a nossa atitude foi sempre isenta sobre esse aspecto”, disse o presidente da fundação.

Também Álvaro Siza disse que não tinha que comentar essa situação. Lembra que o projecto lhe foi pedido quando era claro que “não houvera entendimento” entre a Câmara e Manoel de Oliveira, e que o projecto de Serralves lhe chegou por via de João Fernandes, ex-director do Museu de Serralves. Mas sobre o edifício de Souto de Moura, Siza disse tratar-se de “um projecto muito bom”, e espera que “lhe seja dada alguma função”.

O novo vereador da Cultura da Câmara do Porto, Paulo Cunha e Silva, disse-se também “preocupado” com a situação da casa desenhada por Souto de Moura. “É naturalmente uma obra-prima da arquitectura contemporânea, mas que tem doze anos e está num estado de degradação avançadíssimo”, disse o autarca, acrescentando que o cinema é uma área à qual irá “dedicar particular atenção, já que “o Porto é uma cidade do cinema, uma cidade das imagens”.

Auditório com 52 lugares
A futura Casa do Cinema Manoel de Oliveira vai ser instalada na antiga garagem da residência do Conde de Vizela, no limite nascente do Parque de Serralves, que Álvaro Siza recuperou, readaptou e ampliou, aproveitando também as instalações agrícolas contíguas. Admite-se que a velha garagem foi projectada por José Marques da Silva, o arquitecto que teve intervenção directa e um papel determinante na construção da Casa de Serralves. Mas Álvaro Siza diz “é difícil definir com rigor o alcance dessa intervenção”, apesar de “alguns aspectos construtivos permitirem acreditar que teve a sua mão”.

De qualquer modo, o projecto de Siza, concluído já no ano passado, aproveita integralmente a estrutura do edifício antigo, a que será unicamente acrescentado um elevador. O equipamento será completado com um novo corpo a construir de raiz, que ficará ligado à antiga garagem através de uma pérgula já existente. Nos dois pisos e no sótão da velha garagem, numa área de cerca de 500 m2, ficarão uma sala de exposições temporárias e outra exclusivamente dedicada ao acervo de Oliveira, além de lugares para trabalho administrativo e investigação. No novo corpo, sensivelmente com a mesma área, haverá um auditório de cinema com 52 lugares e espaços para o serviço educativo.

Braga da Cruz avançou ao PÚBLICO que o projecto deverá orçar em cerca de três milhões de euros, e Serralves vai candidatar-se a apoios do próximo QREN, já no início do próximo ano.

“Serralves sempre se interessou pela obra de Manoel de Oliveira e, na sequência da exposição que realizámos em 2008, estabelecemos um protocolo com a família, que nos permitiu ir recebendo vários materiais ao longo do tempo”, explica Braga da Cruz. E lembra que a mostra do centenário, comissariada por João Fernandes, foi depois apresentada, “com assinalável sucesso”, em Berlim, em 2009, aquando da visita presidencial de Aníbal Cavaco Silva, e já este ano em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake.

A Casa do Cinema Manoel de Oliveira vai acolher livros, troféus, diplomas, guiões, fotografias, cartazes, manuscritos, cópias de filmes e outros materiais que documentam uma carreira iniciada ainda no tempo do mudo, em 1931, com a curta-metragem Douro, Faina Fluvial – e que Oliveira quer, de resto, prosseguir: nos seus projectos mais imediatos está uma média-metragem, O Velho do Restelo, mas também um documentário sobre a obra arquitectónica de Álvaro Siza.

O arquitecto diz-se honrado pelo interesse do realizador pelo seu trabalho, mas admite que a realização do documentário, no seu figurino original, será difícil, por causa das viagens que ele implicaria. “Mas fui eu que coloquei a questão das viagens, não foi o Manoel de Oliveira, pois ele nunca perde aquela energia toda”, comenta o arquitecto.

Não há ainda nenhuma confirmação oficial, mas fala-se, para a direcção da Casa do Cinema Manoel de Oliveira, do nome de António Preto (n. Porto, 1975), professor e ensaísta de cinema, que se doutorou na Universidade Paris-Diderot com uma tese sobre a relação entre cinema e literatura na obra de Manoel de Oliveira.

Braga da Cruz não confirma este nome; diz apenas que o futuro director artístico da nova instituição “será escolhido em comum acordo entre Serralves e o realizador e família”.

Com Luís Miguel Queirós e Patrícia Carvalho