Serralves não quis fechar a Bienal de São Paulo no museu

Cinco jovens ateliers de arquitectura do Porto constroem pavilhões no parque para mostrar uma bienal de arte que chegou do Brasil.

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Pavilhão do atelier depA. Adriano Miranda
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Dois Pesos e Duas Medidas da brasileira Lais Myrrha Adriano Miranda
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Os objectos da artista Sónia Andrade Adriano Miranda

As duas torres da brasileira Lais Myrrha, o trabalho mais monumental apresentado pela Bienal de São Paulo há quase um ano no pavilhão desenhado por Oscar Niemeyer na cidade brasileira, parecem mais pequenas no Museu de Serralves, onde no átrio dão as boas-vindas a quem visitar Incerteza Viva: Uma Exposição a Partir da 32.ª Bienal de São Paulo, que abre ao público este sábado no Porto.

Parecem mais pequenas, porque, de facto, diminuíram alguns metros ao adaptarem-se ao pé-direito mais baixo do edifício desenhado por Álvaro Siza em Serralves, mas, como explica Lais Myrrha ao PÚBLICO nas vésperas da inauguração, a sua obra já não é a mesma um ano depois, nem podia ser.

Dois Pesos e Duas Medidas são duas torres exactamente iguais, mas uma ergue-se em tijolos, betão, ferro e PVC, com as matérias-primas da arquitectura moderna e contemporânea, e outra toma forma em bambu, madeira, taipa e colmo, utilizando elementos usuais das construções indígenas ou autóctones. Se as medidas destas torres gémeas são iguais, o seu peso, como indica o título, é bastante diferente devido à natureza dos materiais e o trabalho quer mostrar como a arquitectura que hoje fazemos, nomeadamente a brasileira, pouco incorpora das culturas indígenas.

Se o confronto com a arquitectura de Siza, muito atento às tradições vernaculares, traz outro sabor e questões à obra desta mineira de 42 anos, Lais Myrrha destaca a dimensão narrativa que a obra ganhou nos últimos meses com a crise no Brasil. Se esse olhar estava lá latente, passou agora para primeiro plano: “Dois Pesos e Duas Medidas tem muita relação com a fase política que está a acontecer no Brasil. Vocês também têm aqui a expressão ‘dois pesos e duas medidas’?... É essa imprecisão, de que estas palavras falam, que permite a fraude e a corrupção.”

O problema de João Ribas, o director adjunto do Museu de Serralves e curador da exposição no Porto, foi perceber qual devia ser a “cor local” da Bienal de São Paulo agora apresentada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, questão que dá título ao seu texto no catálogo. Sete meses depois do encerramento da grande exposição de São Paulo, que juntou cerca de 80 artistas durante três meses, como é que se reagrupam obras de arte que entretanto começaram a sua vida pós-bienal, com todas as contaminações inerentes? Juntamente com o alemão Jochen Volz, curador-geral do evento brasileiro e co-curador da apresentação em Portugal, optou por sair do “cubo branco”, escolhendo mostrar apenas 14 artistas e colectivos que se espalham, principalmente, pelo Parque de Serralves e escapam ao museu, naquela que já é a segunda apresentação da Bienal de São Paulo no Porto, que teve um primeiro momento em 2015 com a anterior edição da exposição paulista.

“A nossa proposta permite aos artistas e curadores continuarem a pensar a bienal para lá de São Paulo”, diz Suzanne Cotter, directora do Museu de Serralves, acrescentando que tal como em São Paulo, onde a bienal tem uma identidade fortemente ancorada no Pavilhão Ciccillo Matarazzo situado no Parque do Ibirapuera, a imagem de Serralves, “e o seu DNA”, passa pelo edifício do Siza, igualmente implantado num parque.

João Ribas entende que a 32.ª edição da bienal, dedicada à incerteza numa perspectiva também ecológica, é já “pós-Niemeyer”, uma vez que já em São Paulo se expandia para fora do edifício. fugindo de certa maneira à omnipresença do arquitecto brasileiro, e conquistando o Parque de Ibirapuera. Aqui, Ribas e Serralves quiseram também sair das salas desenhadas por Siza e encomendaram cinco pavilhões a cinco ateliers jovens do Porto para albergar parte das propostas artísticas apresentadas. Um gesto que de certa forma, reconhece o curador, quase transforma esta bienal de artes numa bienal de arquitectura, devido à sua ambição. Os cinco pavilhões temporários, que respondem também ao tema da bienal, foram desenhados pelos ateliers depA, Diogo Aguiar, OTTOTTO, Fala e Fahr 021.3 para receber as obras de Gabriel Fernandes (Portugal), Priscila Fernandes (Portugal), Jonathas Andrade (Brasil), Cecilia Bengolea & Jeremy Deller (Argentina, Reino Unido) e Bárbara Wagner & Benjamin de Burca (Brasil, Alemanha).

Fora dos pavilhões, mas ainda no parque, podem ver-se também as obras de Carla Filipe (Portugal), Alicia Barney (Colômbia) e Öyvind Fahlström (Brasil/Suécia), enquanto no museu, além de Lais Myrrha, estão os trabalhos do colectivo Vídeo nas Aldeias (Brasil), Leon Hirszman (Brasil), Lourdes Castro (Portugal) e Sónia Andrade (Brasil), onde também é apresentada a performance de Grada Kilomba (Portugal).

Nesta cidade de arquitectos que é o Porto, continua Ribas, “quiseram mostrar o trabalho de uma nova geração, entre os 30 e os 40 anos, e pensar a ecologia neste contexto que junta arquitectura, paisagismo e artes visuais”, acrescentando o curador que a encomenda aos arquitectos passa também pela vontade de tornar visível o trabalho de uma geração que não tem tido muitas oportunidades de trabalho, além de obras de pequena escala. “Como museu de arte contemporânea trabalhamos com aquilo que pensamos ser o futuro e isso aplica-se também aos jovens arquitectos”, afirma Suzanne Cotter.

O Museu de Serralves, segundo os seus directores, inaugura com estas encomendas uma ocupação mais intensa do parque como área de exposição, explorando a serendipidade. João Ribas deseja que as pessoas descubram os pavilhões ao acaso, chegando a áreas do parque que normalmente não visitam e criando novas relações com a obra de arte, necessariamente mais livres. De certa maneira, é curioso que esta ideia que germina como uma ambição curatorial na sua cabeça há uns tempos tenha encontrado a Bienal de São Paulo e a companhia de Jochen Volz, que reside há uma década no Brasil  e é conhecido pelo seu trabalho de curadoria no Instituto Inhotim, considerado o maior museu ao ar livre da América Latina e cujo conceito gravita à volta de pavilhões dedicados a artistas. Com Volz, que dirige desde Maio a Pinacoteca de São Paulo, Serralves espera estabelecer uma relação que lhe permita aprofundar as relações luso-brasileiras, comenta João Ribas.

Depois de passarmos pela peça radiofónica de Öyvind Fahlström, cujo som sai das copas das árvores próximas do museu (a obra não chegou a ser vista em São Paulo), seguimos à procura do pavilhão dos depA, um colectivo de três arquitectos que tem o seu projecto instalado no lago que se segue ao parterre central da Casa de Serralves. Depois da paisagem francesa, em pleno paisagismo de gosto inglês, encontramos um poliedro com as faces espelhadas. “É um meio octógono, cuja geometria saiu do museu de Siza, que provavelmente saiu do Parque de Serralves”, diz Carlos Azevedo, 32 anos, um dos três sócios dos depA. “O volume parece camuflado, mas mais do que esconder a peça, interessou-nos assumir a materialidade do que está à volta. Começámos com uma planta clássica, mas conseguimos distorcer a volumetria, através dos planos da cobertura, de maneira a que o pavilhão surja diferente conforme o ponto de vista.” Lá dentro, com a água do lago aos nossos pés, podemos ver o vídeo O Peixe (2016), de Jonathas de Andrade, uma mistura entre documentário e ficção sobre o quotidiano de uma comunidade de pescadores do Nordeste brasileiro.

Para evitar os espaços mais óbvios do Parque de Serralves, o pavilhão do atelier Fahr 021.3, que exibe “o fenómeno brega” da obra em vídeo de Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, situa-se ao lado do lameiro e do prado grande da propriedade. A dupla Filipa Almeida e Hugo Reis, de 35 e 31 anos, pegou na ideia de cone de luz da própria projecção e trabalharam-na em três dimensões, recorrendo também a uma distorção, para adaptarem a forma com 16 metros de comprimento ao terreno, pontuado pela presença de várias árvores. Inspirados nas caixas de madeira que transportam as obras de arte, marcadas por traves diagonais, surgiu um pavilhão construído como uma estrutura tubular em aço, enquanto os painéis das paredes são em aglomerado de madeira. 

Um cubo no meio de uma pequena elevação no terreno, feito pelo atelier Fala, exibe o trabalho de Priscila Fernandes, uma portuguesa a viver em Roterdão, que mostra Gozolândia, uma obra filmada no Parque Ibirapuera, uma interrogação sobre os usos dos espaços do lazer e da arte. “Não parece, por causa da ilusão óptica, mas é um cubo”, diz Priscila Fernandes, que por causa das condições de projecção discute com João Ribas, na ausência dos arquitectos, até onde pintar as paredes interiores de azul. “É uma situação excepcional este encontro inesperado com os trabalhos no meio do parque”, acrescentando sobre o seu trabalho que em Portugal é exibido no meio do parque, ao contrário do que aconteceu em São Paulo.

Muito perto, está o pavilhão feito por Teresa Otto, 34 anos, que aproveita um pequeno tanque de água e ergue um volume aproximando dois “L” que desenham as paredes do espaço. O revestimento é de chapa ondulada reutilizada, um material que está a desaparecer. Foi preciso ir até Penafiel para encontrá-lo. “Dantes havia nas empenas do prédios. Agora é difícil de encontrar. Queria que tivesse a cor dada pelo oxidado, mas como não foi possível encontrar, utilizámos também a tinta spray usada nos graffiti”, explica a arquitecta.

O pavilhão desenhado por Diogo Aguiar, que exibe a peça de Gabriel Abrantes, é o que está mais perto do museu. Dois círculos em madeira trazem neste dia em que choveu uma dimensão inesperada, a do cheiro, ao trabalho do realizador que conta a história de amor entre uma jovem indígena que quer ser comediante e um robô. Os Humores Artificiais, uma produção que contou com o apoio de Serralves, sublinha João Ribas, mistura a estética de Hollywood com a do documentário num filme que tem agora a sua estreia em Portugal e em que o realizador quis explorar as formas de comédia indígena.

Se em São Paulo a maioria dos artistas eram mulheres, o mesmo cuidado houve na apresentação em Serralves. Entre os portugueses, todos repescados para o Porto, há apenas um homem num grupo de cinco artistas. 

A Bienal de São, que existe desde 1951 e é uma das mais antigas do mundo, é o evento internacional onde a presença portuguesa tem sido mais constante. Os artistas portugueses vão à Bienal de São Paulo há 65 anos, sem nenhuma interrupção. É bom que através desta nova colaboração entre a bienal e Serralves se possam ver em Portugal as razões para esta participação com uma intensidade única na internacionalização das artes visuais nacionais.

Correcção: O vídeo de Bárbara Wagner & Benjamin de Burca é exibido no pavilhão do atelier Fahr 021.3 e não no pavilhão do atelier Fala, como erradamente escrevemos.