O amor pode “curar” um psicopata?

James Fallon é um neurocientista norte-americano que descobriu acidentalmente que tem um cérebro de psicopata. Por causa disso, tornou-se famoso. Agora estuda como os sonhos podem, afinal, ser previsões do futuro e o Vaticano encarregou-o de descobrir as formas mais eficazes de transmitir ternura.

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Neurocientista James Fallon Nelson Garrido

Esta é uma daquelas histórias em que o feitiço se vira contra o feiticeiro. O neurocientista James Fallon é o feiticeiro que numa das múltiplas frentes de trabalho, um dia, se dedicou a estudar o cérebro de psicopatas. Mais tarde, numa outra pesquisa sobre doença de Alzheimer, em que decidiu incluir-se e à sua família como grupo de controlo, o investigador identificou nas imagens dos exames um cérebro que tinha o padrão claro e evidente de um psicopata. Era o seu.

O auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto estava cheio na quinta-feira no final do primeiro dia do Yes Meetting. O cartaz tinha anunciado a presença de James Fallon, que prometia a palestra sobre a viagem pessoal de um neurocientista até o lado negro do cérebro. James Fallon funciona como uma espécie de cabeça de cartaz, que vem com a garantia de casa cheia. É extrovertido, com sentido de humor, inteligente, rápido no discurso e pensamento, um cientista com uma vasta experiência em vários campos da neurociência e assume-se como um psicopata. Irresistível, não?

Há muito para dizer sobre o trabalho que faz e que vai desde doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, a desordens psiquiátricas, como a doença bipolar, esquizofrenia ou psicopatia, passando ainda — segundo adiantou ao PÚBLICO, no final da conferência — por investigações sobre sonhos que prevêem o futuro e trabalhos encomendados pelo Vaticano para descobrir as formas mais eficazes de transmitir a ternura. Mas também há muito para dizer sobre o seu lado pessoal e é ele mesmo que faz questão de quebrar a regra “científica” de nunca usar a primeira pessoa do singular. Além das histórias que publica em artigos científicos, tem a sua história para contar.

É um homem grande, com 70 anos, parece ter o hábito de falar com os óculos pendurados no topo da cabeça e com a face povoada por uma barba grisalha. Nas suas palavras, descreve-se como um “tipo normal, o palhaço da turma, rapaz católico do ano, feliz, professor de medicina um bocado nerd” e revela ainda que goza de um longo e estável casamento, com filhos e netos, e uma carreira de sucesso. Com uma sinceridade desarmante, também confessa que manipula as pessoas, não costuma perder muito tempo a pensar se as pode magoar com alguma coisa que diga ou faça e nunca chorou. Nas suas palestras também costuma falar da sua mãe, que celebrou recentemente 100 anos, e que jura que ele é “um bom menino”.

Em suma, a vida corre-lhe bem. Excepto num pormenor: descobriu que tem (quase) tudo para ser considerado um psicopata. A descoberta foi feita há já alguns anos. Nos anos 90, foi desafiado a participar num trabalho em que tinha de analisar o cérebro de assassinos psicopatas. Realizou vários exames a pessoas que se encontravam detidas em estabelecimentos prisionais e que eram consideradas perigosos psicopatas.

Regressando ao estudo sobre os psicopatas, fez vários exames de tomografias por emissão de positrões (PET, na sigla em inglês), procurou características comuns em várias regiões do cérebro e identificou um padrão em todo o chamado “lóbulo límbico” (um conjunto de estruturas cerebrais que estão associadas às emoções). Percebeu que aquelas zonas do cérebro de um psicopata estão desligadas ou muito pouco activas. Olhou para exames PET de psicopatas e de pessoas (ditas) normais, sem saber que cérebro pertencia a quem, e encontrou as diferenças.

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Exames PET de James Fallon, com mais zonas negras que indicam pouca actividade em certas regiões do cérebro num padrão que coincide com os psicopatas, e da sua família DR

Em 2005, estava a trabalhar sobre Alzheimer e foi preciso fazer nova sessão de exames PET. Desta vez, envolveu a família toda (mulher, filhos e ele próprio) no trabalho, integrando-a num grupo de controlo que seguia as pistas da doença neurodegenerativa. E agora, passamos à descrição de James Fallon sobre o momento que faz com que hoje esteja aqui à nossa frente: “Tinha ainda na secretária um monte de exames feitos aos psicopatas quando chegaram os resultados destes outros exames sobre Alzheimer. Quando estava a ver os resultados, pensei que me tinham pregado uma partida. Tinham colocado um dos exames dos psicopatas no monte do estudo de Alzheimer. Disseram-me que não. Não havia qualquer partida ou engano. E eu sabia que estava a olhar para o padrão de um psicopata dos piores, um caso puro, que, pensei, não devia andar por aí à solta. Tive de arrancar o papel que tapava o nome da pessoa que tinha feito o exame. Era eu.”

James Fallon garante que, na altura, aquela revelação não significou nada. “Ri, foi só isso”, conta, confessando que o que mais o incomodou foi a hipótese de ter errado no “mapa” cerebral que tinha identificado para os psicopatas. Mas não. No espaço de um mês, juntaram-se demasiadas coincidências. Quando disse à mãe que tinha um cérebro de psicopata, ela não ficou surpreendida e confirmou que na sua história familiar havia vários assassinos, entre os quais o bisavô do tetravô que matou a sua mãe e terá sido o autor do primeiro matricídio e uma prima (Lizzie Borden) acusada de ter assassinado o pai e a madrasta com um machado, apesar de nunca ter ficado provada a autoria do crime. Tudo vindo do lado paterno de James Fallon que, segundo conta, junta assassinos, padres e freiras.

Depois houve uma conferência em Oslo, na Noruega, onde apresentou o seu historial clínico e alguns resultados de análises perante uma plateia de investigadores e médicos. No final, alguns abordaram-no para o alertar sobre a conclusão que tiraram: James Fallon tinha todas as características de um psicopata.

A este passado somaram-se ainda os resultados de análises genéticas que levaram o investigador a perceber que tinha o chamado “gene guerreiro” (MAO-A). “Se tivermos esse gene e presenciarmos muita violência numa determinada situação, ele é activado e esta é a receita para o desastre”, diz. James Fallon não terá passado por nenhum evento traumático (maus tratos ou abandono, por exemplo) e, possivelmente, foi isso que o salvou de agir como um psicopata. Tinha o cérebro e os genes para isso, mas teve, confessa com um sorriso, muito amor à sua volta enquanto crescia. A mãe, que lhe terá reconhecido uma agitação invulgar, pedia aos professores para “manter aquele menino ocupado”.

No final de conferência, uma das estudantes na plateia perguntou-lhe o que achava de identificar os casos de crianças com um perfil de risco e agir bem cedo para prevenir que se tornem psicopatas. “Teria de ser muito cedo, até aos 3 anos, e é muito difícil. Teríamos de treinar profissionais para detectar os casos. Era preciso intervir e interferir na família de uma forma privada e responsável e quando estamos a falar de abuso de menores, maus tratos ou abandono, isso é muito complicado. Até porque são famílias que não nos deixam entrar lá em casa.” Por fim, desabafou: “Não pensem que a genética e as neurociências vão salvar o mundo, porque podem é torná-lo pior.”

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James Fallon durante a conferência no Porto Nelson Garrido

Em 2009, James Fallon aceitou fazer uma palestra TED talk sobre a sua história. Aqueles minutos perante uma pequena plateia mas difundidos à escala mundial tiveram severos efeitos secundários. “Foi aí que o inferno se soltou nas nossas vidas”, brinca, referindo-se às inúmeras solicitações que o levaram a vários programas de televisão, entrevistas e conferências. Escreveu um livro intitulado The Psycopath Inside. Mas, apesar da agenda sobrecarregada, o professor de Psiquiatria e Comportamento Humano continua a trabalhar no laboratório da Universidade da Califórnia, em Irvine.

“Estamos a estudar hominídeos, vestígios e ADN do período Neandertal e Paleolítico, sobretudo da Itália. Estamos à procura de genes e de padrões do cérebro que estejam relacionados com o comportamento, como os associados à guerra, e também metabolismo, o que bebiam, o que comiam. Também procuramos sinais da evolução da linguagem, detectando o que são inovações e não adaptações”, adianta ao PÚBLICO, numa breve conversa no final da conferência, no Porto.

É apenas o princípio da conversa que, de repente, abandona o terreno dos psicopatas e entra na vida do neurocientista, no laboratório, hoje. “Estou também muito empenhado em estudar como os sonhos, durante a fase REM do sono, são na verdade previsões do futuro — ou seja, nós não temos só sonhos nesta fase do sono para rever o dia que passou, mas também há previsões do futuro. Estamos a fazer uma série de exames para mostrar que sonhar é realidade virtual. Temos uma máquina de realidade virtual na nossa cabeça que usamos para prever o que será realidade”, refere, entusiasmado.

E dos sonhos parte para o Vaticano, sem pausa no discurso. “Estamos a trabalhar com o Papa na mensagem da ternura. Perceber como é que ele pode transmitir esta mensagem ao mundo, para todas as crianças, usando realidade virtual volumétrica para espalhar diferentes tipos de empatia”, explica. Adianta apenas que, nas reuniões de trabalho que já duram há cerca de dois anos, o Papa lhes pediu que encontrassem “uma forma de comunicar com todas as crianças do mundo”. O desafio é mostrar como esta nova tecnologia tem um impacto, com avaliações fisiológicas, comportamentais, genéticas. Mostrar “como uma certa música, obra arquitectónica, experiência estética ou outra coisa qualquer” pode mudar alguém. E, assim, quem sabe, mudar o mundo.

Depois de perceber a predisposição biológica que tem, James Fallon tentou mudar. “Tentei ser uma pessoa boa. Em coisas simples, pequenas atenções e comportamentos, pensava: o que faria agora um tipo bom?”, diz. Confessa que os amigos e familiares lhe deram uma especial motivação para esta mudança de comportamento quando confirmaram que o resultado dos seus exames não era surpreendente. Descobriu que “ser uma pessoa boa é cansativo, muito menos interessante, não tem tanto brilho, uma pessoa não parece tão inteligente”. Mas, conclui, ser uma pessoa boa era mais uma experiência do investigador James Fallon. E ainda continua, garante. Devemos acreditar? Fica na memória uma das suas frases na conferência: “Não acreditem em nada disto, afinal, eu sou um psicopata.” A plateia concluiu que era só mais uma piada.