Entrevista

"Pode ter-se criado a ideia de que há uma espécie de folga"

Pedro Marques admite que o Governo esteja a ser "vítima do seu sucesso", com a economia a crescer e contas em ordem. Mas a consolidação tem que continuar. Nas legislativas, espera um "resultado muito bom", com "condições para governar".

daniel rocha
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A esquerda está "orgulhosa" dos resultados conseguidos, mas é natural que antes das autárquicas peça mais. Depois das legislativas, PS está "obrigado" a perguntar se querem continuar, diz o ministro.

Está preocupado com a situação na Autoeuropa? 
Todos esperamos que se resolva. É um projecto apoiado, ao longo dos anos, pelos fundos comunitários. É um dos grandes projectos de investimento directo estrangeiro em Portugal. E confiamos que um diálogo social e laboral adequado, agora com a eleição da nova comissão de trabalhadores, venha a conduzir a um acordo - e a que a empresa possa começar a produzir o novo modelo. É bom todos termos noção do que ali está em causa: podemos estar a falar da duplicação da produção daquela empresa no espaço de um ano. E isso pode valer 1% do PIB português. 

E se isso ficar em risco?
Aquela empresa tem conseguido encontrar soluções de compromisso com os trabalhadores. Acredito que as condições se criarão, das duas partes, para que a empresa permaneça como uma das unidades mais competitivas da Volkswagen. 

O PS mostrou-se incomodado com as "lutas políticas" entre PCP e BE dentro da empresa. Depois das autárquicas, acha que a situação se acalmará?
Espero, sobretudo, que passadas as eleições na comissão de trabalhadores, e com uma negociação entre as duas partes, que todos consigam dar mais futuro aquela empresa.

Este conflito na Autoeuropa, as greves de enfermeiros e juízes, isto depois de Tancos e Pedrógão. Tudo isto marca o fim da onda positiva para a chamada "gerigonça"?
Compreendo a questão. Claro que ocorreram eventos, certamente o de Pedrógão é absolutamente dramático e teve consequências profundas, desde logo naquela comunidade. Nunca desvalorizarei isso ou o facto de termos tido outro Verão difícil. Mas este Verão corresponde à consolidação de uma situação económica muito forte: mais de 200 mil empregos criados, o défice a cair, o investimento a crescer na casa dos dois dígitos, a economia a crescer quase 3% por dois trimestres consecutivos. Estamos a cumprir o que dissemos no início. Houve eventos que são sérios e que devem fazer reflectir a política pública, mas não nos desvia do caminho, no sentido de que é possível conciliar crescimento económico com coesão.

Mas há o regresso de contestação. E os líderes do BE e PCP vieram dizer que a maioria de esquerda não é repetível. Como é que lê essas declarações? 
O facto é que esta maioria de esquerda está a entregar muito bons resultados ao país. E por isso é que o primeiro-ministro já disse estar muito confortável com a eventual repetição do modelo [na próxima legislatura]. No mês das autárquicas, não seria de esperar que as pessoas não afirmassem que é possível fazer mais, aqui ou acolá. Agora, que nós conseguimos juntar crescimento e criação de emprego, com recuperação de rendimentos, com aumento das pensões, com aumento das prestações sociais, com mais contratação de médicos, com uma estabilização na Educação e alargamento do pré-escolar, isso conseguimos. E dá-nos satisfação, não só a nós, como ao BE, PCP e Verdes.

Não se criou expectativa a mais para o próximo Orçamento?
Se me está a perguntar se somos um pouco vítimas dos resultados que fomos entregando, é uma boa questão e pode, num certo sentido, ter razão de ser. Se as contas públicas vão melhorando, se o emprego está a ser criado, pode dar-se a ideia de que há uma espécie de folga. Agora, não nos podemos esquecer que a trajectória que temos de recuperação da nossa sustentabilidade externa e da sustentabilidade das contas públicas tem um caminho para fazer - são conhecidos os níveis elevados da nossa dívida pública. E, por isso, a trajectória que conseguimos fazer - de crescimento, recuperação do Estado social e contas públicas em ordem, essa tem que ser a nossa resposta para o resto da legislatura.

Nas legislativas, o PS vai lutar por uma maioria absoluta?
Acho que o PS tem condições para ter um resultado muito bom nas legislativas. E que esse resultado pode ser um resultado, eu diria....

O PS tem tantas dificuldades em dizer maioria absoluta...
... que nos dê muito boas condições de governar. E mesmo assim, estamos obrigados, pelo sucesso desta solução, a voltar a desafiar os nossos parceiros para o futuro, isso com certeza que sim.

Se fosse hoje, o PS votaria Marcelo?
(risos) Não sei o que o PS faria, sei que o Presidente tem sido dos factores mais importantes para a estabilidade da actual situação económica e social do país. Trouxe um capital de confiança nas instituições importantíssimo.