Opinião

A greve na Autoeuropa é assim tão chocante?

Proponho à malta de esquerda que anda por aí a zurzir nos sindicatos da Autoeuropa que poupe a sua energia para a próxima greve dos professores.

Foi Ana Catarina Mendes, uma das pessoas mais próximas de António Costa, quem o disse no sábado, em Palmela: “A mim choca-me particularmente olhar para o que está a acontecer hoje na Autoeuropa.” Claro que aquilo que “choca” a secretária-geral adjunta do PS não é o “direito à greve”, que deve ser sempre “respeitado” (ufa), mas sim a ausência de “diálogo” e de “paz social”, como “sempre tivemos na Autoeuropa”. Ana Catarina Mendes não tem nada contra greves — só não aprecia os seus efeitos. E, por isso, ela decidiu ir a Palmela dramatizar o discurso, alertando para o perigo de uma deslocalização da fábrica da Volkswagen por causa de “uma guerra partidária que em nada abona nem a economia nem os trabalhadores”. Reparem como é bom ser de esquerda em Portugal: na boca de uma dirigente do PS, estas palavras denotam preocupação social com a pátria e com o proletariado; na boca de Passos Coelho, exactamente as mesmas palavras teriam com certeza demonstrado a sua vergonhosa insensibilidade social, o desrespeito constante pelas lutas dos trabalhadores e a necessidade de exorcizar o demónio neoliberal que lhe tomou conta do corpo.

Eu já escrevi inúmeros textos a zurzir em sindicatos, com a Fenprof e o grande Mário Nogueira à cabeça. No domínio do Estado, considero que a CGTP tem sido uma força retrógrada e que muito tem contribuído para o atraso do país. Mas há uma diferença assinalável entre greves no sector público, onde há um excessivo desequilíbrio de forças a pender para o lado dos sindicatos, e greves no sector privado, onde esse desequilíbrio não acontece — razão pela qual esta histeria em torno da Autoeuropa apenas demonstra a parolice portuguesa e a dependência excessiva de uma empresa que representa 1% do PIB nacional.

Parece evidente que a ida para a reforma do antigo líder da Comissão de Trabalhadores, António Chora (ligado ao Bloco de Esquerda), causou um vazio de poder que tem dificultado o diálogo entre a administração e os funcionários da Autoeuropa. Também não me custa admitir que se tenha iniciado entretanto uma guerra de sindicatos, com a CGTP a tentar meter a mão na segunda maior exportadora nacional. Mas eu leio as notícias, e o que li sobre a Autoeuropa foi isto: houve dois plenários que contaram com a participação de três mil trabalhadores (de um total de quatro mil), que mandataram por esmagadora maioria o sindicato da CGTP a negociar com a administração a questão do trabalho obrigatório ao sábado.

Claro que muita gente olha para o pré-acordo que foi rasgado achando que ele é fantástico, excelente, extraordinário, e que os trabalhadores da Autoeuropa deveriam agradecer todas as noites à Virgem Maria por terem emprego numa fábrica alemã. Mas um liberal, como eu, tem muita dificuldade em aceitar tal atitude: não sou trabalhador da Autoeuropa, não sou eu que tenho de passar a trabalhar aos sábados, e não sou accionista da Volkswagen. Compete aos trabalhadores da empresa avaliar o risco de poderem ficar sem trabalho e à administração avaliar se vale a pena manter o negócio em Portugal. Proponho à malta de esquerda que anda por aí a zurzir nos sindicatos da Autoeuropa que poupe a sua energia para a próxima greve dos professores ou do metro de Lisboa. Essas, sim, dizem-nos respeito. E, ao contrário da Volkswagen, o Estado português não se pode deslocalizar, não pode despedir, é mal gerido, dá prejuízo desde 1143, e quem paga as greves não são os alemães — somos todos nós.