Opinião

A escalada norte-coreana

Pyongyang quer sinalizar a sua capacidade de conter uma ameaça existencial dos Estados Unidos e a autonomia política do regime comunista norte-coreano em relação aos seus aliados chineses.

A Coreia do Norte completou o seu sexto ensaio nuclear, o primeiro desde Setembro passado, com um engenho de tamanho mais pequeno e muito mais potente, o que fortalece significativamente a credibilidade das suas capacidades estratégicas como potência nuclear.

O ensaio nuclear norte-coreano é um passo adicional numa escalada perigosa em que a monarquia comunista tem demonstrado uma forte determinação e uma crescente confiança. A crise na Ásia do Nordeste agravou-se a partir de Julho, quando a Coreia do Norte lançou um míssil balístico de longo alcance que poderia alcançar o território dos Estados Unidos, antes de ameaçar explicitamente atirar essas armas em direcção a Guam, onde se encontram as principais instalações militares norte-americanas no Pacífico. Em Agosto, por iniciativa de Washington, o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs um novo regime de sanções contra a Coreia do Norte, em que a China se comprometeu a reduzir substancialmente as importações norte-coreanas. O isolamento político do regime comunista norte-coreano - a China é o único aliado formal da República Popular Democrática da Coreia - não impediu Kim Jong-un de responder com o lançamento de um míssil de alcance intermédio sobre o Japão e, nos dias seguintes, o início de manobras militares conjuntas dos Estados Unidos e da Coreia do Sul passou a ser o pretexto para justificar o novo ensaio nuclear, prontamente condenado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Na versão oficial, as sucessivas demonstrações das capacidades militares norte-coreanas servem para confirmar que o regime comunista passou a ter uma bomba de hidrogénio e que a consegue acoplar a um míssil de longo alcance com capacidade para ameaçar os Estados Unidos. Não é evidente que a Coreia do Norte tenha essa capacidade, embora ninguém duvide da credibilidade das suas ameaças contra a Coreia do Sul e o Japão. Mas a escolha do momento para a realização do ensaio nuclear parece visar sobretudo a China, cujo Presidente está a receber em Xiamen os chefes de Estado e de Governo do Brasil, da Rússia, da Índia e da África do Sul para uma cimeira dos BRICS, nas vésperas do Congresso do Partido Comunista.

Nesse contexto, a Coreia de Norte quer sinalizar, por um lado, a sua capacidade de conter uma ameaça existencial dos Estados Unidos com uma retaliação nuclear contra os seus aliados asiáticos e, por outro lado, a autonomia política do regime comunista norte-coreano em relação aos seus aliados chineses.

A estratégia de conflito de Kim tem explorado dois factores conjunturais. O primeiro factor é a confusão estratégica que prevalece em Washington, manifesta na demissão de Steve Bannon, o conselheiro politico do Presidente Donald Trump que declarou não haver solução militar para a crise norte-coreana e que os Estados Unidos deviam admitir retirar as suas tropas da Coreia do Sul. Trump demitiu Bannon e declarou que "todas as opções estavam em aberto" na resposta dos Estados Unidos às provocações norte-coreanas. Porém, nas vésperas do ensaio nuclear, o próprio Presidente admitiu a possibilidade de denunciar os acordos económicos entre Washington e Seul e, no dia seguinte, criticou os aliados sul-coreanos por serem demasiado conciliadores com Pyongyang. A inexperiência diplomática de Trump e as divisões internas da Administração republicana são um estímulo para Kim continuar a escalada, cuja finalidade pode ser desacoplar a Coreia do Sul dos Estados Unidos para impor a reunificação da península nos termos ditados pela Coreia do Norte.

O segundo factor é a incapacidade política de Pequim para disciplinar o seu único aliado comunista. A China quer conter a escalada norte-coreana, que pode servir de pretexto não só para os Eatados Unidos fortalecerem as suas posições militares na Ásia do Nordeste, incluindo a reposição de armas nucleares norte-americanas na Coreia do Sul, como para desencadear uma cadeia de proliferação regional, em que o Japão se pode tornar uma potência nuclear a pretexto de se proteger das ameaças da Coreia do Norte. Porém, Kim persiste em desafiar a autoridade do Presidente Xi Jinping e está a pôr à prova a aliança entre os dois Estados, convencido de que Pequim não pode admitir a deposição do regime comunista norte-coreano por pressão dos Estados Unidos.

O impasse é real, como fica demonstrado pela duração da crise, e nada indica que a escalada das tensões regionais possa ser interrompida pela multiplicação dos votos piedosos e das grandes frases.

O momento mais perigoso das potências nucleares é o período inicial, como o demonstram casos anteriores: em 1950, os Estados Unidos admitiram o recurso às armas atómicas na Guerra da Coreia para travar a ofensiva chinesa; em 1973, Israel considerou essa possibilidade para assegurar a sua sobrevivência na Guerra do Yom Kippur; em 1999, a Índia e o Paquistão estiveram no limiar de uma troca nuclear durante a Guerra do Kargil. O cenário pode repetir-se com a Coreia do Norte.

Esse risco pode ser contido pela convergência entre os Estados Unidos e a China, que, em conjunto, podem prevalecer sobre a Coreia do Norte. Segundo as declarações oficiais norte-americanas, a nova Administração não quer pôr em causa a continuidade do regime norte-coreano. De certa maneira, Trump considera a Coreia do Norte um tributário da China, a qual deve poder garantir que a monarquia comunista não perturba a balança regional, nem põe em causa os regimes de não-proliferação das armas de destruição maciça. Passem as dificuldades óbvias na sua relação com Kim, Xi não tem nenhuma objecção de princípio à posição do Presidente norte-americano, mas pode querer tirar partido da crise para redefinir o perímetro das esferas de influência respectivas dos Estados Unidos e da China na Asia Oriental.