Autoridades russas detiveram um dos principais encenadores do país, comunidade artística fala em perseguição

Kirill Serebrennikov, crítico assumido do conservadorismo do governo de Vladimir Putin e da influência da Igreja Ortodoxa no país, é acusado de desvio de dinheiros públicos. Dentro e fora da Rússia, teme-se que a sua detenção seja um esquema para o silenciar.

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Num gesto em que a comunidade artística vê mais um golpe do Kremlin destinado a silenciar vozes dissidentes, as autoridades judiciais russas detiveram na madrugada desta terça-feira um dos encenadores e cineastas mais proeminentes e premiados do país, acusando-o finalmente, após um cerco de vários meses, de desvio de dinheiros públicos. Kirill Serebrennikov (n. 1969), conhecido pelas suas produções progressistas que esbarram no conservadorismo do regime de Vladimir Putin, e em particular na sua difícil relação com a homossexualidade, estava em São Petersburgo, a rodar a sua próxima longa-metragem.

A detenção foi anunciada em comunicado pelo Comité de Investigação. Serebrennikov aguarda agora que o tribunal decida se o manterá sob prisão preventiva, se lhe aplica o regime de prisão domiciliária ou se o liberta sob fiança, decisão que deverá ser conhecida ao longo desta quarta-feira.

Há vários meses que Serebrennikov, um dos 12 directores artísticos do Gogol Center, um reputado teatro de Moscovo com financiamento estatal, é alvo de uma investigação que está a inquietar a comunidade de artes russa e do resto da Europa. Vários artistas já levantaram publicamente a possibilidade de a alegada fraude ser um álibi do regime para silenciar Serebrennikov, dadas as suas críticas à conservadora moral oficial e à crescente influência da Igreja Ortodoxa Russa no país, uma tese negada pelo presidente Vladimir Putin.

No centro da investigação está um financiamento de 68 milhões de rublos (cerca de um milhão de euros) concedido pelo Estado entre 2011 e 2014 a um projecto da companhia de teatro Studio Seven, que Serebrennikov dirigia já antes de se tornar, em 2012, um dos directores do Gogol Center. Ao abrigo de um programa experimental de renovação da música, da dança e do teatro, o centro – que se define como "um espaço de liberdade", tal como explicita no seu site – abriu as portas a três jovens companhias residentes. Tal como a Dialogue Dance e o SounDrama (que em 2016 trouxe ao Teatro Nacional S. João, no Porto, o seu monumental Guerra), a Studio Seven foi uma das estruturas seleccionadas. Os dinheiros públicos que, segundo a investigação, Serebrennikov terá desviado destinavam-se à realização de espectáculos.

Caso seja considerado culpado, o realizador de O Discípulo, longa-metragem distinguida em 2016 no Festival de Cannes, arrisca uma pena de prisão de dez anos, segundo a imprensa russa.

Nina Masliayeva parece ter sido a peça-chave para a formalização da acusação: a ex-contabilista do Gogol Center terá apresentado provas da participação do encenador e cineasta num esquema fraudulento que também envolveria outros dois directores da instituição, Alexei Malobrodsky e Yuri Itin, igualmente detidos esta terça-feira. Os três acusados já vieram negar qualquer envolvimento na história.

Serebrennikov já tinha sido detido para interrogatório em Maio, mas apenas na qualidade de testemunha. Num post publicado em Junho na sua página de Facebook, escreveu a investigação como “absurda e esquizofrénica”, apelando aos espectadores da companhia que o ajudassem a provar que o financiamento havia sido gasto em produções: “É particularmente importante relembrar a produção Sonho de uma Noite de Verão] que realizámos (...) mais de 15 vezes (…). E que foi nomeada para todo o tipo de prémios teatrais (…). Agora o agentes do SK [Comité de Investigação] dizem-nos que não existe e nunca existiu."   

Comunidade artística em protesto

Já depois dessas primeiras diligências, em Julho, a peça que Kirill Serebrennikov previa estrear no Teatro Bolshoi sobre a vida e obra do mítico bailarino russo Rudolf Nureyev acabou cancelada à última hora em circunstâncias controversas. A decisão do teatro chocou a crítica e o meio artístico em geral, para mais estando em casa a estreia mundial de uma das criações mais esperadas da temporada, sobre o homem que deixou a União Soviética durante a Guerra Fria e se exilou no Ocidente, onde alcançou uma carreira fulgurante na dança.

A companhia argumentou então que a produção não estava pronta para ser apresentada ao grande público, mas os defensores de Serebrennikov atribuíram a inusitada suspensão do espectáculo ao facto de este fazer referência directa à homossexualidade de Nureyev.

O Gogol Center tem sido, de resto, frequentemente criticado pelo meio teatral mais ortodoxo e pelo próprio Ministério da Cultura russo pela sua irreverência. 

Após o primeiro interrogatório de Maio, a polícia realizou operações de busca em casa de Serebrennikov e no seu escritório que deixaram um rasto de destruição, amplificando os protestos nos círculos culturais russos e estrangeiros. Um grupo de personalidades do país endereçou então ao presidente Vladimir Putin uma carta de apoio a Serebrennikov, apelando a uma investigação justa e objectiva, sem repressão da liberdade, “sem crueldade excessiva (...) e sem interrupção das actividades criativas do teatro, da equipa e do próprio Kirill Serebrennikov”.   

Várias figuras do panorama artístico europeu insurgiram-se entretanto contra a detenção desta madrugada, incluindo a actriz Isabelle Huppert e o director do Festival de Teatro Avignon, Olivier Py: “Eu não sou advogado e não conheço os documentos, mas conheço muito bem Kirill Serebrennikov. Ele é um verdadeiro opositor do regime de Vladimir Putin, é um defensor dos direitos dos homossexuais e um dos seus trabalhos no Bolshoi até foi proibido. Trata-se, obviamente, de uma prisão política (…). Veio ao Festival de Avignon duas vezes, conheço-o pela sua integridade e não tenho dúvidas sobre a sua inocência”, afirmou o encenador francês, citado pelo jornal Le Monde.

Serebrennikov venceu em 2016 o prémio François Chalais em Cannes pelo filme O Díscipulo. A sua carreira no cinema começou a ser reconhecida internacionalmente em 2012, quando viu o seu filme Izmena integrar a competição do Festival de Veneza. Já este ano, recebeu o Prémio Europa Novas Realidades Teatrais atribuído pela Comissão Europeia.

Texto editador por Inês Nadais