Opinião

Entre o populismo e o euroceticismo

A terrível situação que atinge a Venezuela é mais um caso emblemático dos equívocos de alguns setores da esquerda portuguesa.

Pode dizer-se que o populismo se define como um discurso baseado em juízos simplistas e dicotomias fáceis. Diz-se ao povo (às massas) o que ele espera ouvir, sabendo-se que o senso comum popular é fundado no princípio maniqueísta que divide a sociedade entre os bons e os maus. Portanto, como afirmou um dos seus teóricos (Cas Mudde, 2004), o populismo pretende acima de tudo “agradar aos eleitores/povo e assim ‘comprar’ o seu apoio em vez de procurar — racionalmente — a ‘melhor opinião’”. Muito já foi dito sobre populismo e nacionalismo e muito está por dizer.

Pode distinguir-se o populismo de direita do de esquerda, com base sobretudo nos objetivos enunciados, ou seja, oportunidades individuais e primazia do mercado (no caso da direita liberal) e, por outro lado, mais igualdade e mais políticas sociais (no caso da esquerda). A defesa do povo contra as elites e a alusão a uma identidade “autêntica” (nacional ou local) que emana da comunidade podem ser, e são, elementos partilhados pelos populismos de direita e de esquerda. Entre a esquerda ganhou visibilidade a posição do Podemos, em Espanha, quando o seu líder assumiu (num desafio a E. Laclau, outro teórico do assunto) que ser ou não populista depende se se está no poder ou na oposição. Se estás na oposição e queres construir novos sujeitos políticos “hay que ser-lo”, diria Iglesias. Quando se governa, termina o populismo e pode ter lugar uma espécie de “compromisso histórico” (à la Berlinguer). Essa atitude ambivalente exprime-se na fórmula estar “com um pé dentro e outro fora” das instituições. Podemos e BE partilham esse princípio, enquanto o PC está dentro fingindo estar fora, no seu estilo esquizofrénico.

Uma outra vertente dos equívocos da esquerda radical (nomeadamente no caso de Portugal) é no que se refere aos alinhamentos internacionais. Quer o PCP quer o BE têm revelado posições ambíguas, o que, eventualmente, se liga ao facto de estarem agora no arco do poder. Quanto ao primeiro, paira ainda no ar a célebre máxima de um seu dirigente (Bernardino Soares) quando, em 2003, afirmou ter “dúvidas” quanto a considerar se o regime da Coreia do Norte é uma democracia (o que gerou polémica no próprio seio do partido, diga-se em abono da sua democraticidade interna), e mais recentemente (fevereiro de 2014) o PCP votou isolado no Parlamento contra a condenação dos crimes cometidos por aquele regime despótico. Na campanha presidencial de 2016 foi patético o tergiversar de Edgar Silva (candidato do PCP) no debate televisivo com Marisa Matias (BE) a propósito de uma pergunta direta sobre o mesmo assunto. Já o caso de Angola, designadamente a mediatização que foi dada ao protesto pacífico de um grupo de jovens, cujo principal protagonista, o músico Luaty Beirão, esteve em greve de fome durante mais de um mês, revelou divisões claras entre o PCP e o Bloco, com o primeiro a ficar inicialmente calado e os bloquistas a assumirem uma solidariedade ativa, denunciando o regime cleptocrático de Eduardo dos Santos. No Parlamento, o PC não ficou isolado nem acompanhou PS e BE nas suas propostas de condenação, preferindo votar ao lado da direita por considerar que tal voto visava “pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas”.

A terrível situação que atinge a Venezuela é mais um caso emblemático dos equívocos de alguns setores da esquerda portuguesa. Há cerca de um ano, Mariana Mortágua, realçando os indicadores positivos conseguidos pelo chavismo, como a redução significativa da pobreza e a melhoria na educação e saúde — dados factuais conhecidos, mas insuficientes para justificar o resto —, afirmava, no Esquerda.net, que “o Governo da Venezuela cometeu erros graves: retirou poderes ao Parlamento, diminuiu a democracia, permitiu a corrupção em volta do petróleo e foi incapaz de construir uma rede de serviços públicos alicerçada numa economia diversificada. A Revolução Bolivariana degrada-se a olhos vistos”. “Erros graves.” Do Bloco espera-se mais. No momento em que escrevo acabo de ler o comunicado do PCP sobre a eleição para uma nova assembleia constituinte na Venezuela. O tom eufórico é um hino a Maduro, exaltando este “ato de afirmação democrática” contra “o ataque ao povo venezuelano pelos Estados Unidos e União Europeia”. O número oficial de votantes foi expressivo (41,5%), mas os observadores internacionais duvidam da veracidade dos mesmos. Numa afirmação curiosa de respeito pela democracia eleitoral (as manifestações boas são só as nossas...) e de condenação dos protestos de massas neste país durante meses seguidos, onde já morreram mais de uma centena de pessoas, em luta aberta contra a fome e o populismo chavista do atual governo, o PCP congratula-se e parece ter sido o primeiro a fazê-lo, o que diz bem do seu entusiasmo. Tudo culpa da quebra do preço do petróleo e dos EUA? Excelente exemplo de uma análise populista.

O curioso é constatar a dualidade de critérios. E isto não vale apenas para os comunistas. Quando, na Europa ou nos EUA, as manifestações de rua são consideradas progressistas, na Venezuela são tidas como golpistas, alegadamente a mando das potências ocidentais e da CIA, que manipulam milhões de jovens em protesto dia após dia. Tirando uns quantos inocentes, todos sabemos que os interesses petrolíferos são em muitos casos decisivos, tal como o são — e foram no passado — os interesses geoestratégicos das grandes potências. A conversa de que “é ao povo que cabe decidir o seu próprio futuro” é uma proclamação de pura retórica, tão válida hoje como em Portugal em 1975, tão válida na Venezuela como na Hungria (Orban fez algo semelhante a Maduro), no Afeganistão, na Líbia, no Irão ou na Ucrânia. Ou não será?...

Já agora, convém lembrar o posicionamento destas correntes no atual cenário internacional, com a crítica a Trump pelo meio (foi ele, de resto, quem mais ajudou a colocar o tema na ordem do dia), mas em que as suas ligações perigosas com o amigo Putin ou as iniciativas imperialistas deste (Ucrânia) e atividades criminosas a seu mando ou com a anuência do Kremlin (nos EUA ou na UE) em diversas matérias, nomeadamente o conhecido apoio a forças neofascistas (Le Pen), merecem apenas a condescendência e o silêncio.

Em suma, algumas destas posições da nossa esquerda (com algumas exceções, importa sublinhar) no alinhamento com regimes populistas, como o de Chaves-Maduro ou outros que vão no mesmo sentido, são apenas o reverso do seu visceral anti-europeísmo. No discurso, porque a prática é diferente. Não falo da atitude crítica à atual UE e aos poderes tecnocráticos e forças neoliberais a que se sujeitou por culpa própria. Apontar a crítica radical às instituições e promover uma outra Europa, uma Europa transparente, democrática, solidária e fundada na cidadania transnacional é o que pretendem os europeístas genuínos. Essa é também uma bandeira da esquerda. De outra esquerda. Vale a pena referir, por exemplo, nomes como Yanis Varoufakis ou Rui Tavares, para exemplificar vozes que são ao mesmo tempo inequivocamente europeístas e de esquerda. E no campo da social-democracia muitas opiniões (incluindo o PS e o próprio António Costa) vão no mesmo sentido.

Já o alinhamento com Mélenchon e a diabolização de Macron revelam, de facto, o poderoso efeito populista no seio daquelas forças políticas, condimentado com algum dogmatismo de quem ainda finge acreditar em “amanhãs que cantam”. Trata-se de um fingimento cínico porque muitas das posições mais extremadas vêm, justamente, de quem se apraz em beneficiar do sistema democrático “burguês” e retirar vantagens das instituições europeias. Bastaria confrontar o discurso das várias lideranças populistas da América Latina ou do Leste europeu, por exemplo, com o volume (e a sede) das suas contas bancárias para se perceber o que é o populismo.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico

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