Quatro performances para ficar alucinado

Até sábado, a Rua das Gaivotas 6 recebe o primeiro ciclo do Teatro Praga dedicado à performance, através de quatro revisitações de obras próprias e alheias.

Foto
ALÍPIO PADILHA

Para o Teatro Praga, é uma questão de justiça. Em causa própria, mas também em nome de terceiros. Acreção, o primeiro ciclo de performances que a companhia apresenta desta quarta-feira até sábado no espaço Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, junta quatro momentos em que gente dos Praga (Cláudia Jardim e André e. Teodósio) dá nova vida a duas criações de autores essenciais na constituição da sua identidade artística, ao mesmo tempo que delega noutros (Ana Tang, Paulo Pascoal e André Guedes) a ressurreição de duas performances da companhia.

“Há muito tempo que tínhamos esta vontade de pegar em espectáculos que foram fundamentais para nós enquanto espectadores”, declara Cláudia Jardim ao PÚBLICO. “E fazer reenactments desses espectáculos que nos obrigaram a repensar, em momentos cruciais da nossa formação enquanto artistas ou espectadores, os moldes daquilo que é ou não é teatro.” Curiosamente, regista a actriz do Teatro Praga, esta reflexão sobre performances seminais para o percurso da companhia conduzi-los-ia sempre a “muitos espectáculos de estruturas menores ou de criadores que fizeram um percurso que não foi acolhido na programação dos teatros municipais e nacionais”. Por isso, mesmo havendo criadores que teriam um lugar óbvio nesta selecção – como Mónica Calle, Lúcia Sigalho ou Cão Solteiro –, preferiram dirigir a sua atenção para Miguel Bonneville e Sónia Baptista.

“São estes artistas”, ressalva Cláudia, “mas podiam também ser o Rogério Nuno Costa ou a Patrícia Portela". "Há uma série de pessoas que foram fundamentais para nós enquanto pensadores de espectáculos, do que é o teatro, dos limites. São pessoas que povoaram o nosso imaginário e que, apesar de as estéticas poderem divergir, têm um léxico que nos é familiar. É como se fossem uns primos que estão a trabalhar no quintal do lado”, justifica.

Em cada uma das sessões será possível assistir às quatro performances, cabendo a André e. Teodósio recriar Haikus, de Sónia Baptista, enquanto Cláudia Jardim será responsável por um novo olhar dedicado a Teatro#2, de Miguel Bonneville. A actriz lembra-se bem de ter testemunhado a apresentação original de Teatro#2 , na Casa Conveniente, em 2005. “Saí de lá completamente alucinada, aquilo fritou-me o cérebro”, recorda. “Havia um lado desbragado e quase selvagem, em que ele se atirava a personagens completamente loucos e contava histórias que não se percebia se eram ficcionadas, reais ou uma mistura das duas coisas.”

Aquilo que mais terá impressionado Cláudia na altura, a par da coragem de desancar nomes da arte contemporânea nacionais e internacionais nomeando-os de forma clara e da instabilidade constante da peça, foi Bonneville “ter todo o mecanismo teatral a funcionar” para, em seguida, se abandonar a um discurso improvisado, balizado apenas por algumas etapas de histórias e assuntos definidos previamente. Cláudia seguirá as mesmas etapas, mas a partir daí tudo pode acontecer.

Namoro concretizado

Juntamente com Pedro Penim, Cláudia Jardim apresentou em 2001, no Centro Cultural de Belém, a performance Profundo Delay. Essa será uma das duas criações originais dos Praga – a outra, Noite de Estreia, ficará a cargo de André Guedes –, por estes dias entregues a dois jovens actores que têm andado no radar do Teatro Praga mas com quem, até agora, o namoro não se tinha concretizado. Ana Tang, que fora dirigida por Pedro Penim em Bilingue, texto de José Maria Vieira Mendes para um espectáculo de finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema, foi chamada a pegar em Profundo Delay e a escolher um actor que a acompanhasse. Acabou por escolher Paulo Pascoal – que só por acidente não integrou o elenco da produção dos Praga Zululuzu.

Na primeira vez que Ana Tang assistiu a um espectáculo da companhia – A Tempestade, no Centro Cultural deBelém – confessa ter ficado “profundamente confusa”. “Estava a acontecer uma data de quebras de códigos teatrais que, na altura, não conseguia perceber, porque nem dos códigos em si eu estava consciente. Ao mesmo tempo foi um deslumbramento grande, um espectáculo cheio de coisas a acontecer, um tipo de representação que nunca tinha visto – foi como se estivesse a contactar com uma promessa de novidade que não se esgotava. Fiquei contagiada por aquilo sem sequer perceber porquê.”

Passados sete anos, Profundo Delay não deixará de conter efeitos desse contágio. Na verdade, todo o ciclo parece uma celebração de contágios.