Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Porto: regulação protege os moradores da “Movida”. E de dia?

Menos regulação, mais educação — eis a estratégia que Cláudia Rodrigues, autora de uma tese de doutoramento sobre a noite do Porto, considera que deveria ser adoptada para gerir a Movida. No entanto, alerta, moradores têm hoje novas preocupações: a gentrificação é um deles

A autora da tese de doutoramento A Cidade Noctívaga: Ritmografia Urbana de um Party District na Cidade do Porto considera que, numa altura em que irá entrar em breve em vigor o novo regulamento da Movida (ver coluna à esquerda), a estratégia a seguir para harmonizar a relação entre noctívagos e moradores não deveria passar tanto pelo controlo e consequente “domesticação da rua e da noite”, mas pela “educação para a cidadania e o uso público”.

“Não acho que o caminho seja pela limitação. Falta a parte da consciencialização cívica, que é [um processo] mais moroso do que impor regras e cortar.” Não tanto regular, antes “educar” com estratégias de redução de riscos. Através de campanhas, por exemplo (“A cidade é tua à noite, mas também é dos outros durante o dia” podia ser uma das mensagens). O quadro actual, pensa a investigadora, está demasiado centrado no “excesso” de consumos, por exemplo de álcool e de outras substâncias, quando na realidade “já há muita gente que tem consciência dos limites e faz uma auto-gestão dos prazeres”. “Há uma diabolização dos consumos”, enfatiza, não sem antes concluir: “Se há exageros, também há cada vez mais pessoas informadas e que se auto-regulam”.

Estratégias, como disponibilizar testes de álcool, possibilitam que as pessoas “estejam mais conscientes” do que consomem, sem propriamente serem “controladas” com normas — como a proibição da venda de bebidas para consumo na via pública a partir das 21h na zona de animação nocturna. Que, reflecte a doutorada, até pode “aumentar a criatividade à transgressão”. Ainda para mais, lembramos nós, quando falamos de um povo, português, mundialmente conhecido pelas grandes capacidades de desenrasque. Outras estratégias poderiam passar pela reutilização de copos, à semelhança do que acontece em festivais de música, para diminuir o lixo nas ruas, e um plano de insonorização das casas dos residentes que contemplasse, “pelo menos”, a aplicação de janelas duplas, uma “responsabilidade” que, no entender de Cláudia, a Câmara do Porto deveria assumir.

 

É “possível”, ainda que “complicado”, conseguir “satisfazer novos e idosos, ricos e pobres, trabalho e lazer”. Diurnos e nocturnos. Em última análise, “toda a gente tem direito à cidade” — porém, questiona Cláudia, será hoje a Movida o foco principal das preocupações dos portuenses? “Existe este regulamento para proteger os moradores destas zonas, mas não há nada que assegure que não são convidados a sair das suas habitações.” Ou que, por causa da "turistificação" e respectiva pressão imobiliária, não desaparecem estabelecimentos “resilientes” que “durante anos sustentaram a zona”, acrescenta a investigadora, crítica do neoliberalismo que, diz, se direcciona sobretudo para city users e não propriamente para habitantes. “Como política urbana”, alerta, “deveria haver uma concentração no que está a acontecer de noite e de dia na cidade, com o turismo, os fluxos de city users e o perigo da gentrificação.”