Pela quarta vez, o Atalaia prova que a arte não pertence aos centros

O festival de arte contemporânea volta ao Baixo Alentejo, nesta quinta-feira. Aljustrel e Ourique vão ser o palco das obras que cresceram da colaboração entre 13 artistas e a comunidade.

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Arte Necessária, de Diogo da Cruz Diogo Quaresma/Atalaia Artes Performativas
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Arte Necessária, de Diogo da Cruz Diogo Quaresma/Atalaia Artes Performativas
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Still do filme Me and the people, de María Teresa García María Teresa García
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Still do filme Me and the people, de María Teresa García María Teresa García
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António Ferreira e Rui Gueifão, autores de Enxerto António Ferreira e Rui Gueifão
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Ruben Green, co-autor de The Maybe Museum, nas minas de Aljustrel Diogo Quaresma/Atalaia Artes Performativas
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Ruben Green, co-autor de The Maybe Museum, nas minas de Aljustrel Diogo Quaresma/Atalaia Artes Performativas

O Atalaia Artes Performativas vai, pela quarta vez, levar a arte contemporânea ao Baixo Alentejo, entre esta quinta-feira e 8 de Julho. Aljustrel e Ourique foram as localidades escolhidas para receber o festival que, apesar do curto tempo de vida, já se propõe a uma missão difícil: descentralizar a produção artística, revitalizar a cultura local e formar públicos na região.

Treze artistas de oito nacionalidades, seleccionados por um júri especializado num concurso internacional, instalaram-se até esta quinta-feira em oito diferentes residências, nas duas vilas do distrito de Beja, e desenvolveram as suas criações em colaboração com os locais.

A programação do festival, de entrada livre, conta com diversos artistas portugueses e estrangeiros. Um deles é Diogo da Cruz que, com o seu projecto, faz com que a arte deixe de ser um ente estranho e entre em casa das pessoas como se nada fosse. Ana Nobre, directora-artística do festival, revela que a Arte Necessária partiu de uma reflexão sobre “o que é a obra de arte e de como o público tem de se deslocar para ver algo que está encerrado num espaço institucional”. No Atalaia, Diogo da Cruz quis fundir a arte com o quotidiano: “No seu dia-a-dia na residência, ele tentou extrair e questionar as pessoas sobre aspectos da sua própria comunidade, que mereçam divulgação e, depois, imprimiu as ideias nos sacos de pão.” E qualquer um que passe pela Padaria de Ourique, no dia 7 de Julho, entre as 8h e as 13h e as 16h e as 18h, vai poder ficar com um dos exemplares.

Não há arte sem o “outro”

No mesmo dia, a venezuelana María Teresa García vai apresentar a instalação de videoarte Me and the people, às 22h, no Café Central, em Ourique. O vídeo é narrado por três testemunhos, que partilharam o seu conceito de “perda” com a artista. Uma partilha mais íntima, mais difícil, mas que funcionou. Aqui, tal como Ana Nobre explica, a arte “constrói-se a partir do que o outro tem e pode, quer, ou não, dar ao artista”.

Também o projecto Enxerto, de António Guimarães Ferreira e Rui Gueifão, pede ajuda à comunidade. A dupla de artistas portugueses “construiu uma carroça que vai fazer um percurso entre Aljustrel e Ourique, com vários pontos de paragem”, explica. Nesta viagem, o objectivo é que as comunidades interajam com os artistas para “participarem no processo da construção de uma escultura, quer na montagem, quer na decisão do local onde a escultura vai ficar, durante a estadia dos artistas na aldeia”. Depois, no dia seguinte, a escultura é desmontada e colocada na carroça até à chegada ao próximo ponto. Um processo que vai ser transmitido, 10 minutos por dia, em live streaming no Facebook do festival. A primeira paragem é já nesta sexta-feira, na Praça da Resistência, em Ajustrel, e a última é no dia 6 de Julho, na Avenida 25 de Abril, em Ourique.

O festival que funde as artes performativas à música, vídeo e instalação, arranca nesta quinta-feira, às 19h, no Jardim 25 de Abril, em Aljustrel, com o espectáculo de novo circo Remember, do mexicano Guillermo Léon. No sábado, é vez de Ruben Green e Sophie Mak-Schram mostrarem o The Maybe Museum, que se desenrola ao longo de três percursos na vila. Ajustrel ainda vai acolher a performance  Unfolding Time, do sul coreano Myungduk Kim e Phi, do colectivo Stratofyzika. No dia 6 de Julho, o festival muda-se para Ourique e recebe um concerto do músico alentejano Paulo Colaço, uma peça de teatro e de dança da norte-americana Katelyn Skelley, Never Free of It, entre outros.

Desde o início que o Atalaia quis aproveitar os cineteatros e auditórios que as cidades têm disponíveis. Mas não se encerrou neles, conta Ana Nobre: “Quisemos trazer a arte para a rua e confrontar as pessoas que não se deslocam para ir a espaços específicos, com a arte ao vivo e em espaço público.”

O festival alentejano tem vindo a crescer de forma significativa ao longo das edições. Em 2016, passaram por lá cerca de 1200 pessoas, em mais de duas dezenas de iniciativas.

Texto editado por Isabel Coutinho