O Pinhal Interior Norte onde se situa Pedrógão já é metade eucaliptal

O que aconteceu em Pedrógão podia ter acontecido em “três quartos do país”, alerta presidente do Fórum Florestal.

Reuters/RAFAEL MARCHANTE
Foto
Reuters/RAFAEL MARCHANTE

Praticamente localizado no centro geográfico de Portugal, Pedrógão Grande insere-se no agrupamento de concelhos do Pinhal Interior Norte. Actualmente, porém, o pinheiro que dá nome à região circunscreve-se a não mais que metade do território: o restante foi colonizado pelo eucalipto, “sobretudo desde que, na década de 80, o pinheiro bravo foi progressivamente destruído pelos sucessivos incêndios”, como recorda António Louro, presidente do Fórum Florestal, a maior federação de produtores florestais do país.

A mistura entre as duas espécies é “um desastre em termos de paisagem”, como lembra António Louro, para explicar que “o pinheiro bravo dá severidade ao incêndio, ainda mais em zonas como aquelas de povoamentos jovens, enquanto o eucalipto ajuda a projectar o incêndio tornando-o muito mais difícil de controlar”. Mas isto que se diz de Pedrógão Grande podia dizer-se de “três quartos do país, do Minho até ao Alto Alentejo, que têm condições de coberto vegetal muito semelhantes”.

No caso de Pedrógão Grande – e dos concelhos que com ele fazem fronteira, de Castanheira de Pêra a Góis, passando por Sertã e Figueiró dos Vinhos – o cenário agrava-se à boleia do progressivo despovoamento das aldeias que se repartem pelas três freguesias do concelho. “Até à década de 80 havia muita gente a explorar pequenas parcelas agrícolas, bastante gado e logo um certo controlo da paisagem. À medida que as pessoas foram saindo, desapareceu o gado e a floresta acabou por cobrir tudo, de forma artificial ou natural, porque basta não fazer nada no terreno para que ele se encha de floresta”, lembra ainda António Louro.

População reduziu-se de forma acelerada

Os últimos censos mostram que a população de Pedrógão Grande tem vindo a diminuir de forma muito acelerada: entre 1991 e 2011, perdeu 14,9% dos seus habitantes que estão agora reduzidos a menos de quatro mil para um total de 129 quilómetros quadrados. “Há, nesta região, concelhos em que mais de 75% da terra pertence a pessoas que não moram no seu território e que, portanto, não conseguem fazer uma gestão directa das suas propriedades”, caracteriza António Louro, dizendo-se esperançoso que este incêndio possa “obrigar o país ser mais severo na intervenção e na fiscalização junto dos proprietários”.

A lição que se deve retirar deste incêndio de Pedrogão aplica-se assim ao resto do território nacional, segundo o presidente do Fórum Florestal: “O problema dos incêndios não se resolve com o reforço do dispositivo de combate; é um problema de ordenamento do território e, portanto, previne-se controlando a paisagem e controlando os combustíveis.”