Teju Cole e Han Kang na Feira do Livro que o Porto dedica a Sophia

Com uma programação cultural reforçada, a edição deste ano vem confirmar que o novo modelo de feira lançado em 2014 é mesmo para manter.

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A Feira do Livro do Porto regressa aos jardins do Palácio de Cristal no dia 1 de Setembro, homenageando este ano Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e propondo um extenso e variado programa cultural, que incluirá um conjunto de debates com escritores portugueses e estrangeiros comissariado por José Eduardo Agualusa, um ciclo de spoken word concebido por Anabela Mota Ribeiro, uma mostra de cinema, uma exposição de arte contemporânea centrada nos quatro elementos, uma série de “lições” dedicadas a escritores de língua portuguesa, e ainda sessões especiais das Quintas de Leitura e do ciclo Um Objecto e seus Discursos por Semana.  

A programação foi anunciada esta sexta-feira por Rui Moreira na Feira do Livro de Madrid, onde a Câmara do Porto está presente com um pavilhão próprio, utilizado para divulgar autores da cidade, mas também para promover internacionalmente a feira portuense. E o programa agora divulgado por Moreira sugere que a autarquia está empenhada em manter e desenvolver o modelo de feira estreado por Paulo Cunha e Silva em 2014: uma feira directamente organizada pela Câmara, que assume também a coordenação geral de todas as actividades paralelas. E a verdade é que, até ver, esta nova feira no Palácio de Cristal tem mostrado viver bem sem as mega-representações dos principais grupos editoriais que marcavam as anteriores edições promovidas pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.

O programa cultural desta edição de 2017 inicia-se no dia 1 de Setembro com a inauguração, na Galeria Municipal, da exposição de arte contemporânea Quatro Elementos, inspirada em dois versos de Sophia: “A terra o sol o vento o mar/ São a minha biografia e são meu rosto”. A Câmara convidou quatro curadores, atribuindo um elemento natural a cada um deles: Pedro Faro ficou com o fogo, Eduarda Neves com a terra, Nuno Faria com o ar e Ana Luísa Amaral com a água. Embora a feira encerre a 17 de Setembro, esta quádrupla exposição manter-se-á até Novembro para fazer a ligação ao Fórum do Futuro, que este ano tem como vasto tema o planeta que habitamos.

Ainda no mesmo dia, à noite, inaugura-se o ciclo de spoken word com Uma Máquina Voadora Movida por Vontades, uma performance de André e. Teodósio e do Teatro Praga que assinala os 35 anos da publicação de Memorial do Convento, de José Saramago.

Uma tília para Sophia

O ciclo de debates com escritores começa no dia seguinte, sábado, e novamente sob o signo de Sophia, com uma sessão que assume como mote os já referidos versos do poema final do livro Geografia (1967), e que porá em diálogo Frederico Lourenço, o mais recente Prémio Pessoa, e a ensaísta e poetisa Ana Luísa Amaral, moderados por Miguel Sousa Tavares.  

O tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen, que nasceu no Porto e sempre manteve fortes ligações à cidade, incluirá ainda a tradicional atribuição simbólica de uma das árvores da Alameda das Tílias, que se vai convertendo num passeio de escritores, onde têm já lugar cativo Vasco Graça Moura, Agustina Bessa-Luís e Mário Cláudio.

Até ao final da feira, e sempre aos sábados e domingos, o programa dirigido por José Eduardo Agualusa, no qual se discutirão temas como O sagrado e o profano na literatura, Caminhos da nova literatura africana ou O corpo e o mal, levará ainda ao Palácio de Cristal os escritores José Tolentino Mendonça, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso, Bruno Vieira Amaral, Djaimilia Pereira, Alexandra Lucas Coelho, Gonçalo M. Tavares, a brasileira Tatiana Salem Levy, o nigeriano-americano Teju Cole e a coreana Han Kang, cujo romance A Vegetariana venceu o Booker International Prize em 2016, no mesmo ano em que Agualusa chegava à shortlist com Teoria Geral do Esquecimento.

A sessão De Ana Hatherly a Tarkovski, com “palavras, imagens e um fio de música”, juntará no dia 8 quatro protagonistas com um pé (ou dois) no Brasil: a poetisa Matilde Campilho, o artista plástico, escritor e músico Tomás Cunha Ferreira, o compositor, cantor e poeta Mariano Marovatto e a cineasta e produtora russa Anastasia Lukovnikova. É o segundo momento do programa de spoken word, que evocará ainda os 40 anos da morte de Clarice Lispector e dedicará uma sessão ao romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas.

Também comissariado por Anabela Mota Ribeiro, o programa Lições é uma espécie de curso breve de literatura contemporânea de língua portuguesa, em cujas “aulas” será possível ouvir Carlos Mendes de Sousa falar de Clarice Lispector, Carlos Reis abordar o Memorial do Convento, Ana Luísa Amaral evocar a poesia de Sophia, Clara Rowland aventurar-se na Máquina do Mundo de Carlos Drummond de Andrade, e Fernando Pinto do Amaral mostrar como a poesia de David Mourão-Ferreira traça um percurso que vai “do tempo ao coração”.

O já habitual ciclo de cinema co-organizado com a Medeia Filmes, cujas sessões são sempre apresentadas por um convidado, foi este ano concebido em torno do tema Os Quatro Elementos e dará a ver, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, Quando o Rio se Enfurece (1960), de Elia Kazan, O Sacrifício (1973), de Robin Hardy, O Fim do Mundo (1992), de João Mário Grilo, Adeus a Matiora (1983), de Elem Klimov, e Um Caso de Vida ou de Morte (1946), de Michael Powell e Emeric Pressburger. A estas sessões soma-se ainda, no dia 5, a exibição do documentário Terra e o Homem, de Manuel Guimarães, redescoberto em Braga no ano passado. Será agora mostrado em conjunto com o documentário que Leonor Areal montou a partir de excertos de filmes e textos deste realizador neo-realista que o salazarismo perseguiu e censurou: Nasci Com a Trovoada - Autobiografia Póstuma de Um Cineasta.

No dia 9, sábado, se já estiver um bocadinho cansado de correr as bancas de livros, nada como desentorpecer as pernas com uma cachimbada no auditório da biblioteca. Uma cachimbada simbólica, entenda-se, que a lei proíbe as literais, e por interposto cachimbo, mais precisamente o que pertenceu a António Nobre, protagonista de mais uma sessão do ciclo Um Objecto e seus Discursos, que terá como oradores o médico pneumologista António Ramalho de Almeida e a ensaísta Paula Morão. O que um e outro dirão do cachimbo não se sabe, mas sabe-se o que dele disse o próprio Nobre no final de um poema que lhe dedica no : “(…) Coloca, sob a travesseira/ O meu cachimbo singular/ E enche-o, solícita enfermeira,/ Com ‘Gold-Fly’, para eu fumar...// Como passar a noite, amigo!/ No ‘Hotel da Cova’, sem conforto?/ Assim, levando-te comigo,/ Esquecer-me-ei de que estou morto…”.

Notícia alterada no dia 29 para corrigir o apelido de Pedro Faro.