Ler Cannes por um canudo

Antes dos filmes, chegam os livros. O delegado-geral do festival publica o seu diário de um ano de programação em que ajusta contas com um cineasta português. Um jornalista circula nas festas e encontra estrelas assustadas em elevadores.

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O festival começa na quarta-feira dr

Cannes 2017 começa esta quarta-feira, avista-se daqui, há portugueses nas secções paralelas: na Quinzena dos Realizadores, a longa A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, as curtas Farpões, baldios, de Marta Mateus, e Água Mole, de Laura Gonçalves e Xá (animação); na Semana da Crítica outra curta, Coelho Mau, de Carlos Conceição. Mas na Sélection Oficielle de Thierry Frémaux, o diário que o delegado-geral manteve entre o encerramento da edição 2015 e a abertura da de 2016, o filme português escolhido é As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes. Leia-se como: “Depois de Tabu, o seu magnífico filme anterior, Miguel Gomes faz parte desses cineastas privilegiados por alguma opinião segundo a clássica mecânica de consagrar cada novo filme como obra-prima antes de ser visionado.”

Não há como temperar a irritação. Ao preparar 2016, Frémaux estava na ressaca das polémicas da edição que findara. Uma delas por ter recusado o filme português para o concurso, oferecendo-lhe, em vez, a secção Un Certain Regard. Na altura, o produtor Luís Urbano dizia que isso lhe cheirava a “prémio de consolação”, pouco para “um filme completamente rock’n roll” que a competição do maior festival de cinema do mundo deveria caucionar. Refeito da desilusão, aceitou a alternativa Quinzena. Onde o filme se reinventou com vingança: tornou-se “o” acontecimento, acicatou a rivalidade entre a Selecção Oficial e a Quinzena. E a luta continua.

“Frémaux não quis ficar com o meu filme, está tramado”, terá dito Miguel Gomes, segundo está escrito em Sélection Oficielle. “Perdoo-lhe”, responde o delegado-geral. “Como é que um cineasta pode conservar o sentido das proporções quando é objecto de tamanha exaltação crítica? As Mil e uma Noites é um fracasso porque a opinião de alguns elogiadores febris não é a mesma dos espectadores cuja opinião é imediata, conhecedora e sincera.” Aqui Frémaux dá uma estocada de ironia (mas o que quer provar?) utilizando os resultados decepcionantes da estreia das três partes de As Mil e uma Noites em França: enquanto O Inquieto, O Desolado e O Encantado iam chegando às salas, as receitas, diz ele, progrediam em sentido contrário, do encantamento à desolação.

As amizades e os filmes

Sélection Oficielle foi editado no início de 2017, 70.ª edição de Cannes. Faz o leitor sentir que se movimenta dentro do mecanismo, os visionamentos e as decisões, altura em que as portas se fecham sobre as amizades, até à escolha do presidente do júri: quando é que Godard aceitará o convite, assim descobrindo um qualquer “director de fotografia búlgaro”, como disse um dia, que possa estar entre os jurados?. Justifica a existência dos “suspeitos do costume” – sempre houve, diz, o festival precisa deles para a competição como de stars para a passerelle (antes chamavam-se Fellini, Antonioni e outros que tais, hoje como é que se chamam: Jean Pierre e Luc Dardenne ou Nicolas Winding Refn ou Paolo Sorrentino...?)  Numa coisa pode ter razão: os que criticam a presença dos“abonnés”, podem noutra ocasião lamentar a ausência desses valores seguros. E essa perda pode ser sentida já este ano numa competição que os programadores apresentaram como tirada a ferros porque vários potenciais candidatos não tinham filmes prontos. É notório que aquilo que é a Palma de Ouro ideal para Frémaux— filme de autor, sucesso e estrelas —, o “filme Cannes”, em suma, é modelo cercado por vários lados.

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Thierry Frémaux, Monsieur Cinéma, Gilles Jacob, Citizen Cannes: temperamentos opostos que marcaram e marcam um festival Benoit Tessier/REUTERS
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Sélection Oficielle admite erros. Ter recusado Vera Drake, de Mike Leigh (que foi buscar o Leão de Ouro a Veneza 2004). Ter ignorado Kathryn Bigelow, e logo com o filme, The Hurt Locker, que a tornaria a primeira mulher a receber o Óscar de melhor realizador. Ter recusado Trois Souvenirs de Ma Jeunesse. A selecção oficial e Arnaud Desplechin já fizeram as pazes, entretanto, a escolha do cineasta para júri no ano seguinte foi a cicatrização, e em 2017 o festival abre com o seu novo filme: Les Fantômes d’Ismaël.

“Quero ficar amigo de toda a gente”, diz Frémaux. “Os filmes passam mas as amizades continuam”, continua. Isso não o impede de dizer “não”, mas gaba-se de ser eclético: é amigo de Clint Eastwood e de Kean Loach – da mesma maneira que, fã ardente de Bruce Springsteen, fazendo seu roteiro pessoal os concertos do músico, tem na sua playlist Lara Fabian. Fez as pazes com Abel Ferrara depois de ter posto de lado o espantoso Welcome in New York (2014), que, marginalizado, foi exibido em barraca de praia, misturando-se com o gorduroso ruido da Croisette (delirante, Depardieu e Jacqueline Bisset a alinharem na luz underground). Mas Emir Kusturica escreveu-lhe a dizer: “Thierry, a partir deste momento deixamos de ser amigos” depois da não selecção de Na Via Láctea. É enigmático (no mínimo) ver Frémaux acarinhar como a um bebé o novo projecto de Sean Penn, zelando para colocar em competição The Last Face, que é um pedaço cheio de si de turismo humanitário (porque foi ele que colocou Penn pela primeira vez no concurso, em 2001, com The Pledge?), quando Kusturica talvez se tenha despedido do cinema com um lindíssimo canto de cisne, gestos de um cinema que já desapareceu, e Cannes desperdiçou sobranceria para com esse cineasta, dos poucos premiados com duas Palmas de Ouro (O Pai foi em Viagem de Negócios e Underground).

Sobre o eclectismo, ficou demonstrado logo na primeira selecção em que Frémaux meteu as mãos, a de 2001 (quando Gilles Jacob, na altura delegado-geral, o convidou para seu “segundo”): Godard, Oliveira, Haneke, Rivette, Moretti, Hou Hsiao Hsien, Shrek (é Frémaux o responsável pelas animações na selecção oficial) e Moulin Rouge a abrir, contentando jornalistas, fotógrafos e paparazzi. Foi há tão pouco tempo e faz figura de ter sido noutro mundo. Frémaux passará ao largo de disposições apocalípticas. Quem o conhece diz que vê sempre copos meios cheios. Mas as suas páginas abrem-se a erupções terminais de outros, e ficam a pairar – dá conta de um telefonema de um amigo, e não é qualquer um, é Pierre Rissient (cineclubista, produtor, attaché de presse, em tempos conselheiro artístico do festival), a dizer-lhe que há cada vez menos bons filmes, que “a imprensa não sabe o que fazer para existir”, entre demasiados jornalistas que relatam o que quer que seja, conscientes de que falar de filmes se tornou um vício secreto, e os seus editores que procuram o impacto mediático a todo o custo e sem gosto – em 2016, fariam parte desse retrato de gente à beira do fim 1900 órgãos de informação que fizeram trabalhar 4399 jornalistas e técnicos.

Thierry & Gilles

São números que aparecem em Voir Cannes & Survivre, do jornalista Carlos Gomez. Livro em que há três personagens, Thierry Frémaux, Gilles Jacob e ele próprio, o jornalista. Começa por ser o relato da afirmação “en douceur” do primeiro para lá dos obstáculos criados pelo segundo. Frémaux foi escolhido por Jacob no início dos anos 2000. Primeiro como programador artístico, passou a delegado-geral em 2007 quando Jacob passou a Presidente. No seu livro, Frémaux dá conta dos mundos que os separam, da forma como Jacob baseava o seu poder no segredo, na sacralização, e como ele defende que o poder está, antes, em colocar-se na origem da circulação da informação. Jacob criticava Frémaux por ele dar o telemóvel a todos, por se misturar, mas atribui isso — páginas elegantes de cortesia, respeito e admiração, não de empatia — ao temperamento aristocrático daquele que um dia o foi buscar ao Instituto Lumière de Lyon e lhe deu instruções para conseguir que os americanos regressassem à Croisette.

Gomez rompe a cortesia em relação a Jacob: o homem que convenceu Coppola a mostrar Apocalypse Now em Cannes (1979), “é mais Borgia que João Paulo II”, ficou demasiado tempo na direcção, monarca no seu reino. “Jacob fez o festival dos talentos seguros, nunca foi um grande descobridor.” Quando se pergunta a Gomez qual, afinal, a importância daquele a quem se chamou Citizen Cannes — apesar do retrato de um homem que “reinou com o medo e continua a fazer medo” —, diz-nos: “Foi ele que, para o bem e para o mal, fez do festival uma empresa. Antes o festival estava dependente de financiamentos públicos, com ele entraram os sponsors. E Cannes tornou-se uma vitrina não só de cinema” – Cannes, tal como o conhecemos, as estrelas e a exposição mediática, é, enfim, Jacob. Frémaux, na perspectiva de Gomez, é a entrada em cena do afecto, é a humanização. “Chegou a Cannes com a experiência de receber os seus convidados em Lyon, no festival Lumière, que convida nomes do cinema para ali apresentarem filmes antigos” — festival não competitivo que ainda dirige. “Muitas dessas pessoas passam depois por Cannes por causa dele. Ele estabeleceu um contacto privilegiado com o mundo do cinema” – essa forma, também para o bem e para o mal, de não colocar barreiras. (Talvez explique a aprovação do jornalista sobre os 16 anos de Frémaux em Cannes o facto de haver sintonia geracional; ambos eram miúdos quando ouviram falar pela primeira vez do festival: o escândalo A Grande Farra, filme de Marco Ferreri).

A outra personagem é ele, jornalista. Desenha-se como personagem colectiva: é suposto representar os que acordam de manhã para os filmes pouco depois de se terem deitado após festas decadentes. Como assim, festas? “Sem festas o acontecimento não seria mais do que um seminário de ratos de Cinemateca.” Há vários festivais em Cannes, então, e o de Carlos Gomez não é igual ao dos outros, o dos ratos. Repórter para a publicação Gala, circula dos filmes para as estrelas e vice-versa, cruza-se oito segundos no elevador com uma Faye Dunaway que parece um vampiro assustado pela luz e pela curiosidade dos outros, e que o adverte severamente “não olhe para mim” para no final da subida pedir desculpa, estava cansada (é disto que Gomez gosta, de cercar a humanidade destes seres “que são como nós e ao mesmo tempo são únicos”). Para além disso, revelando o sistema de hierárquico que em Cannes pode ser “uma cura de humilhação permanente” para quem não tem os cartões de acreditação com as cores valorizadas, é ele próprio o beneficiário — irónico, é verdade — dos privilégios.

“Os meus dias em Cannes começam às 8h30 da manhã e acabam às quatro da madrugada. É obrigatório, é uma obrigação moral, ver tudo a 100 por cento. Vamos aos filmes, esses filmes podem entusiasmar-nos, aborrecer-nos, depois temos de obedecer à pressão do editor, que viu na TV que falaram na Sharon Stone e pergunta porque é que não falámos na Sharon Stone, ou no filme que falaram na TV, e depois precisamos de sair disto” – as festas; numa festa pode estar o assunto da crónica seguinte.

O Festival de Cannes, resume, é como os Rolling Stones. Edições fracas, maus filmes? “Sempre houve”. O formato está em perda ou continua a fazer sentido? “Continua a ser plataforma única de descoberta, proporia que fosse mais modesto, menos dias, menos filmes. Mas o problema hoje são as redes sociais, que matam um filme em 140 caracteres. A separação entre o trigo e o joio faz-se depois, mas até lá não é possível restringir. O que me irrita é a falta de curiosidade de certos jornalistas. Temos a sorte de sermos pagos para durante 14 dias nos sentarmos numa sala. Muitos esquecem-se disso: todas as manhãs temos a sorte de podermos ser irradiados por uma visão fulgurante.” Concorda que “este ano talvez não tivesse havido muito sol e chuva” para produzir excepção. E que “quando se pensa no que acontece no mundo”, ficam claras as dificuldades da ficção em se impor. Vê por isso na programação deste ano uma estratégia para, com os documentários — de Claude Lanzmann, Raymond Depardon, Eugene Jarecki, Barbet Schroeder ou Agnès Varda —, ser reposto um equilíbrio. “Para um realizador de ficção, talvez seja mais difícil hoje dar conta do mundo. As melhores salas de cinema são os canais de informação”.