Xerazade, o último canto

O Encantado, o último volume do mais recente filme de Miguel Gomes, foi apresentado na Quinzena dos Realizadores, secção alternativa à selecção oficial do festival de Cannes.

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E os pássaros cantam em O Encantado

As Mil e uma Noites termina a cantar, longo genérico final a ser acompanhado por palmas e movimentos de corpo a marcarem o compasso no Théâtre Croisette, Cannes.

No sábado tinha sido O Inquieto, na segunda-feira O Desolado, quarta-feira chegou ao fim com O EncantadoFoi assim, em três volumes, que se metamorfoseou o desejo de histórias do filme de Miguel Gomes. Aconteceu na Quinzena dos Realizadores, secção alternativa à selecção oficial do festival que se revelou, afinal, a mais indicada para criar uma disponibilidade afectuosa – é que era também preciso tempo, e mais do que a duração do filme, seis horas, para a imaginação do espectador criar as suas narrativas nos intervalos de cada um dos volumes, o que não é nada compatível com o ritmo de usar e deitar fora de uma competição.

Foi ali mais ao fundo na Croisette, afastado do Palácio dos Festivais, que esse tempo foi inventado. No início deste festival Luís Urbano falava ao PÚBLICO de um desejo de “vingança”, na reinvenção como acontecimento em Cannes do filme que ele produziu, depois da recusa da Selecção Oficial em passar o filme no concurso, e ela serviu-se de forma festiva.

O Encantado, chama-se o último volume. É em cantado, também, o filme. É a última vez — Xerazade, depois de se calar quando o dia nasce, não volta a narrar. A propósito de Xerazade, parece ficar claro que ela cobra a figuração no filme. E que essas são as despesas que o realizador tem de fazer para justificar este dispositivo que foi influenciado, e não adaptado, pelas Mil e uma Noites quando se tratou de encontrar um formato para este Portugal governado pela troika.

Mas as Mil e uma Noites são puro encantamento quando o filme deixa de ter de se exibir enquanto proeza de invenção de novas regras, coisa que teve de fazer, naturalmente, no primeiro volume. Quando se coloca um passo à frente dessa dança do ventre, e existe no mais puro, infantil e aventureiro encantamento cinematográfico – o segundo volume é a jóia cinematográfica desta coroa, com aquela Torre de apartamentos em Santo António de Cavaleiros, com o cão com enorme vontade de amar e uma ainda maior necessidade de esquecer, o fumo de tabaco a sair pelas janelas, as vozes escondidas e tristes, Lionel Richie a cantar "Say you, say me; say it for always/That's the way it should be".

Em O Encantado Xerazade canta – pronto, já não é preciso aparecer mais. E cantam os pássaros nesta história de passarinheiros de Chelas, do Bairro da Boavista...que ocupa quase todo o volume. Cantam como se não houvesse amanhã. Mas os amanhãs não cantam aqui. É o volume mais doloroso dos três, aquele que, para além da guerrilha anti-troika da primeira parte, escava fundo na desilusão.

Os polícias protestam no Parlamento, e os pássaros cantam.

Grândola Vila Morena levanta-se com cravos e contra o governo, e os pássaros cantam.

Os pássaros cantam, e Miguel Gomes filma uma geografia social e afectiva da desilusão nacional. Depois de se ter várias vezes calado ao nascer do dia, e recomeçado, Xerazade não voltará a narrar em Cannes.

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