Editorial

Daqui a cinco anos veremos

Ainda falta tempo para saber se a estratégia de António Costa e Mário Centeno será sustentável.

A estratégia do Governo não é “tonta”, mas “está errada”, dizia numa entrevista à Lusa, em 2012, o economista e antigo ministro da Economia de António Guterres, Augusto Mateus, referindo-se ao caminho definido pelo Governo liderado por Pedro Passos Coelho. Porquê? “Porque nunca há tempo para que isto dê resultado”. “Não é possível que estas estratégias possam alcançar o tempo" para um novo começo. "Esse novo começo está para além do definhamento da sociedade, do definhamento da economia, da quebra da confiança, da desesperança”, sustentava o economista.

Quase cinco anos depois, o tempo parece ter dado razão a Augusto Mateus. Os portugueses não aguentaram a estratégia, ou pelo menos um número suficiente de portugueses não aguentou a estratégia, e antes de definhar, votou de forma a que houvesse uma mudança de Governo e uma mudança de caminho.

Hoje as várias estatísticas mostram um cenário completamente diferente em Portugal. Mês após mês, a confiança dos consumidores bate máximos. E mesmo sabendo que não existe razão que justifique tamanha euforia, também é inequivoco que o país está diferente. Não só pelo que tem sido feito internamente, mas também porque a União Europeia apresenta hoje, em termos económicos, um cenário bem mais positivo que no passado recente.

As previsões da Comissão Europeia divulgadas ontem mostram isso mesmo. A economia cresce pouco, mas cresce. O contributo externo para esse crescimento é negativo, mas o excedente externo mantém-se inalterado. O desemprego continua demasiado alto, mas está em queda. O défice, mesmo com a ajuda de medidas extraordinárias, vai diminuindo. A dívida pública, mesmo em valores estratosfericos, também está a diminuir. Portugal, dentro de semanas sairá do procedimento por défices excessivos e se não houver surpresas as agências de rating começarão a valorizar os resultados que têm sido alcançados. 

Quer isto dizer que a estratégia do actual Governo é a certa? Não necessariamente. 

Se em 2012, tal como Augusto Mateus dizia, não havia tempo para que a estratégia de Passos Coelho e Vítor Gaspar pudesse dar certo, hoje ainda falta tempo para saber se a estratégia de António Costa e Mário Centeno será sustentável. 

E essa é a grande dúvida que há hoje sobre a economia nacional, uma dúvida a que, genuínamente ainda ninguém conseguirá responder. Depende muito do que Portugal fizer daqui em diante. Se embarca na euforia do passado, ou se mantém um progresso cauteloso. Mas depende essencialmente do que acontecer na Europa. Daqui a cinco anos ver-se-à como estamos.