Roubo de atenção: é isto que fazem os anúncios indesejados e invasivos

Sem oferecer nada em troca, existem anúncios que estimulam involuntariamente o cérebro do consumidor, obrigando-o a prestar atenção mesmo que não queira.

Um dos exemplos de roubo de atenção é a Gas Station TV: os consumidores são "obrigados" a ver anúncios enquanto abastecem
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Um dos exemplos de roubo de atenção é a Gas Station TV: os consumidores são "obrigados" a ver anúncios enquanto abastecem DR

Há muito tempo que a publicidade é uma realidade inegável. Está um pouco por todo o lado: dos cartazes nas ruas às televisões, ao cinemas, aos ecrãs de computadores ou aos smartphones. Mas tem crescido o número de mecanismos de publicidade que actuam como “ladrões” da atenção dos consumidores, ao criarem um bombardeamento sensorial difícil de evitar. Ecrãs em salas de espera ou em postos de combustível são alguns destes exemplos. 

O roubo de atenção é a invasão da atenção de um indivíduo através de imagens, texto ou sons indesejados e urge saber quais as consequências destes estímulos constantes a nível cognitivo. Como escrevem o neurocientista Adam Gazzaley e o psicólogo Larry Rosen — que problematizam este conceito no livro The Distracted Mind —, citados pela Wired, a forma como, numa sociedade moderna, o cérebro vai alternando de estímulo em estímulo pode “degradar a percepção, influenciar a fala, inibir o processo de tomada de decisões e afectar a capacidade de guardar e recordar memórias pormenorizadamente”. 

Neste caso, falamos de roubo de atenção associada à publicidde. Certo é que há anúncios que são vistos para que se possa ter em troca algo desejado. Ao ver um vídeo no YouTube, por exemplo, são impostos anúncios (alguns deles podem ser ignorados ao fim de alguns segundos) antes da visualização do vídeo em questão. Mas, noutros casos, existe um bombardeamento de informação sensorial – sobretudo sons e imagens – através de anúncios que passam a estar disponíveis em televisores em aviões ou até em táxis e em outros locais quase inevitáveis; ademais, estes anúncios estimulam, involuntariamente, o cérebro humano.

A palavra-chave aqui é o consentimento. Em outros anúncios publicitários, como os televisivos ou em revistas, os anúncios são vistos de livre vontade – não há uma obrigação para o fazer. Só que o caso muda de figura quando falamos de salas de espera em hospitais ou, nos Estados Unidos, através da Gas Station TV, uma empresa que instala televisores em bombas de gasolina que prendem a atenção do consumidor com anúncios sem que haja muito por onde escapar.

Fala-se em roubo de atenção precisamente por ser difícil ignorar estes estímulos e por não existir uma compensação pela sua visualização.

A publicidade nem sempre é bem-vinda, mesmo quando não se trata de anúncios invasivos. Só em Portugal, 26% dos consumidores de notícias online recorrem a bloqueadores de anúncios, sobretudo porque não querem ser incomodados. 

Para resolver a questão dos anúncios invasivos, pouco há a fazer. Por um lado, há a opção de boicotar as empresas que optam por este tipo de publicidade, ainda que se possa tornar numa tarefa árdua, já que há serviços difíceis de evitar (como acontece com as salas de espera). Por outro lado, poder-se-á optar por legislar a presença de publicidade no espaço público, sobretudo se se tratar de publicidade invasiva e não consensual. E, assim, fica a dúvida: até que ponto é que a publicidade que exige a nossa atenção sem que a queiramos dar é legítima?